Categoria: Anos 50

  • O escândalo

    O único filme de tribunal de Kurosawa foi supostamente motivado por uma “fofoca” publicada na imprensa marrom japonesa: a tentativa fracassada de Kurosawa de conquistar uma atriz do cinema nipônico. 

    Em O escândalo, o pintor Ichirô Aoye está retratando uma montanha no campo. Três peregrinos acompanham seu trabalho, logo depois, a famosa cantora Miyako Saijo chega ao local. O pintor tem um estilo de vida livre, anda pelas cidades e pelos campos em uma potente moto. Como vão para o mesmo local, Ichiro oferece carona à cantora. Na pousada, os dois são fotografados por dois paparazzis na sacada do quarto, quando contemplam um bosque. Dias depois, a foto é publicada em uma revista sensacionalista, junto com uma reportagem que “inventa” um affair entre os artistas. 

    A virada do roteiro acontece com a entrada em cena de Hiruta, um advogado fracassado e corrupto, contratado por Ichirô para processar a revista. A partir daí, o ator Takashi Shimura assume o filme, compondo um personagem fraco, entregue à bebida, ao vício em jogos e a um pungente sofrimento com a doença terminal da filha, uma adolescente terna e esperançosa diante da bondade das pessoas. 

    A redenção do advogado é tratada por Kurosawa sem melodrama, em uma cena rápida no final do filme, seguida do corte seco e um final quase abrupto, deixando em aberto o destino dos personagens. 

    O escândalo (Shubun, Japão, 1950), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune (Ichirô Aoye), Shirley Yamaguchi (Miyako Saijo), Yoko Katsuragi (Masako Hiruta), Noriko Sengoku (Sumie), Eitarô Ozawa (Hori), Takashi Shimura (Hiruta). 

  • No silêncio da noite

    Nas primeiras sequências do filme, o roteirista Dix Steele está em um bar. Ele conhece uma jovem e a convida para sua casa. Os dois ficam juntos até o início da madrugada. Dix leva a jovem até o jardim, nesse momento Laurel Gray, sua vizinha do condomínio, passa por eles. Dix se despede da jovem e observa Laurel entrando em casa. Corta para a manhã seguinte. Dois policiais batem na porta do roteirista. A jovem com quem ele se encontrara na noite anterior foi assassinada na madrugada. Durante o depoimento na delegacia, Dix descobre que é o suspeito número 1 do crime. 

    No silêncio da noite é considerado a obra-prima do aclamado diretor Nicholas Ray. É um noir tenso e amargo, com interpretações primorosas de Gloria Grahame e Humphrey Bogart. É também um dos grandes filmes feitos sobre o próprio cinema, retratando a era de ouro de Hollywood, revelando como o sistema de estúdio forçava seus criativos a trabalhar com as regras impostas para que os filmes tivessem apelo comercial. Dix está trabalhando em uma adaptação literária, mas não pode escrever o filme que deseja artisticamente. 

    O grande destaque deste noir repleto de diálogos cortantes, prestem atenção nos depoimentos de Dix Steele e Laurel Gray na delegacia, é a complexidade psicológica que se instaura entre o casal de protagonistas.

    “Dix Steele (Bogart), um roteirista de pavio-curto, é suspeito de um assassanto especialmente cruel, porém sua vizinha de porta, Laurel Gray (Grahame), pode lhe servir de álibi. Isso leva a dupla a um caso passional que é minado quando Laurel se apavora com as tendências violentas de Dix e começa a se perguntar se ele não teria cometido de fato o assassinato. Depois de anos interpretando sujeitos durões, porém românticos, aqui Bogart mergulha mais fundo na sua própria persona, revelando um viés neurótico que poderia ter feito Sam Spade ou Rick Blaine personagens instáveis e absolutamente assustadores nas sequências em que Dix explode, aplicando surras em quem merece e em quem não merece.”

    O início do filme deixa claro para o espectador que Dix não é o assassino. No entanto, até mesmo esse espectador se vê em dúvida durante a narrativa. O crescente descontrole do personagem assusta a todos, principalmente a Laurel Gray. Os dois estão apaixonados, mas Dix se mostra cada vez mais violento, colocando na cabeça de Laurel, que depôs na delegacia sobre a sua inocência, a dúvida, o medo. 

