Categoria: Pequenas histórias

  • A estranha

    Imagem com IA

    by Robertson Mayrink

    “É um Primitivo. Italiano. Tem aroma intenso, frutado com toques de ameixa, especiarias e baunilha.” “Eu não entendo nada de vinhos. Gosto, apenas.” Enquanto virava lentamente o líquido na taça de Camila, Fernando pensou em mudar de assunto, disfarçar também sua ignorância sobre o assunto. Acabou revelando. “Eu também não. Foi indicação do vendedor. As características decorei da Internet. Na verdade, entrei pela primeira vez em uma casa de vinhos. Para impressionar você.” Camila sorriu e levou a taça aos lábios. Por um momento, vermelhos se confundiram. Depois, juntou sua boca ácida à de Fernando.

    Dois anos antes, Fernando estava sentado em uma pizzaria com a mulher e um grupo de amigos. Ele nem sabia o que fazia ali, ficou calado a maior parte do tempo, o dedo dando voltas na borda do copo de chopp. Às vezes sorria, fazia um comentário qualquer, se voltava para o copo. Despertava com a gargalhada da mulher, alta, estridente. Nos primeiros anos de casado, ele se divertia com esse rir espontâneo. Gostava da risada aberta, sem pudor. Aos poucos, a admiração se transformou em indiferença e, em vários momentos, irritação.

    Notou isso pela primeira vez em uma sexta-feira à noite. Assistiam a um DVD, uma leve comédia romântica. Fernando não achou graça no filme, mas sua mulher ria, ria. Uma raiva repentina tomou conta dele, temendo mostrar irritação, inventou uma desculpa qualquer e saiu da sala. Entrou no chuveiro, deixou a água morna cair sobre o corpo por quase dez minutos. Seus ouvidos ainda escutavam as risadas na sala. Só voltou a assistir ao filme no início da madrugada, quando a mulher já dormia. Deixou o som do home-teather baixo, quase um sussurro. Gostou do filme, surpreendeu-se rindo sozinho na sala.

    Sentiu um aperto de mão em sua coxa e levantou os olhos do copo de chopp. Tentou participar da conversa, riu da piada de um dos amigos. A mulher deitou o rosto em seu ombro. Fernando apertou a mão dela, os olhos se desviaram de novo para a mesa em frente.

    Ele a vira assim que se sentara à mesa: morena, cabelos pretos cortados rente à orelha, deixando o longo pescoço à mostra. Ela estava sentada com amigas duas mesas adiante. Observando-a melhor, reparou que os cabelos eram pintados. Ela acabara de levar uma taça de vinho aos lábios e o vermelho contrastou com a pele clara. Fernando desviava os olhos, voltava a olhar, a mulher estranha sempre com a taça nos lábios, suas faces ganhando um tom afogueado. Enquanto brincava com o dedo no copo, Fernando passou a imaginar o vinho dançando na boca daquela mulher desconhecida.

    A estranha passou a provocá-lo. Ela girava a taça na mão, o vinho circulando no interior. Aproximava a taça do nariz, tomava um gole devagar, olhos fechados. Abria o olhar na direção de Fernando, ficando nele sem pudor até o vinho descer pela garganta. Tudo isso acontecia em poucos e discretos segundos, como se, experiente, ela calculasse o tempo exato para a mulher de Fernando não perceber as insinuações.  Às vezes, a estranha estremecia, um arrepio, como se a brisa de maio que entrava pela janela soubesse exatamente quando atingir aquele pescoço atrevidamente nu: no momento em que o líquido quente e seco passasse pela garganta.

    Fernando disse algo no ouvido da esposa e caminhou em direção ao banheiro. Passou pela mesa da estranha e quase sentiu o cheiro de álcool e pele. Saiu do banheiro. Caminhava pelo estreito corredor entre as mesas quando deu de cara com ela. Pararam a poucos centímetros de distância, se olharam apenas o tempo certo para decidir como sairiam daquela situação. Ele se pôs de lado com uma leve reverência.  A estranha entrou no banheiro.

