Autor: Robertson B. Mayrink

  • Beijo de cinema

    A aula terminou mais cedo naquela noite. Bastou um estrondo para tudo se apagar no Estadual Central. Ficamos sentados alguns minutos, meio assustados com a luz noir de um e outro relâmpago que entrava pelas janelas. Não precisamos esperar o aviso de suspensão das aulas para esvaziar as salas, já eram quase dez horas da noite, momento em que os alunos já começavam a sair. 

    A gente descia toda noite pela Rua São Paulo até o centro. Em turma, cansados, adolescentes que passavam o dia no trabalho e à noite em bancos de escola, mas descontraídos pelo ar fresco e sensação de liberdade da noite. Alguns mais afoitos, entre brincadeiras e gritos, outros taciturnos, todos irmanados pela idade descompromissada.  

    Perguntei a Isa se ela queria pegar ônibus, pingos de chuva já batiam no chão, invadindo a noite de verão. Ela olhou por alguns segundos para o alto, seus olhos cor de natureza selvagem como a perseguir aventuras. “Quero descer a pé” e sem mesmo olhar para mim ou me esperar, entrou na chuva. 

    Caminhamos lado a lado, sentindo a roupa se encharcar, aquela sensação de peso que começa nos ombros e desce, tornando a calça jeans quase insustentável. Durou pouco essa sensação. Tantos anos depois, pensando nesta noite, creio que Isa já contagiava com sua leveza. Ela passou quase a  deslizar pela chuva já densa, deixando a água bater nos cabelos, no rosto, escorrer pelo corpo, penetrar em sua pele. Isa levantava o rosto e, de olhos fechados, sentia, sentia…, não sei como descrever, minha memória de cinema apenas gravou a cena de seu rosto jovem e belo se entregando como se nada mais houvesse ali. 

    Para completar a ousadia, ela, já com os tênis na mão, pisava em poças, acompanhava a enxurrada que descia veloz.  A meninada atrás, tentando inutilmente se proteger com sombrinhas e guarda-chuvas, olhava deslumbrada, alguns gritavam “sua louca”, mas Isa sabia, louco é quem me diz. 

    Quanto a mim, que vivia já naquela época muito através dos livros e filmes, tentava acompanhá-la, mas queria mesmo era registrar cada imagem: dos pingos refletidos nas luzes dos postes, das poças d’águas pisoteadas pelos pés descalços que prendiam meu olhar em pleno fetiche, da blusa branca e agora transparente colada em seus seios, dos seus cabelos encharcados sem dó – a chuva não poupava nem a ela nem a mim, conspirava, sugeria, implorava por impulsos. 

    Foi em um destes momentos. Isa parou no cruzamento da Avenida Álvares Cabral e levantou novamente o rosto, de olhos fechados. Foi quando sentiu meus lábios. Abriu por um relance os olhos e se entregou àquele beijo molhado, os lábios deslizando ao sabor da água, as línguas se misturando suavemente, pouco a pouco mais e mais atrevidas. Corpos molhados que se buscavam, se apertavam, às vezes relaxavam, mas incontidos se apertavam quase em um sufoco. 

    Talvez seja minha imaginação, afinal o dia amanheceu chuvoso e, ontem, assisti à Depois do vendaval, filme passado na úmida Irlanda, com um beijo arrebatador na chuva. John Wayne e Maureen O’Hara tentam se esconder da chuva repentina debaixo de um arco de concreto, no cemitério da cidade. Ela olha assustada os relâmpagos, seus cabelos ruivos já respingados pela chuva. John Wayne tira o paletó e encobre os ombros dela. Ele não se importa com a chuva, deixa a água cair pelo seu rosto, encharcar sua camisa branca. Assustada com um relâmpago mais forte, Maureen O’Hara se protege no peito dele. Completamente encharcados, os dois se olham com ternura e se beijam. Um beijo rápido, como a época impunha, mas nem mesmo o rígido Código Hays que determinava idiotices assim nos filmes (tempo limitado de lábios nos lábios) conseguiu impedir o erotismo da cena. 

    Sei que recrio aquela chuva de uma noite de verão influenciado por imagens assim,  com meus olhos em um passado distante, confuso e traiçoeiro, são assim as memórias. Não importa, quando penso no meu beijo de cinema, meus lábios sentem a doçura selvagem daqueles lábios molhados. Os lábios de Isa.