    O filme tem uma sequência antológica, quando a mente criativa, talvez doentia, do Dix roteirista, acostumado a criar cenas de assassinato em seus filmes, se revela. Em frente a um dos policiais, seu amigo, e da mulher dele, Dix reencena como teria acontecido o assassinato dentro do carro, chegando a simular o estrangulamento no pescoço da esposa do policial. Puro terror psicológico. 

    No silêncio da noite (In a lonely place, EUA, 1950), de Nicholas Ray. Com Humphrey Bogart (Dix Steele), Gloria Grahame (Laurel Gray), Frank Lovejoy.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • O bígamo

    O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

    O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

    O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

    O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

  • Johnny Gunman

    Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios. 

    A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes;  a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults. 

    Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy). 

  • A rena branca

    O belo terror de Erik Blomberg é inspirado nas crenças do povo sámi, seminômades que vagem pelas terras geladas da Lapônia. A jovem Pirita se casa completamente apaixonada pelo caçador Aslak. Ela fica a maior parte do tempo sozinha, a solidão combinada com saudade leva Pirita a um xamã, ermitão que vive no topo da geleira. 

    A jovem, sedenta de amor e sexo, toma uma poção que a torna desejável por todos. Mas saciar o desejo, desperta o terror da rena branca. 

    É um conto sobre a necessidade de sobrevivência na paisagem desolada, fria, que só agrava a solidão e desperta o desejo de amor e afeto nas pessoas. Pirita se entrega de alma e corpo que se transmuda à luta por seus desejos, cujo destino estava traçado pela gélida canção. 

    Menininha, criança da Lapônia / Nascida na neve / Passou a infância /Com os sapatos recheados de palha / Como uma rena / Por ser criança não sabia / Nem quando se casaria /Nem que ela nasceu bruxa / Com o demônio em sua barriga / Ela ofereceu ao deus de pedra / E à Madder-Akka / Uma rena branca / Caminhou nas colinas como uma rena / Na hora marcada / A lança atravessou a rena branca / Então a menina lapona dormiu / A neve fria como cobertor / Uma pilha de neve como travesseiro

    A rena branca (Valkoinen peura, Finlândia, 1952), de Erik Blomberg. Com Mirjami Kuosmanen (Pirita), Kalervo Nissilä (Aslak), Åke Lindman (Metsänhoitaja).

  • Vício maldito

    A partir dos anos 50, o cinema passou a tratar com seriedade o vício em drogas e álcool, mesmo em filme de gênero. Lucky é uma bela jovem, frequentadora de boates e cabarés noturnos. Para manter seu vício em drogas, ela se envolve com um mafioso que é assassinado logo no início da trama.

    O policial Vallois é encarregado de investigar o assassinato e acaba seduzido por Lucy. O relacionamento dos dois leva a uma intrincada rede de tráfico de drogas, colocando em cena uma misteriosa farmacêutica. 

    Vício maldito respeita os cânones do cinema noir, incluindo a femme fatalle, ambientações em bares noturnos, cenas em ruas e becos escuros, diálogos diretos e ambivalentes. Difícil não se entregar à cada aparição de Lucy em cena: fascinante, sedutora, sexy, e outros adjetivos mais. 

    Vício maldito (Le désordre et la nuit, França, 1958), de Gilles Grangier. Com Jean Gabin (Vallois), Danielle Darrieux (Thérèse), Nadja Tiller (Lucky), Paul Frankeur (Chaville), Hazel Scott (Valentine), Robert Manuel (Blasco), Robert Berri (Marquis). 

  • Grisbi, ouro maldito

    Esse filme noir francês é reverenciado por vários cineastas modernos, como Martin Scorsese. Como nos bons filmes do gênero, a trama é composta por personagens marginais, que vivem e frequentam as boates, becos e antros do crime de uma grande cidade. 