    A mulher ria alto dentro do carro, lembrando-se de casos dos amigos. Fernando não se importou com as risadas. Dirigia devagar, concentrado em cada movimento do carro para compensar a irresponsável atitude de dirigir após ter bebido. Em casa, a mulher se livrou rapidamente das roupas e se deitou, dormindo em seguida. No banheiro, Fernando tirou do bolso da calça o guardanapo de papel que a estranha colocara em sua mão naquele breve instante em que ficaram de frente para o outro: Camila.

    O mesmo guardanapo que ele segurou durante muitas noites nestes dois anos. Sentado em frente ao computador, passeando pela Internet, ele abria seu pequeno bloco de anotações e tirava o guardanapo de papel. Já nem precisava mais dele, há muito decorara aquele número de celular. Mas acabava por esconder o papel novamente, colocando-o cuidadosamente no meio das páginas, sem amassá-lo.

    Camila tomou outro gole do vinho. Ela estava diferente: cabelos ruivos quase chegando nos ombros. Assim que ela passou pela porta, Fernando pensou “talvez nem seja a mesma mulher”. Ele tivera que se explicar no telefone, contar em detalhes o encontro na pizzaria dois anos antes, o impasse na porta do banheiro, o guardanapo de papel. “Ah, sei. Claro, a gente pode se encontrar”.

    Fernando passou os dedos entre seus cabelos, tocou de leve a pele do pescoço. Ela encolheu os ombros, pressionando sua mão com a nuca. A garrafa de vinho já estava quase pela metade e ele não sabia ainda o que fazer.

    Sabia apenas que estava agora com uma estranha de cabelos ora ruivos ora pretos chamada Camila. Quando abrira a porta do apartamento, não a reconheceu. Ele a lembrava de cabelos curtos, cortados rente às orelhas, deixando à mostra a pele clara do longo pescoço. Durante dois anos, olhando aquele guardanapo de papel, Fernando a imaginou de todas as formas. E agora, buscando com os lábios o pescoço encoberto pelos cabelos, ele sentia um estranho e enjoativo gosto de vinho.

  • Philip, o gato

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    Quando criança, nunca dei tiro de chumbinho em gatos. O máximo que fiz, por curiosidade, foi segurar um felino de cabeça para baixo, a três palmos do chão, para ver se caía em pé. Sempre respeitei os bichanos. Adolescente, conheci o Rio de Janeiro. Nunca vou me esquecer do Pão de Açúcar, das argentinas na praia, do gato.

    Minha tia morava em Ramos, uma hora de ônibus até as praias de Copacabana e Ipanema. De dia, praia, à noite, por prudência e idade, conversa na porta da rua. Meus primos tinham hábitos suburbanos. Frequentavam a quadra do colégio no sábado, ouviam jogo do Flamengo no domingo à tarde, jogavam baralho até tarde da noite.  E tinham um gato. Gato errante de muros e lamentos. Desaparecia toda noite.

    Casa pequena, dois quartos, eu dormia no chão da sala. Era casa geminada, mofo nas paredes, tacos soltos, alguns podres. Naquela noite, fui dormir cedo, cansado da praia. Estendi o colchão no canto, encostado na parede. Abri os olhos de madrugada. A cerca de 20 centímetros do meu rosto, o gato. Sentado no chão da sala, a elegância dos felinos, boca fechada, bigodes equilibrando o rosto numa estética perfeita, pelos limpos e brilhantes, olhos parados nos meus. Fechei os olhos, abri. O gato continuava na mesma posição, como escultura de olhos vivos. Virei para a parede e demorei a adormecer, sabia que ele ainda estava lá, observando. Durante todas as outras noites dormi virado para a parede, rosto colado no mofo.