  • Caçador de morte

    Caçador de morte é um dos influentes filmes de perseguição de carros que marcou o cinema dos anos 60/70, assim como Bullitt (1968) e Operação França (1971). Ryan O’Neal interpreta um exímio motorista, que aluga caro seu talento para assaltantes de bancos. Durante um assalto mal-sucedido, ele é visto pela personagem de Isabelle Adjani. O detetive (Bruce Dern) tenta convencê-la a depor e acusar o Driver, mas ela se recusa. 

    O filme foi um fracasso de público e crítica nos anos 70, mas acabou se transformando em cult, influenciando filmes modernos como Drive (2011) e em Ritmo de fuga (2017). A narrativa é marcada por um relacionamento intenso entre o casal de protagonistas e o tradicional jogo de gato e rato entre detetive e bandido. Claro, o destaque fica para as estonteantes perseguições de carro nas ruas da cidade. 

    Caçador de morte (The driver, EUA, 1978), de Walter Hill. Com Ryan O”Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani. 

  • Between two dawns

    Between two dawns, primeiro filme de Selman Nacar, parte de um acidente rotineiro e trágico: um trabalhador é gravemente ferido ao tentar consertar uma máquina na tecelagem onde trabalha, um negócio administrado pelos irmãos Kadir e Serpil. 

    Kadir, o irmão mais jovem, assume a tarefa de dar assistência ao ferido no hospital. Quando conhece a esposa do trabalhador, começa um forte dilema moral, o conflito entre os interesses da família e seus valores pessoais. A narrativa acontece em apenas dois dias, filmada nos ambientes urbanos, centrada na jornada de Kadir e em sua inerente transformação. A realista e cotidiana jornada do herói que pode acontecer com cada um de nós, basta um incidente ao sairmos de casa. 

    Between two dawns (Iki Safak Arasinda, Turquia, 2021), de Selman Nacar. Com Mucahit Kocak (Kadir), Nezaket Erden (Serpil), Unal Silver (İbrahim), Bedir Bedir (Halil), Burcu Gölgedar (Esma), Erdem Şenocak (Yasin).

  • Anjos rebeldes

    As adolescente Mary e Rachel se conhecem em um trem repleto de jovens a caminho de um colégio interno administrado por freiras. A amizade começa e segue no colégio marcada por atos rebeldes, principalmente contra a Madre Superiora, pois enxergam nela a mentora das rígidas convenções que cercam as internas. 

    A comédia de Ida Lupino traz um tema caro ao cinema: o rito de passagem da adolescência para a vida adulta. A bela amizade entre Mary e Rachel vai se confrontar com as escolhas inerentes ao amadurecimento, ao descobrimento de sentimentos ocultos, que se afloram em gestos simples, como se doar ao outro. Rosalind Russell cativa e comove como a rígida Madre Superiora que enternece a todos à medida que revela sua face doce e amorosa.

    Anjos rebeldes (The trouble with angels, EUA, 1966), de Ida Lupino. Com Rosalind Russell (Madre Superiora), Hayley Mills (Mary) , June Harding (Rachel).

  • Alemanha no outono

    Em 1977, a Alemanha foi abalada por uma série de acontecimentos políticos de caráter violento, extremista: o sequestro e assassinato de Hann-Martin Schleyer, presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidentel; o sequestro do avião da Lufthansa; o suicídio na prisão de três membros da RAF – Fração do Exército Vermelho. 

    Em Alemanha no outono, onze aclamados cineastas, integrantes do Novo Cinema Alemão, se debruçaram sobre o clima terrorista que se instaurou no país, debatendo as questões da extrema direita e da extrema esquerda. O filme foi realizado em estilo episódico, curtas-metragens ligados pelo tema comum que ficou conhecido como Outono alemão. Destaque para o primeiro episódio, escrito, dirigido e interpretado por Rainer Werner Fassbinder, no qual ele se expõe de forma visceral, desnudando-se diante da câmera física e ideologicamente.