    Max acabara de realizar um grande roubo, pacotes de ouro em barra, e planeja se aposentar. No entanto, Ritton, seu grande amigo e parceiro no roubo, revela o acontecido à sua namorada Josy, uma jovem dançarina de cabarés. Josy está apaixonada por Angelo, outro gangster da cidade, e repassa a informação a ele. O que se segue é um conflito sanguinário pela disputa da mercadoria entre Max, Angelo e seus comparsas. 

    O filme tem uma grande sequência de ação, à noite, em uma estrada, quando Max vai trocar as barras de ouro com Ângelo, que sequestrara Ritton. Explosões e rajadas de metralhadora enchem a tela noturna, marca do cinema noir. No entanto, a narrativa é centrada nos conflitos pessoais entre os protagonistas, principalmente entre os amigos Max e Ritton. É um filme sobre a amizade, sobre o envelhecimento, sobre sentimentos nobres que se sobressaem à crueldade dos bandidos, sobre a ambição e a cobiça. 

    Grisbi, ouro maldito (Touchez pas au grisbi, França, 1954), de Jacques Becker. Com Jean Gabin (Max), René Dary (Riton), Lino Ventura (Angelo), Jeanne Moreau (Josy), Angelo Dessy (Bastien), Michel Jourdan (Marco).

  • Contos de Hoffmann

    A ópera em technicolor de Powell e Pressburger é um deleite para o olhar e para os ouvidos. Em um bar, o poeta E. T. A. Hoffmann relembra e conta para seus amigos as três mulheres que fizeram parte de seus intensos relacionamentos amorosos. 

    Olivia é uma boneca mecânica, controlada por seu pai e um inescrupuloso construtor de brinquedos. Giuletta é uma cortesã veneziana, sedutora, espécie de femme fatale que seduz e manipula seus amantes. Antonia é uma aspirante a cantora, filha de um compositor famoso, ela tem sérios problemas de saúde e depende de um médico que a usa para experimentações.

    O prólogo e as três histórias são narradas inteiramente pelas músicas, com a fotografia e direção de arte características do technicolor: cores resplandecentes, exuberantes, de contrastes agressivos. Os cenários são de encher os olhos do espectador, representando simbolicamente as naturezas de cada uma dos amores de Hoffmann. Cinema, teatro, ópera, dança e música, Contos de Hoffmann é um filme que penetra em todos os sentidos. 

    Contos de Hoffmann (The tales of Hoffmann, Inglaterra, 1951), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Com Moira Shearer, Robert Rounseville, Ludmilla Tcherina, Ann Ayars, Pamela Brown. 

  • Ascensor para o cadafalso

    Aos 20 anos de idade, Louis Malle abandonou a universidade de cinema para trabalhar com Jacques Cousteau. Os dois dirigiram o documentário O mundo do silêncio (1956), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Após, Louis Malle decidiu realizar seu primeiro longa de ficção, escolhendo um romance policial – segundo Louis Malle, precisava começar a carreira com um filme mais comercial. 

    A narrativa de Ascensor para o cadafalso transcorre quase inteiramente durante uma noite. Florence Carala combina com seu amante, Julien Tavernieu, o assassinato de seu marido, Simon Carala, um rico traficante de armas. Após o assassinato, uma série de coincidências encaminha o destino dos dois amantes para um final trágico: Julien fica preso no elevador do prédio onde cometeu o assassinato, um casal de jovens delinquentes rouba o carro de Julien e matam um casal de turistas alemãos. Enquanto isso, Florence caminha pela noite de Paris à procura de seu amante. 

    Louis Malle faz uma releitura do cinema noir americano, antecipando ainda, de certa forma, a nouvelle vague francesa. Todos os personagens são marginais, movidos por instintos e desejos, sem se preocupar com as consequências de seus atos. Florence é o pivô da trama, como sempre, no filme noir, uma mulher provocadora. No entanto, Florence carrega uma profunda angústia e tristeza. Sua jornada pelas ruas, iluminada pelas luzes naturais da cidade, deixando-se molhar pela chuva, entrando em bares e delegacias de polícia é o grande destaque do filme.