    Depois desta noite, não sei se por acaso ou cisma, os gatos sempre procuram meu olhar. À noite, dirigindo, quando o farol bate num felino, naquele breve instante em que ele pára, calcula o risco do atropelamento e depois desaparece, meu olhar se encontra com o dele. Não, esta história não vai chegar a animais pretos na encruzilhada ou a Edgar Allan Poe. Nada de bruxos, nada de reencarnações. É uma história de amantes como outra qualquer. A minha namorada tinha um gato.

    Conheci Mércia em um bar de jornalistas. Próximo à redação do jornal, o bar ficava aberto pela madrugada, esperando os notívagos. Os jornalistas chegavam um a um, alguns eufóricos pelas belas reportagens, outros frustrados pelos cortes do editor, outros sonhando mais alto do que meras resenhas culturais, como Mércia. Ela trabalhava no caderno 2, passava a noite conversando sobre as matérias que fizera e as que não fizera. Quando conversava sobre contos policiais, seus olhos, bem, num desses olhares… terminamos a noite em seu apartamento.

    Eu o enxerguei assim que ela abriu a porta: Philip, o gato. Enrodilhado no sofá da sala, levantou a cabeça, seus olhos fixos em mim. Passou a ser rotina. Duas ou três vezes por semana, do bar direto para o apartamento. Dormíamos até tarde, dez, onze da manhã, mas era durante a madrugada que os temores me assaltavam. O gato, em algum canto da casa, eu sabia, espreitava. Meu olhar, vez por outra, cruzava com o dele na porta do quarto.

    Naquela noite, quando entramos, eu não vi Philip. Estava cansado, fui direto para o quarto. Adormeci. Acordei perto das cinco da manhã, uma sensação de que estava sendo observado. Pressenti um vulto se esgueirando na porta do quarto. Olhei em volta, a luz fraca do abajur projetou sombra na parede, felinamente rápida. Pulei da cama, Mércia se assustou. Suor começou a escorrer pelo meu rosto, ela perguntou se eu estava passando mal. “Preciso de um banho.”

    Virei o rosto para o chuveiro, deixei a água quente bater em meu rosto por longo tempo, aliviando meus pensamentos. Quando entrei no quarto, Mércia estava sentada na beira da cama, minha camisa nas mãos, olhar desolado. “Você não vai acreditar.” Ela abriu os braços e estendeu a camisa de malha. Três longos cortes paralelos, começando perto da gola, desciam até o fim da camisa, terminando pouco antes da barra. Perfeitos, descendo em diagonal, como três garras rasgando meu peito.

    Mércia saiu gritando por Philip, fiquei com a camisa nas mãos, sentindo os cortes. Peguei uma camisa qualquer no guarda-roupa, vesti as roupas apressado sem dizer nada. Na porta, beijei Mércia pouco menos demorado, os olhos tentando encontrar o gato atrás da amante. Desci as escadas, abri o portão da entrada, olhei para cima. Mércia estava na janela, como sempre. Mas eu só enxergava o olhar de Philip, em algum canto da casa.

  • Poemas adolescentes

    Ilustração com IA

    por Robertson Mayrink

    A freira debruçou-se sobre os meus ombros, olhou as letras no papel e me ordenou que repetisse a lição: a s d f g, a s d f g. Na nossa simplificação, não sabíamos nem mesmo o nome correto da escola. A chamávamos de Cursinho das Freiras. Ficava na Rua das Freiras, fácil de falar como a Rua de Baixo e a Rua de Cima.

    Na década de 70, o trágico desmoronamento da construção da Gameleira soterrou e matou diversos operários na hora do almoço. A construção foi abandonada, ficaram as ruínas e um gigantesco terreno vazio, plano – onde hoje funciona o Expominas. Improvisamos ali um campo de futebol. Terra batida, pedras no lugar das traves, linhas imaginárias marcando as saídas do campo. Nas tardes de sábado, nossa turma se reunia depois do almoço, uns convidando os outros: “Vamos jogar bola no cemitério.” Tudo muito simples para mentes ainda desprovidas de dor e sofrimento.