    “Quando nos reunimos, no início, um dos motivos que nos levaram a concluir pela necessidade de fazer o filme era enfrentar o medo. Era necessário que as pessoas que não tinham nenhum meio de produção e estavam, talvez, ainda mais amedrontadas do que nós, não se deixassem intimidar pelo sentimento que reinava então na Alemanha, de que a crítica era inoportuna em qualquer de suas manifestações e deveria ser calada.” – Fassbinder (Plano Critico)

    Alemanha no outono (Deutschland im herbst, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Alexander Kluge, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Hans Peter Cloos, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff.

  • A torre

    O diretor mineiro Sérgio Borges faz uma fascinante incursão pelos mistérios do tarô, inspirado no romance Coiote, do psiquiatra Roberto Freire. André, recém-separado, vive isolado em um bosque, transitando entre os meandros da natureza, forças também místicas. Entre encontros nas comunidades, sua ex-mulher que o visita, André se depara com um jovem que evoca o seu passado. A partir daí, sonho, realidade, fantasia, tudo se mistura, caminhando em direção à torre, carta do tarô que evoca um grande acontecimento, maior do que a realidade. 

    “Toda a atmosfera construída representa o universo emocional do personagem, andando pelas sombras e tentando reencontrar a luz de alguma forma. O filme deixa margem para interpretação, ele sugere mais do que afirma. Vi um ritual de passagem entre idades, com o mais velho abandonando a sua juventude inocente e sedutora. É um acerto de contas: o jovem continua ali, provocando o homem mais velho. Tem uma ideia de morte e renascimento.” – Sérgio Borges (papo de cinema)

    A torre (Brasil, 2019), de Sérgio Borges. Com Enrique Diaz (André), Caio Horowicz (Coiote), Maeve Jinkings (ex-esposa de André). 

  • A mesma parte de um homem

    Existem ótimas referências para entender o cinema brasileiro que combina escassez de recursos com histórias intimistas, marcadas pela beleza estética. A mesma parte de um homem traz estes elementos, acrescidos com as ótimas interpretações do elenco. 

    Renata e Miguel vivem isolados em uma cabana, junto com a filha adolescente. Trabalham a terra, agricultura de subsistência no interior do Brasil. Logo na primeira sequência, Miguel morre em um acidente de carro, mas o inesperado acontece: um homem ferido, desmemoriado, bate à porta da cabana e assume o lugar de Miguel. 

    O filme está à beira de um gênero que tem feito sucesso no cinema contemporâneo nacional: o suspense. O passado de Lui pode trazer revelações imprevisíveis e violentas, mas é a personalidade conflituosa de Renata, oscilando entre o medo e o desejo, que domina a trama. O sensível final na estrada úmida deixa em aberto muito do que esconde a alma humana.  

    A mesma parte de um homem (Brasil, 2021), de Ana Johann. Com Clarissa Kiste (Renata), Irandhir Santos (Lui), Laís Cristina (Luana), Otavio Linhares (Miguel).

  • A rena branca

    O belo terror de Erik Blomberg é inspirado nas crenças do povo sámi, seminômades que vagem pelas terras geladas da Lapônia. A jovem Pirita se casa completamente apaixonada pelo caçador Aslak. Ela fica a maior parte do tempo sozinha, a solidão combinada com saudade leva Pirita a um xamã, ermitão que vive no topo da geleira. 

    A jovem, sedenta de amor e sexo, toma uma poção que a torna desejável por todos. Mas saciar o desejo, desperta o terror da rena branca. 

    É um conto sobre a necessidade de sobrevivência na paisagem desolada, fria, que só agrava a solidão e desperta o desejo de amor e afeto nas pessoas. Pirita se entrega de alma e corpo que se transmuda à luta por seus desejos, cujo destino estava traçado pela gélida canção. 

    Menininha, criança da Lapônia / Nascida na neve / Passou a infância /Com os sapatos recheados de palha / Como uma rena / Por ser criança não sabia / Nem quando se casaria /Nem que ela nasceu bruxa / Com o demônio em sua barriga / Ela ofereceu ao deus de pedra / E à Madder-Akka / Uma rena branca / Caminhou nas colinas como uma rena / Na hora marcada / A lança atravessou a rena branca / Então a menina lapona dormiu / A neve fria como cobertor / Uma pilha de neve como travesseiro

    A rena branca (Valkoinen peura, Finlândia, 1952), de Erik Blomberg. Com Mirjami Kuosmanen (Pirita), Kalervo Nissilä (Aslak), Åke Lindman (Metsänhoitaja).