    Louis Malle permitiu a Miles Davis improvisar a trilha sonora do filme. No estúdio de gravação, o músico assistia à sequência de Florence caminhando pela noite enquanto compunha e executava ao mesmo tempo, com seu trompete, a inesquecível trilha de Ascensor para o cadafalso.  

    Ascensor para o cadafalso (Ascenseur pour l’échafaud, França, 1958), de Louis Malle. Com Jeanne Moreau (Florence), Maurice Ronet (Julien Tarvenieu), Georges Poujouly (Louis).

  • O signo do leão

    O primeiro longa-metragem dirigido por Eric Rohmer apresenta uma das marcas de seu estilo: personagens que se movem incessantemente pelas ruas das cidades, principalmente Paris. 

    Pierre acorda, atende o telefone e descobre que herdou um bom dinheiro da sua tia, que acabara de falecer. Liga para os amigos, pede dinheiro emprestado e dá uma grande festa em seu apartamento. Dias depois, descobre que a tia, na verdade o deserdara. Sem emprego, endividado, abandonado pelos amigos a quem sempre recorreu, Pierre vaga de hotel em hotel, sem bagagem, pois precisa abandonar os quartos sempre que cobrado. Quando não consegue mais hospedagem, empreende uma caminhada durante dias pelas ruas de Paris até cair na completa mendicância. 

    A narrativa é marcada pela bela fotografia em preto e branco; pelos longos silêncios de Pierre enquanto caminha; pela futilidade da boemia das noites parisienses; pela frustração de artistas como o próprio Pierre, um músico, e por outro sem-teto (Jean Le Poulain), um ator que encena trechos caricatos pelas ruas em troca de moedas. 

    O final, quase milagroso, aponta a redenção de Pierre, mas deixa no ar o grande vazio destes personagens que vivem à margem em cidades como Paris, aparentemente bela e glamourosa. 

    O signo do leão (Le signe du lion, França, 1959), de Eric Rohmer. Com Jess Hahn (Pierre Wesselrin), Van Doude (Jean-François Santeuil), Michèle Girardon (Dominique),  

  • La sonate à Kreutzer

    A narração em primeira pessoa encaminha essa história de possível adultério, ciúme, obsessão e crime. A jovem esposa do arquiteto Poznyecev passa seus dias ensaiando a Sonata a Kreutzer, acompanhada de um também jovem violinista. A desconfiança se instaura na mente do arquiteto que passo a passo fica cada vez mais dominado pelo ciúme. Ele finge uma viagem a trabalho e volta repentinamente para casa, flagrando o casal de músicos deitados no sofá. 

    Jean-Luc Godard, que atua como coadjuvante, é o produtor do curta. Claude Chabrol e François Truffaut também aparecem em pontas. O projeto colaborativo dos jovens críticos de cinema tem uma atração à parte: Poznyecev vai encontrar seu amigo crítico (Godard) no trabalho, cujo cenário é nada mais nada menos que a própria Cahiers Du Cinema.  

    La sonate à Kreutzer (França, 1956), de Eric Rohmer. Com Eric Rohmer (Poznyecev), Françoise Martinelli (a esposa). Jean-Claude Brialy (Trukhacevskij).

  • Véronique et son cancre

    O curta de Eric Rohmer, com dois personagens em cena, filmado inteiramente dentro de um apartamento (residência de Claude Chabrol), mistura humor, ironia e crítica social. Véronique, uma jovem tutora, tenta ensinar matemática e francês a uma criança. No entanto, o estudante refuta com análises lógicas, mesmo que baseadas em seu raciocínio infantil, as questões apresentadas pela tutora. 

    O destaque da trama são as investidas da criança contra a tutora e, naturalmente, contro os procedimentos de ensino. Tudo que a criança quer é despachar a professora e voltar para suas brincadeiras no chão da sala. Ficar livre daquilo é também a sensação expressa pela professora que, vez por outra, tira os sapatos e esfrega com impaciência (e talvez com leve erotismo) os pés. .

    Véronique et son cancre (França, 1958), de Eric Rohmer. Com Nicole Berger (Véronique) e Alain Delrieu (estudante). 