    Na adolescência, já sabendo da necessidade de trabalhar cedo, me matriculei no curso de datilografia das freiras. Passava uma hora por dia dedilhando as teclas, dedo a dedo, letra a letra, até decorar a sequência correta: a s d f g, ç l k j h. Por conta dessa persistência e do fascínio de ver as palavras se formando a tinta, virei exímio datilógrafo. Quando comecei a trabalhar de office-boy, contei nota a nota o primeiro salário, descontei o dinheiro da condução e gastei todo o resto na compra de uma máquina de escrever portátil, Olivetti Lettera 35, de metal, cinza, fita metade preta metade vermelha para os grifos.

    Abandonei o cursinho e continuei em casa o treinamento diário. Saía do trabalho, ia para o colégio noturno e depois das aulas gastava meia hora na mesa da sala de jantar, batendo a máquina, como a mãe costumava dizer. Às vezes, o barulho acordava a mãe, ela levantava-se, me perguntava se eu tinha jantado e emendava, “O que você está fazendo?” “Escrevendo”, era a invariável resposta. Escrevendo trabalhos de escola, fui dos primeiros da classe a entregar trabalhos datilografados, impecavelmente corrigidos, escrevendo arremedos de contos, crônicas, qualquer coisa que se assemelhasse a um texto. Escrevendo poemas e mais poemas que me ajudaram na difícil arte de conquistar.

    Era a época das discotecas, das festinhas de bairro, cada fim de semana em uma casa diferente. Meninos e meninas chegavam com LPs, compactos, cassetes, o som 3 em 1 no volume máximo. Todo mundo dançando feito John Travolta no filme Os embalos de sábado à noite. Eu não dançava. Ficava encostado na parede da sala. Meus olhos sempre encontravam os olhos de uma menina, mas até me decidir ela tinha sumido, sozinha ou com alguém mais despojado. Restava a máquina de escrever à noite, a mãe assustada pela hora daquele negócio batendo. 

    Quando o tempo dava uma oportunidade ao flerte, bem lento no meu caso, ou seja, quando a menina se permitia a olhares furtivos durante dias – em alguns casos meses – eu descobri um jeito. Entregava um pedaço de papel dobrado dentro de um livro, no caderno da escola, ou pedia à minha irmã para se fazer de correio. Depois eu telefonava, convidando para um domingo à tarde no cinema. Sentados, nossos braços roçavam, dedos acariciavam o dorso da mão até se entrelaçar. O filme ficava esquecido na tela a cada beijo. 

    Nessas noites a mãe ouvia a máquina de escrever batendo mais forte.

  • Com gosto de morango

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    Por sorte a chuva parou. Deixou o ar da primeira noite de janeiro menos quente, mais gostoso para encontros amorosos. A maioria das barracas está fechada, às escuras, um ou outro lampião com a luz baixa faz imaginar alguém ainda por aí, olhando estrelas ou bebendo, o que costuma dar no mesmo.

    Não sei se Flávia consegue sair a essa hora. “Vou ver”, ela prometera. Para meu coração adolescente. para meus olhos, boca, mãos, braços e tudo que você imaginar, era uma promessa. No pequeno caminho de pedregulhos entre as barracas vem andando uma mulher. Quase, uma menina. Flávia. Longos cabelos morenos encaracolados, olhos entre castanho e amêndoa (ainda não enxergo daqui, mas conheço de cor esses olhos), lábios com gosto de morango em meus sonhos – como Tess do Roman Polanski, o andar como quem pisa na ponta dos pés.

    “Oi, peraí, você não é…”

    “A Flávia pediu para avisar que não vem. O pai, você sabe.”

    “Que pena.”