  • A noite

    O angustiante filme de Antonioni acompanha um dia e uma noite na vida do escritor Giovanni e sua esposa Lídia. O ponto de partida é a visita do casal ao hospital, onde o amigo Tommaso está internado – ele sofre com uma doença terminal. 

    A crise do relacionamento do casal se evidencia ao correr das horas, pontuada por uma sucessão de encontros casuais: a ninfomaníaca que seduz Giovanni no hospital; o longo passeio de táxi de Lídia pela periferia da cidade; o editor de Giovanni que anuncia também uma crise profissional; por fim, a festa em uma mansão à noite, frequentada pelos fúteis membros da alta sociedade. 

    O encontra final que desencadeia a frustração dos protagonistas é o pretenso relacionamento entre Giovanni e Valentina, a jovem filha do anfitrião da festa. Destaque para as atuações perturbadoras de Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni e para a arrebatadora entrada em cena de Monica Vitti.  

    A noite (1961) faz parte da trilogia de Antonioni sobre a alienação, o tédio que domina a vida dos integrantes da alta sociedade. Os outros filmes são A aventura (1960) e O eclipse (1962). 

    A noite (La notte, Itália, 1961), de Michelangelo Antonioni. Com Marcello Mastroianni (Giovanni), Jeanne Moreau (Lídia), Monica Vitti (Valentina), Bernhard Wicki (Tommaso Garani). 

  • A morte de um corrupto

    Xavier Maréchal acorda de madrugada com o toque da campainha de casa. É seu amigo Philippe Dubaye, importante político francês. Dubaye revela que acabou de cometer um assassinato. A vítima tinha em mãos um caderno com nomes de vários políticos franceses, envolvidos em esquemas de corrupção, e estava chantageando Dubaye.

    A morte deste corrupto é o ponto de partida para uma intrincada trama de suspense – o caderno é o famoso “MacGuffin” de Hitchcock, pois passa a ser questão de vida ou morte para preservar os importantes políticos envolvidos. Policiais e bandidos contratados entram em ação, assassinatos acontecem, no centro de tudo está Maréchal, envolvido acidentalmente nesta intrincada rede de crimes políticos. Um filme noir de prender o fôlego e instigar a reflexões sobre a perpetuação do poder.  

    A morte de um corrupto (Mort d’un pourri, França, 1977), de Georges Lautner. Com Alain Delon (Xavier Maréchal), Ornella Muti (Valérie), Klaus Kinski (Nicolas Tomski), Maurice Ronet (Philippe Dubaye), Daniel Ceccaldi (Lucien Lacor), Julien Guiomar (Fondari), Stéphane Audran (Christiane), (Mireille Darc (Françoise). 

  • A cor da romã

    A corda da romã foi mais um dos grandes filmes soviéticos censurados pelo regime. Coisas dos ditadores que nomeiam a arte, principalmente o cinema, como inimigos do governo. 

    O diretor Sergei Parajanov faz um retrato lírico, poético, surrealista, de Sayat Nova,  poeta armênio do século XVII, apelidado de o “Rei da Canção.” Sem narrativa, a obra é uma sucessão de poesia visual lírica, com fortes ressonâncias religiosas. Experiência estética bem ao estilo do novo cinema dos anos 60 que correu o mundo com ousadia, o cinema rebelde que reverbera até hoje. 

    “O uso notável do enquadramento similar ao de uma pintura evoca o espaço restrito de filmes feitos há cerca de um século, ao passo que o uso magnífico da cor e os extravagantes conceitos poéticos e metafóricos parecem originários de algum cinema utópico do futuro. Não temos, entretanto, que decifrar as imagens de modo sistemático para experimentar o seu assombroso poder. Os planos da abertura mostram três romãs que espalham seu suco vermelho sobre uma toalha de mesa branca, um punhal manchado de sangue, pés descalços esmagando uvas, um peixe (que imediatamente vira três peixes) se agitando entre duas tábuas de madeira e água caindo sobre livros. Ao mesmo tempo ‘difíceis’ e imediatas, enigmáticas e encantadoras, as imagens perfeitas em todo o filme nos lembram miniaturas persas infundidas em ecstasy.”