  • Berenice

    Os primeiros curtas experimentais de Eric Rohmer destoam de sua carreira como longa-metragista, principalmente a partir das famosas séries Seis contos morais, Comédias e provérbios e Contos das quatro estações. Em Berenice, Rohmer se debruça sobre a narrativa de gênero, adaptando uma história de Edgar Allan Poe. 

    O protagonista (interpretado pelo próprio Rohmer) sente uma atração por sua prima Berenice, que se transforma em obsessão quando ele vê os dentes dela. A estética reflete influências claras do expressionismo alemão, demonstrando, neste momento, o trabalho do crítico da Cahiers Du Cinema que se inspira na história do cinema em sua passagem para a realização. A Cahiers Du Cinema está presente também na forma de colabores. O filme foi fotografado e editado por Jacques Rivette, com câmera 16mm, e integralmente rodado na casa de André Bazin.  

    Berenice (França, 1954), de Eric Rohmer. Com Éric Rohmer e Teresa Gratia.

  • Rashomon

    A obra-prima de Akira Kurosawa foi um dos filmes, na década de 50, que chamou a atenção do ocidente para o potente e criativo cinema japonês, composto ainda por dois outros grandes mestres: Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi. 

    A narrativa de Rashomon começa com três homens se escondendo de uma tempestade em um templo abandonado. Ao lado de uma fogueira, conversam e refletem sobre uma história aterradora que presenciaram como testemunhas em um julgamento. Em um dia quente e ensolarado no bosque, um crime é cometido. Um famoso bandoleiro fica obcecado pela beleza de uma jovem que passa na trilha, em cima do cavalo guiado pelo seu marido. O bandoleiro rende o casal, amarra o marido em uma árvore e, aos olhos dele, estupra a jovem (que pouco a pouco se entrega ao ato). O marido consegue se libertar e duela com o bandoleiro até a morte. 

    A estrutura da narrativa é inovadora, pois parte dos pontos de vista do crime durante o julgamento. A jovem, o bandoleiro, um lenhador que presenciou o crime e até mesmo a vítima (incorporada em uma médium) testemunham no julgamento. No entanto, cada depoimento apresenta um ponto de vista diferente. 

    “Contada a partir de pontos de vista conflitantes em forma de flashback, filmado com uma câmera fluida, em constante movimento, e fotografados sob uma abóbada de luz salpicada, Rashomon detalha perspectivas não-confiáveis. A sinceridade dos personagens na tela e a veracidade das ações relatadas mostram-se, portanto, enganosas. Fatos são colocados à prova e imediatamente questionados. Discrepâncias entre as histórias sobrepostas do marido, da esposa e do bandido tornam difícil um relato fiel.”

    Quando termina a tempestade e a narrativa do crime, um fato inesperado surge entre os três peregrinos. Ouve-se o choro de um bebê abandonado nas ruínas do templo. O lenhador acolhe a criança. Assim como em outro clássico, O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, na famosa sequência da escadaria, um bebê pode ser o símbolo da redenção, resgatando a bondade humana que existe em pessoas desoladas diante de tempos cruéis. 

    Rashomon ((Japão, 1950), de Akira Kurosawa. Com Toshiro MIfune, Machiko Kyo, Nasayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijuro Ueda. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • O vagabundo

    Raghunath é um prestigiado juiz, casado com Leela. Certa noite, sua esposa é sequestrada pelo bandido Jagga que tem contas a acertar com o juiz. Raghunath o condenou à prisão sem provas, alegando que “filho de bandido será sempre bandido.” Quando descobre que Leela está grávida, o bandido a liberta após cinco dias de cativeiro. Ao saber da gravidez de sua esposa, a dúvida sobre a paternidade se instaura de forma destruidora na mente do juiz. 

    A trama expõe questões inerentes ao cruel sistema paternalista não só da Índia, mas da humanidade. O juiz nega a paternidade e seu filho se transforma no Vagabundo do título, cumprindo o destino determinado pelo próprio pai (a vingança de Jagga). Esteticamente, o filme traz a marca do cinema de qualidade desenvolvido em Bollywood, com cenários perfeitos, o melodrama e o musical pontuando a narrativa – gêneros preciosos ao cinema indiano, sequências glamourosas e extravagantes (os sonhos de Raj). 