    “Pois é. Sou a Josi.”

    Eu sei. A prima da Flávia. Cabelos louros, lisos, rosto claro, faces brancas com manchas cor-de-rosa nas bochechas, olhos – está escuro não consigo ver a cor dos olhos. O rosto… tem sua graça.

    “Oi Josi.”

    “Eu preciso ir. Vim só dar o recado.”

    “Não, fica. Vamos conversar um pouquinho. Tenho reparado em você.”

    “Eu também. Também reparo em você.”

    No canto, separada da turma, ela ficava me olhando, lembro agora. Meninos e meninas se reuniam todas as noites perto da quadra de vôlei, conversando, flertando. Josi, retraída, ficava em silêncio, abaixava a cabeça quando se falava uma ou outra bobagem. A gente bebia vinho Chapinha escondido dos pais e ela com aquele olhar assim, recriminando. Alguém acendia um cigarro e ela logo dava um jeito de ir embora. Voltava o rosto uma ou duas vezes e desaparecia no meio das barracas.

    Agora, encolhida no canto do banco, os olhos baixos, os pés brincando com as pedras no chão, as mãos sem saber direito onde ficar… Passaram-se alguns minutos, apenas o barulho da cachoeira, das águas convidativas de janeiro.

    “Tenho que ir embora.”

    “Não. Espera.” Levantei-me e a puxei pelo braço. Josi encostou a cabeça em meu peito. Senti o cheiro de seus cabelos morenos, minha mão abriu caminho entre os fios encaracolados até o seu pescoço. Ela olhou para cima, seus olhos castanho-amêndoas parados nos meus. Um sorriso moldou suas faces morenas. Nossos lábios e línguas se juntaram. Ela tem gosto de morango.

    Naquela noite, eu era apenas um adolescente beijando uma menina pensando em outra. Apenas um adolescente.

  • Confeitaria Colombo

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    “Oi. Chegou há muito tempo?”

    “Não. Acabei de chegar.”

    Pedro olhou para o copo com resto de água turva, mistura de gelo derretido e coca, em cima da mesa.

    “Desculpe. Fiquei perdido, faz tempo que não venho ao Rio, acabei me confundindo ….”

    “Não precisa explicar, eu, eu…. cheguei cedo, eu sempre chego cedo, você me conhece, eu ….”

    Pedro apertou a mão de Ângela levemente. Ela desviou o rosto, escondendo os olhos molhados, escondendo o rosto levemente vermelho de ansiedade, escondendo de si mesma a vontade de olhar fundo nos olhos dele. “Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada / E triste, e triste e fatigada eu vinha.”

    “Olavo Bilac freqüentava esse lugar. Todos os dias no final da tarde. Ficava na calçada conversando até não poder mais. Conversava com os amigos, até com estranhos que lhe pediam autógrafos. Ele adorava a fama. Você consegue imaginar a beleza de tudo isso? poetas, escritores, você consegue imaginar as conversas, as ideias, os amores que nasciam nas calçadas. Naquela época as pessoas conversavam, Pedro.”

    O garçom chegou com o bloquinho nas mãos.

    “Um conhaque, por favor.”

    “Ângela! Você não bebe.”

    Ela olhou distraída para a porta de entrada. “Tinhas a alma de sonhos povoada, e a alma de sonhos povoada eu tinha….”

    “É verdade.” Ângela fez um gesto para o garçom.

    “Um capuccino. Sem conhaque.”

    “Dois, por favor.”

    Um casal de idosos entrou, sentaram-se à mesa perto da porta da confeitaria. Um breve ressentimento tomou conta de Ângela. “Era ali que o poeta ficava, sentado nos finais de tarde”. Seus olhos encontraram de passagem os da velha senhora que percorriam o ambiente, como se fosse a primeira vez. Ângela passou a olhar para a decoração que tanto conhecia, envolvida pelo longo silêncio que se interpôs entre ela e Pedro. Ela ficava sempre fascinada com as bancadas de mármore, os lustres, aquela mobília de época, uma belle époque de poesias, de romance. “E paramos de súbito na estrada / Da vida: longos anos, presa à minha / A tua mão, a vista deslumbrada / Tive da luz que teu olhar continha”.