    A cor da romã (Rússia, 1969), de Sergei Parajanov.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • A caverna dos sonhos esquecidos

    Em 1994, três exploradores descobriram uma caverna, perto do Rio Ardèche, sul da França, que contém as pinturas rupestres mais antigas – remontam a 32 mil anos atrás. Foi uma das descobertas mais importantes da arqueologia, com pinturas rupestres tão preservadas que, a princípio, suspeitou-se de fraude. Pesquisas comprovaram a autenticidade da arte.  

    A Caverna de Chauvet é fechada à visitação pública, só é permitida a entrada de profissionais e pesquisadores altamente qualificados. O diretor alemão Werner Herzog conseguiu autorização do Ministério da Cultura Francês para, com uma equipe reduzida, assim como o mínimo de equipamentos necessários, filmar a caverna e suas inscrições. 

    O resultado é um dos documentários mais fascinantes, quase um tratado sobre artes plásticas e cinema, finalizado em 3D. Segundo Herzog, “a caverna é como um momento congelado no tempo.”

    As pinturas ocupam imensos painéis de pedra, representando animais como bisões e cavalos. As imagens de Herzog, acompanhadas de suas reflexões, refletem a tentativa dos artesãos de reproduzir imagens em movimento, retratar momentos como a caçada ou a debandada de animais. 

    “Para estes pintores paleolíticos, a interação da luz e das sombras de suas tochas devia ter esta aparência. Para eles, os animais deveriam parecer vivos e em movimento. Devemos atentar que o artista pintou este bisão com 8 pernas, indicando movimento, quase uma forma de proto-cinema.” – Werner Herzog

    Jean-Michel Geneste, Director of the Chauvet Cave Research Project também reflete sobre o que sempre impulsionou a humanidade em sua busca pela representação. “A sociedade humana precisa adaptar-se à paisagem, aos outros seres, aos animais e aos outros grupos humanos. E a comunicar algo, a comunicar e registrar memória em coisas muito específicas como paredes, pedaços de madeira, ossos. É a invenção da representação figurativa de animais, de homens, de objetos É uma forma de comunicação entres os seres humanos, além de evocar o passado para transmitir informação, que é melhor do que a linguagem, do que a comunicação verbal. E esta invenção continua idêntica em nosso mundo atual. Como esta câmera, por exemplo.”

    Dentro da caverna, os quatro integrantes da equipe de Herzog se moviam em fila indiana (portanto, a equipe de filmagem faz parte do documentário), em caminhos que deveriam ser rigorosamente respeitados. Para captar imagens mais próximas, os técnicos usavam longas hastes para as pequenas câmeras, com baixíssima iluminação. O tempo da equipe dentro da caverna era limitado ao extremo. Tudo confere ao documentário uma rara impressão de realidade de cenas vividas pelo homem há quase 30.000 anos. É o encontro de duas magias, dois sonhos: as pinturas rupestres e o cinema. 

    “Estas imagens são lembranças de sonhos há muito esquecidas. Esta é a batida do coração deles ou da nossa? Seremos capazes de compreender a visão dos artistas através desse abismo de tempo?” – Werner Herzog

    A caverna dos sonhos esquecidos (Cave of forgotten dreams, EUA/Alemanha, 2010), de Werner Herzog.

  • A árvore dos frutos esquecidos

    O diretor turco Nuri Bilge já se consagrou pelas narrativas longas, reflexivas, o tipo de cinema contemplativo que exige entrega do espectador. Ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo belo Sono de Inverno. Em A árvore dos frutos esquecidos, Nuri Bilge tece uma trama envolvendo um aspirante a escritor, Sinan, que volta para casa após terminar seus estudos superiores. 

    Os conflitos do filme passam pelas frustrações literárias de Sinan e sua difícil relação com o pai, viciado em jogos de azar. A árvore dos frutos esquecidos é o título de seu primeiro livro, metáfora delicada para a simples, pacata e também contemplativa vida em pequenas comunidades, que às vezes se perde na busca por grandes aspirações. A volta para casa, para o seio da família, apesar de todos os problemas, provoca a reflexão, detona o gatilho das emoções simples do dia-a-dia. 