    O vagabundo (Awaara, Índia, 1951), de Raj Kapoor. Com Raj Kapoor (Raj), Nargis (Rita), Prithviraj Kapoor (Juiz Raghunath), K. N. Singh (Jagga), Leela Chitnis (Leela)

  • Lola Montès

    O ator James Mason escreveu um poema alegórico para Max Ophuls que reflete muito do estilo do diretor alemão: “Acho que sei porque os produtores tendem a fazê-lo chorar. Inevitavelmente, eles exigem um arranjo parado e uma forma que não exija trilhos. Isso é uma agonia para o pobre Max, que separado de seu carrinho envolve-se na mais profunda melancolia. Uma vez, quando levaram sua grua embora, pensei que ele nunca mais sorriria.” 

    Max Ophuls se consagrou pela elegância não só dos movimentos de câmera, mas também dos enquadramentos, pela sensibilidade inigualável de fotografar seus atores em momentos sutilmente glamourosos. Lola Montès é o último e único filme colorido do diretor. A escolha da cinebiografia livre da famosa cortesã que seduziu importantes figuras da aristocracia europeia, como o compositor Franz Liszt e o rei da Bavária, se mostrou perfeita para um verdadeiro espetáculo em cores. A narrativa mistura a extravagância circense, quando Lola se vê desprovida de recursos e passa a trabalhar como atração de circo, com a elegância das cortes europeias, quando ela encantava e seduzia integrantes da aristocracia. 

    “O filme de Ophuls não é uma cinebiografia convencional. Em vez disso, ele elabora uma luxuosa extravagância barroca, parte circo, parte cortejo, repleto de flashbacks, e faz sua câmera notoriamente móvel passar pelas complexas decorações. No papel-título, Martine Carol oferece uma interpretação taciturna e emocionalmente chapada. No entanto, apesar de todas as suas limitações, Carol se encaixa no conceito de Ophuls. Como sempre, seu interesse está no abismo entre o ideal do amor e sua realidade falha e desencantada. Sua Lola é apenas uma tábula rasa passiva em que os homens projetam suas fantasias. Seu destino final como uma atração de circo que vende beijos por um dólar reduz sua profissão à sua lógica mais brutal. Lola Montès, um film maudit clássico, foi retalhado pelos seus distribuidores e, durante muito tempo, esteve disponível apenas em uma versão truncada, porém um cópia recém-restaurada nos permite apreciar o canto de cisne de Ophuls em todo o seu pungente esplendor.”

    Sobre seu notório fascínio pela câmera móvel, Max Ophuls declarou: “Muitas vezes me criticam por movimentar demais a câmera. Eu faço isso simplesmente para acompanhar o ritmo da cena. Não planejo nada. Espero para ver como a cena vai se desenrolar e mantenho o foco nos atores. Em inglês, filme é chamado de movie, que vem de movimento. Sou impulsionado pelo movimento do filme e capturo as emoções. Digamos que estou filmando uma cena que considero triste. Se eu fosse um maestro conduziria a música a um passo lento, triste. Da mesma forma, deixo o movimento de câmera lento e triste.”

    Lola Montès (França, 1955), de Max Ophuls. Com Martine Carol, Peter Ustinov, Anton Walbrook, Oscar Werner.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • La Pointe Courte

    O primeiro filme de Agnès Varda poderia ser considerado também o primeiro filme da nouvelle-vague francesa, pois apresenta os princípios estéticos e narrativos que marcaram o movimento a partir de 1959: atores não-profissionais; gravações em locações; cortes e movimentos de câmera que destoavam do cinema dominante, dito de qualidade; temas do cotidiano das comunidades. 

    São apenas dois atores profissionais em cena. Philippe Noiret e Silvia Monforte. Eles interpretam um casal de namorados que visita a Pointe-Courte, pequena vila de pescadores no sul da França. Enquanto caminham pela vila, o casal discute a relação e outros temas inerentes à juventude, pessoas enamoradas que se confrontam com incertezas. Narrativas paralelas mostram o cotidiano dos moradores, simples e pobres pescadores que se dividem entre a labuta pela sobrevivência e os prazeres singelos dos dias que passam ao sabor do sol, do vento, do mar. 