    “Quanto tempo você fica fora dessa vez?”

    Pedro demorou alguns segundos a responder, buscando tempo na colher mexendo o café.

    “Dois anos. Talvez mais. É um grande projeto, a fábrica aprovou a ideia, esse carro, não sei, esse carro é o projeto da minha vida.”

    “Eles não conversam.”

    “O que?”

    “O casal de idosos sentado na mesa de Bilac. Ela fica olhando a decoração, presta atenção nas pessoas que entram. Ele lê uma revista. Existe esse tempo? Basta apenas estar perto um do outro, assim, perto, respirando juntos. Ou é um tempo em que nem a beleza diz mais nada. Sua mulher vai com você?”

    “Vai.” Pedro respondeu rapidamente, largando a colher de súbito dentro da xícara  ”Nós vamos procurar uma casa em Turim. É uma fase nova na minha vida, eu preci….”

    “Nel mezzo del camin….”

    “Como?”

    Ângela tomou um pequeno gole do cappuccino, sentiu o gosto quente e doce tocando sua língua, deixou o líquido deitar na sua boca antes de deixá-lo descer pela garganta. “Na partida / Nem o pranto os teus olhos umedece”.

    “Seu café está esfriando.”

  • Gotas de óleo

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    Um dia jogo óleo nos cabos desse elevador.

    – Pensando na vida Seu Joaquim? – perguntou Dona Marta, depois de observar por alguns segundos o vizinho olhando para o teto do elevador.

    Há quase quarenta anos morando naquele prédio, Joaquim tinha a impressão que cabos, roldanas, máquinas e portas daquele elevador nunca tinham visto lubrificação. Depois de acabar com a pequena fortuna que o avô lhe deixara, ele fora ganhar a vida consertando pequenas máquinas. Joaquim tinha prazer em esguichar óleo Singer nas junções, fazer a engrenagem funcionar lentamente até deixar de ouvir completamente o ruído de máquina contra máquina. Ele voltou os olhos para Dona Marta. Lembrou-se sem saudade de uma noite lá pelos anos cinqüenta. O marido viajando, os dois no mesmo elevador. A porta se abriu no andar onde ela morava. Marta ficou olhando para Joaquim, a porta voltou a se fechar e ela subiu para o apartamento dele.

    – É a única coisa que a gente faz agora Dona Marta, pensar na vida  – respondeu Joaquim. O elevador parou no andar de Dona Marta. Ela saiu lentamente, sem mesmo se despedir.

    Joaquim entrou no apartamento pensando na vergonhosa derrota daquela noite. Eu nunca deveria ter deixado o rei sem proteção. Rainhas foram feitas para isso, proteger os reis. Pensou em outros jogos, em noites no Cassino da Urca rodeado de fichas e dançarinas. Talvez fosse a sua sina, perder, perder e sair com uma garota pendurada em seu pescoço, cheirando a bebida, para uma noite qualquer em quarto de hotel.

    Preciso me concentrar. Amanhã pego de jeito aquele velhaco do Valdir. Abriu a janela da sala. Ouviu irritado o ranger de janela velha. Armou o tabuleiro de xadrez na mesa para pensar. Amanhã pego o Valdir de jeito.

    O silêncio do apartamento. Não consigo me concentrar. Música, música. Preciso de música. A voz de Frank Sinatra invadiu seus ouvidos. Há muitos e muitos anos, em que ano Joaquim? não me lembro mais, final de década de 30, sim, é isso, estava em Nova Iorque. Fui com amigos a um bar, final de noite, uma orquestra desconhecida cantando sabe-se Deus para quem. A plateia mais preocupada com o último uísque, homens e mulheres cheirando a álcool, fumo, extasiados da noite. No palco, um rapaz de uma magreza tímida e feia cantava. Alguém disse: Frank Sinatra, esse menino vai longe.