    A árvore dos frutos esquecidos (Ahlat agaci, Turquia, 2018), de Nuri Bilge Ceylan. Com Dogu Demirkol (Sinan Karasu), Murat Cemcir (Idris Karasu), Serkan Keskin (Suleyman)

  • O baile dos bombeiros

    Assim como vários clássicos do cinema, o baile dos bombeiros nasceu dos olhares observadores dos roteiristas. Milos Forman e o roteirista Ivan Passer estavam hospedados em um hotel na pequena cidade de Vrchlabí, escrevendo uma história sobre o Sr. Vrabec, que tinha 82 anos e vivia em uma casa de repouso. “Ele foi pego transando com uma velhinha no mato. Então a diretora o fez se casar com essa senhora de 75 anos. O hotel em que nos hospedamos era tão quente que tínhamos de deixar as janelas abertas. Resolvemos sair do hotel à noite, Estava escuro e havia uma música saindo de um prédio. Era um ginásio e havia um baile de bombeiros. Lá dentro vimos uma escada que levava ao primeiro andar. Os bombeiros estavam jogando um bêbado pela escada e ele rolou para os nossos pés. Milos imediatamente começou a discutir com o bombeiro. Nós subimos e eles estavam sorteando uma rifa. Não me lembro exatamente, só sei que nos olhamos e na manhã seguinte começamos a escrever o roteiro.” – Ivan Passer. 

    A cena do bêbado jogado na neve está no filme, assim como a rifa, base da narrativa que acabou se transformando em um metáfora poderosa sobre a sociedade comunista theca da época e provocou a ira do governo. A história começa com um grupo de bombeiros conversando sobre a melhor forma de entregar um troféu ao ex-presidente da corporação durante o baile dos bombeiros. Na festa, serão sorteados vários alimentos doados pelos moradores da cidade (a rifa) e será eleita a Miss Bombeiros, escolhida entre as jovens participantes. 

    A trama segue esses eventos sem uma coerência narrativa, o filme é uma sucessão de gags, misturando comédia de erros e humor pastelão, tudo representado por atores não-profissionais (alguns eram, inclusive, ex-bombeiros). Os alimentos que seriam sorteados são, aos poucos, surrupiados, enquanto os bombeiros se deleitam em uma sala fechada escolhendo a miss, entre oito jovens. Passo a passo, tudo dá errado até que acontece um incêndio nas imediações do ginásio. 

    Milos Forman diz que “de certa forma, desconfiávamos, mas não queríamos admitir, que construímos uma metáfora de toda a sociedade. E também, o filme é diferente do roteiro. Sabia que filmaríamos coisas que não poderíamos escrever.” Essa prática era comum em regimes totalitários, pois os roteiros tinham que ser aprovados pelos censores.

    A principal metáfora à qual Milos Forman se refere reside no roubo dos brindes, pois alude à escassez de alimentos presente na sociedade, transformando o cidadão comum em um potencial ladrão, devido à necessidade de sobrevivência. O roubo, segundo Milos Forman é, ainda, o principal catalisador da ira dos censores. 

    Quando os bombeiros se dão conta de que todos os alimentos foram furtados, o chefe da corporação diz ao microfone que apagará as luzes para que os ladrões devolvam os brindes. Assim que a luz se acende, um dos bombeiros é flagrado devolvendo um grande pudim de porco que fora roubado pela sua esposa. Ele desmaia e é levado para a sala anexa, onde acontece uma grande discussão. Um bombeiro, irado, acusa: “Por que você devolveu, seu idiota?” Outro diz: “Se você estivesse na posição dele como um homem honesto, você também o devolveria.” Milos Forman relata que neste momento é dita a frase que enfureceu todo o regime e foi responsável pelo banimento do filme: “Eu nunca devolveria. O prestígio da brigada é mais importante do que minha honestidade.”

    No entanto, os problemas do diretor não terminaram aí. O filme contou com financiamento do italiano Carlo Ponti. Quando assistiu ao filme, Carlo Ponti se levantou no final e saiu da sala sem sequer olhar para Milos. “No dia seguinte, me ligaram dizendo que Ponti queria o dinheiro de volta (oitenta mil dólares). Por estranho que possa parecer, seus motivos eram iguais aos dos censores, alegando que o filme ridiculariza o homem comum e as pessoas não iriam gostar disso.” 