    A locação escolhida por Agnès Varda faz parte de suas memórias de infância, uma das praias que a cineasta frequentou e que revisita, em forma de reflexões, no belo documentário As praias de Agnès (2008). 

    “As ruas da Pointe Courte, por onde eu adorava andar. Fotografava muito e fui descobrindo este bairro. Ouvia histórias de uns e outros, sobretudo as dos mais velhos. Queria usá-las para fazer algo, um filme. Parecia preparar um documentário, mas parte do filme era sobre um casal. A Silvia Monfort e o Philippe Noiret, que estreou neste filme, participaram generosamente nesta experiência cinematográfica. Tinha pensado numa certa estrutura, um projeto de dois filmes misturados por capítulos alternados, como num romance de Faulkner que me impressionou, Palmeiras Bravas. Iria, portanto, alternar as sequências dos pescadores com as do casal. Duas narrativas, cujo único ponto em comum era o local: Pointe Courte. Ela descobriu onde ele nasceu. Ele mostrou-lhe as casas, as ruelas.” – Agnès Varda. 

    La Pointe-Courte (França, 1954), de Agnès Varda. Com  Philippe Noiret (Lui), Silvia Monforte (Elle). 

  • Trono manchado de sangue

    O filme é a mais impressionante, tenebrosa e assustadora adaptação da célebre peça Macbeth. Nem mesmo Shakespeare imaginava que seria possível traduzir em imagens a soturna incursão pelos meandros das almas e mentes atormentadas pela cobiça do casal de protagonistas da peça. 

    Akira Kurosawa adaptou a peça para o Japão feudal, um período marcado por batalhas sangrentas entres clãs arraigados às tradições. O General Washizu, destemido guerreiro samurai, é assombrado pela profecia de uma bruxa em uma floresta labiríntica ao voltar de batalha. A concretização da profecia é estimulada pela sua diabólica esposa, Lady Asaji (Isuzu Yamada): Washizu deve assassinar o seu comandante militar e se apoderar da liderança do reino.

    “O maravilhoso Mifune – um dos protagonistas favoritos de Kurosawa em uma parceria longeva (mais de 16 filmes) tão notável quanto a de Martin Scorsese com Robert De Niro – aprofundou sua reputação como ilustre astro internacional japonês com sua atuação. A sequência de sua morte, encenada de forma brilhante, na qual ele é cravado por uma saraivada de flechas, é uma das grandes imagens icônicas do cinema mundial. Elementos do teatro Nô, da tradicional arte de batalha japonesa, de realismo histórico e da reflexão contemporânea sobre a natureza do bem e do mal são fundidos aqui em um mundo opressivo e envolto em neblina, repleto de presságios sinistros e mágicos, com suas florestas e castelos (o castelo foi construído em locações nas alturas do monte Fuji, com a ajuda de um batalhão do Corpo de Fuzileiros navais dos EStados Unidos baseado nas proximidades.)”

    Trono manchado de sangue (Kumonosu-Jô, Japão, 1957), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Isuzu Yamada, Takashi Shimura, Akira Kubo, Minoru Chiaki. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Ao longo da costa

    Ainda no início da carreira como cineasta, Agnès Varda realizou este curta documental para o Escritório Francês do Turismo. A câmera passeia de forma descontraída pelas praias, ruas e monumentos da Riviera Francesa. No início a diretora avisa, vamos deixar o burro e a vaca de lado, alusão aos animais dos simples moradores da costa azul, pois o tema do documentário são os turistas que chegam aos milhares no verão europeu. 

    Mesmo sendo uma encomenda oficial, o olhar crítico da diretora se traduz em um texto às vezes irônico e imagens simbólicas da imersão turística nas praias ensolaradas, apinhadas de turistas com seus corpos vermelhos expostos ao sol inclemente. 

    Ao longo da costa (Du Côté de la Côte, França, 1958), de Agnès Varda.

  • Noite e neblina

    O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

    A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

    “A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

    NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

    Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008