    Virou a capa do disco. “Para Joaquim, amor da minha vida. Da sua Eleonora”. A voz de Frank Sinatra tomou conta “And now, the end is near, and so I face, the final curtain / my friend, I’ll say it clear / I’ll state may case, of wich I’m certain / I’ve lived, a life that’s full / I’ve traveled each every highway / And more, much more than this / I did it my way.”

    Quem é Eleonora? Não consigo me lembrar. Eleonora. É a Nora? Não. Nora tinha cabelos vermelhos, um jeito inesquecível de descer pelo meu corpo. Preciso me concentrar, pegar o Valdir de jeito amanhã. Vou dormir. Fechou a janela. Esse barulho.

    Joaquim foi até a dispensa, pegou sua caixa de ferramentas. O velho tubo de óleo Singer. Derramou algumas gotas na janela, começou o lento movimento de vai e vem. Mais algumas gotas, vai e vem, o ruído sumindo aos poucos. Mais algumas gotas, mais, a janela agora desliza suave, sem barulho. Joaquim podia ouvir até mesmo a brisa solitária da noite.

  • Feliz ano novo

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    A mãe fez o sinal da cruz assim que o carro passou pela ponte sobre o rio das Velhas. Voltou o rosto com olhar carinhoso para os filhos no banco de trás da perua Dodge, roçou de leve a mão do pai no volante. Era seu jeito de encarar com otimismo os sessenta quilômetros de estrada de terra que nos separavam do sopé da Serra do Cipó.

    Cerca de três horas antes, o pai cumpriu seu ritual de arrumar cuidadosamente as bagagens no carro. No porta-malas traseiro, mochilas das crianças, a pesada mala da mãe, panelas, pratos e talheres, mesa de acampamento, banquinhos dobráveis, fogareiro de três bocas, dois pequenos botijões de gás – um para o fogo da comida, outro para o lampião. No bagageiro acoplado em cima do carro, a barraca de dois quartos, colchões, travesseiros e roupas de cama.

    “Não esqueceu nada?” Perguntou à mãe enquanto dava voltas com a corda de nylon, apertando a lona de plástico sobre as bagagens. Um dos meus desejos ainda é aprender a dar aquele nó de marinheiro no final, a corda rigidamente esticada, prensando a lona.

    À medida que o Dodge vencia as lombadas da estrada, o barulho de panelas e talheres batendo se misturava às músicas de Nat King Cole, Elvis Presley e Frank Sinatra saídas da fita cassete gravada pelo pai. O sol forte da manhã castigava o interior do carro, os vidros abertos, a poeira começava a se impregnar em cada um de nós.

    “Mãe, meu estômago tá embrulhando.”

    “Falta pouco meu filho, já estamos chegando.”

    “Um humm…” Insinuou o irmão mais velho, sorriso nos lábios, olhos presos no intenso movimento de final de ano da estrada. Carros abarrotados de bagagens no teto, pneus arriados pelo peso, passageiros se espremendo nos bancos. O pai cortou um fusquinha, a mãe reclamou da imprudência naquela estrada perigosa.

    “Perigo nada, olha a reta.” Disse o pai, voltando a se concentrar no volante, nas lombadas sem fim que faziam meu estômago dar voltas sobre ele mesmo.

    “Não tome o pozinho que fica no fundo do copo.” Alertou a mãe enquanto misturava bicarbonato com limão. Fechei os olhos e tomei o líquido de um gole só. Ela entrou na barraca para acabar de arrumar os colchões, as mãos passando sobre os lençois estendidos para tirar as dobras e deixar aquele suave toque de mãe na cama dos filhos.

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