    Endividado e sem condições de pagar, Milos Forman foi salvo por François Truffaut e Claudio Berri. Os franceses assistiram ao filme, adoraram, é claro, pois sabiam que estavam diante de uma obra-prima, hoje reconhecida como um dos melhores filmes de todos os tempos. Truffaut e Berri pagaram os dez mil dólares ao produtor e ajudaram na distribuição do filme.

    O baile dos bombeiros (Hoti, má panenko, Tchecoslováquia, 1967), de Milos Forman. Com Jan Vostrčil, Josef Sebánek, Josef Valnoha. 

    Fonte: Extras do DVD – Versátil Home Vídeo

  • Os filhos de Isadora

    No dia 19 de abril de 1913, o carro que transportava os dois filhos da dançarina Isadora Duncan caiu no Rio Sena, em Paris. As crianças, de 4 e 6 anos, faleceram no acidente. Como processo de luto que durou toda a sua vida, Isadora criou e performou a coreografia Mother, cujos temas eram a perda e o vazio. 

    Em Os filhos de Isadora, o diretor Damien Manivel faz uma espécie de docudrama, colocando em cena três mulheres que reconstituem a célebre coreografia. Agathe Bonitzer recria e ensaia de forma solitária, tentando compreender, em frente ao espelho, a imensa dor desta perda. A professora Marika Rizz ensaia a coreografia com sua aluna Manon Carpentier, uma adolescente que sofre de síndrome de down. 

    No término da apresentação de Manon, a câmera enquadra em travelling os espectadores, até parar em Elsa Wolliaston. A terceira parte é o grande destaque do filme. A câmera segue Elsa até a sua casa, em um lento e silencioso processo reflexivo sobre a arte. A lentidão e o imenso silêncio colocam o espectador em um estado contemplativo e reflexivo, quase uma imersão irrecuperável na dor de Isadora Duncan. 

    Os filhos de Isadora (Les enfants D’Isadora, França, 2019), de Damien Manivel. Com Agathe Bonitzer, Manon Carpentier, Marika Rizzi, Elsa Wolliaston.

  • Série negra

    O filme abre com Franck Poupart em um terreno baldio, o rádio no capô de seu carro. Ele ensaia uma coreografia que mistura dança e representação de luta de facas, em um momento de total descontração. O que Franck não sabe é que o destino está prestes a jogá-lo em uma trama que envolve a paixão por uma adolescente – a femme fatale do cinema noir, que pode terminar em assassinato. 

    Frank trabalha como vendedor ambulante e cobrador de dívidas para um agiota. Ele bate na casa de uma velha senhora e, após oferecer seus produtos, é surpreendido pela oferta da proprietária: sexo com Mona, sua sobrinha adolescente, em troca de um casaco. 

    Assim como em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese, há uma premissa de justiça. Franck resolve livrar a menina das garras da cafetina, mas novamente é surpreendido: Mona vira o jogo, revelando que a tia tem muito dinheiro guardado em casa e os dois começam a arquitetar o assassinato da cafetina. 

    Série negra apresenta personagens que se cruzam em cenas às vezes ingenuamente cômicas – a relação entre Frank e Tikedes, outras vezes em cenas que anunciam a tragédia de quem oscila entre o bem e o mal – o conflito entre Frank e Jeanne no banheiro. O final deixa em aberto as incompreensíveis reações de mentes doentias. 

    Série negra (Série noire, França, 1979), de Alain Corneau. Com Patrick Dewaere (Frank Poupart), Myriam Boyer (Jeanne), Marie Trintignant (Mona), Bernard Blier (Staplin), Jeanne Herviale (La tante), Andreas Katsulas (Andreas Tikedes). 

  • The humans

    O cenário é um velho apartamento de dois pavimentos, cuja estrutura ostenta a necessidade de reformas: fios elétricos aparentes, paredes mofadas, luz oscilante, teto ameaçando deixar pedaços pelo chão. A família Blake está reunida para o Dia de Ação de Graças. Durante a noite, marcada por conflitos, revelações, crises depressivas, a família tenta, quase inutilmente, reatar laços. 

    As paredes decrépitas do apartamento, as lâmpadas semi mortas, sugerem, ameaçam, insinuam lentamente que a narrativa caminha para o suspense e o terror. Coisas de uma casa que reflete seus moradores.

    The humans (EUA, 2021), de Stephen Karam. Com Richard Jenkins (Erik), Jayne Houdyshell (Deirdre), Amy Schumer (Aimee), Beanie Feldstein (Brigid), Steven Yeun (Richard), June Squibb (Momo). 

  • The invisible frame

    Em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, Tilda Swinton e a diretora Cynthia Beatt se uniram em um documentário. A atriz, em um road-movie de bike, percorreu o Muro de Berlim do lado ocidental, buscando vislumbres da outra Alemanha além das paredes.

    21 anos depois, a ideia é a mesma, agora sem a demarcação cruel da fronteira. Tilda Swinton percorre livremente vários pontos, em um passeio contemplativo, reflexivo, por ruas, avenidas, parques que outrora foram demarcados pelo muro. A beleza do documentário está neste gesto de liberdade que um passeio de bike representa, deixando o vento ondular os cabelos, o olhar cair livremente sobre estruturas e pessoas, a mente vagar sem amarras.

    The invisible frame (Alemanha, 2009), de Cynthia Beatt.

  • O homem errado

    O homem errado é um dos raros filmes de Hitchcock baseado em um fato real.O roteiro foi adaptado de uma história que Hitch viu na revista Life: um músico é confundido com um assaltante, é preso, vai a julgamento, sua mulher fica traumatizada com o caso e é internada em um hospital psiquiátrico. O diretor procurou ser o mais fiel possível à história, colocando em cena, inclusive, testemunhas reais. 

    “Bem, quase nunca me afastei da verdade e, rodando esse filme, aprendi muitas coisas. Por exemplo, a fim de se obter uma autenticidade absoluta, tudo foi minuciosamente reconstituído com a colaboração dos heróis do drama, tanto quanto possível filmado com atores pouco conhecidos e até mesmo, às vezes, nos papéis episódicos, com os que viveram o drama. Tudo isso no próprio local da ação. Na cadeia, observamos como os detidos recebem suas roupas de cama, suas próprias roupas, e, em seguida escolhemos para Henry Fonda uma cela vazia e o mandamos fazer o que os outros presos acabavam de fazer diante de nossos olhos. A mesma coisa para as cenas que se passam no hospital psiquiátrico, onde os médicos interpretavam seus próprios papéis.” – Alfred Hitchcock

    A experiência neorrealista, quase documental, não agradou ao diretor que considera o filme um “mau-Hitchcock.”  Ele explica: “Bem, minha vontade ferrenha de seguir fielmente a história original foi a causa de graves fraquezas na construção. O primeiro ponto fraco é que a história do homem foi interrompida um longo momento pela de sua mulher, que se encaminha para a loucura, e por isso o instante em que chegávamos ao julgamento era antidramático. Em seguida, o julgamento se concluía de forma muito brusca, como aconteceu na vida real. Meu desejo de me aproximar da verdade foi grande demais e morri de medo de me conceder a licença dramática necessária.”  

    (mais…)
  • Noroeste

    Todos sabem que Jacques Rivette nunca foi um diretor convencional. Muitos de seus filmes adotam linhas anti narrativas, colocando em cena personagens disruptivos, que vagam sem rumo em meio a caóticas tramas. Noroeste é um dos seus filmes mais experimentais.

    A ambientação é em uma praia insular. Um grupo de piratas modernos, liderados por Giulia, habita uma mansão da ilha. Morag, em cumplicidade com Erika, se infiltra no grupo, disposta a vingar a morte de seu irmão. 

    O filme é uma miscelânia de referências, incluindo números de dança, duelos de espada, cenas de sexo, aventura no mar, fantasia mitológica. Tudo sem uma coerência narrativa, Rivette segue um fiapo de trama de vingança para despejar na tela o experimentalismo estético que tanto repercutiu durante a nouvelle-vague francesa. 

    Noroeste (Noroit, França, 1976), de Jacques Rivette. Com Geraldine Chaplin (Morag), Bernadette Lafont (Giulia), Kika Markham (Erika), Humbert Balsan (Jacob), Larrio Edson (Ludovico).