A roda da fortuna

O número musical Dancing in the dark é o bastante para colocar a Roda da fortuna (The band wagon, EUA, 1953), de Vincente Minnelli, entre os grandes filmes do cinema. Tony Hunter (Fred Astaire) é o famoso, porém decadente, ator-dançarino da era de ouro dos musicais do cinema. Gabrielle Gerard (Cyd Charisse) é a jovem bailarina clássica. Os dois são convidados a participar de peça de teatro escrita sob a direção de um diretor  megalomaníaco (Jack Buchanan). A peça, a princípio divertida história musical, é transformada pelo diretor numa pesada e fracassada adaptação de Fausto.

Durante os ensaios, acontece o conflito entre os estilos antagônicos do velho dançarino e da jovem bailarina. Tony e Gabrielle desprezam o estilo do outro e decidem não trabalhar juntos. A reconciliação acontece na famosa sequência Dancing in the dark. No documentário Santiago (2006), João Moreira Salles inseriu a sequência da dança, com narração em off.

“Só muito mais tarde assisti ao filme predileto de Santiago.  Se o mostro aqui é porque ele me ajudou a entender que algumas transformações da minha vida aconteceram sem que eu percebesse. No filme, Fred Astaire faz o papel de um dançarino de vaudeville e Cyd Charisse, o de uma bailarina clássica. Os dois são convidados para estrelar a mesma peça e, claro, não se dão bem. Quando tudo parece perdido, Astaire convida Charisse para um passeio no parque. Meio sem jeito, eles caminham lado a lado, não se falam, nem se olham. E então acontece uma coisa linda e gratuita. Já assisti esta cena algumas vezes, sempre achei bonita a transição entre a caminhada e a dança. É uma transformação sutil e sem alarde.”

A naturalidade desta cena é uma das marcas de Vincente Minnelli, um dos responsáveis pela redefinição do gênero musical, criando filmes mais realistas. Em Gigi (1958), ganhador de nove oscars, Minnelli coloca Paris como fundo de uma história de sedução. Os protagonistas, em situações comuns, cantam quase como se estivessem conversando.

Este estilo, que coloca pessoas comuns cantando canções simples e coloquiais, verdadeiros diálogos, se consagraria nos anos 60 em filmes como: Amor, sublime amor (1961) e A noviça rebelde (1965), ambos de Robert Wise; Os guarda-chuvas do amor (1964), de Jacques Demy; Minha bela dama (1964), de George Cukor. Não eram mais os grandes musicais do cinema, protagonizados por dançarinos espetaculares. Era a possibilidade de atores se transformarem em cantores e dançarinos, transportando esta possibilidade para o imaginário do público.

A ironia de A roda da fortuna neste processo é exatamente o protagonista da história. Fred Astaire era um destes dançarinos espetaculares da fase de ouro de Hollywood. Ao interpretar o decadente Tony Hunter, Astaire promove a mudança do gênero dentro do próprio filme. A roda da fortuna começa com a imagem de símbolos da nobreza dos musicais, o chapéu coco e a bengala, usados em filmes de Astaire e marca registrada de sua interpretação em O picolino (1935). Quando a história da produção do musical dentro do filme envereda pela tentativa de espetacularidade do diretor déspota (transformar um musical na grandiosa analogia a Fausto) os conflitos se sucedem até o fracasso na estreia.

Tony Hunter decide assumir a peça e volta ao script original, recriando os números musicais para situações do cotidiano. Em um destes números, Tony e o diretor (que aceita participar da nova peça) estão cantando e dançando com o chapéu coco e bengala do início do filme, mas os adereços caem no chão durante a coreografia. Os dois se entreolham sutilmente e continuam a dançar, como se estes símbolos não fossem mais importantes.

A roda da fortuna termina com uma ininterrupta sequência de números musicais até o clímax. Fred Astaire e Cyd Charisse encenam uma história musical de onze minutos de duração, paródia do cinema de detetive e dos filmes noir.

“Kidd (Michael Kidd, coreógrafo do filme) (…) ensaiou e dirigiu, sob o controle de Minnelli e sensível também às sugestões de Astaire, todos os números de dança do filme, dois dos quais devem ser incluídos entre os melhores que o cinema e Astaire já apresentaram: 1) ‘Shine on your shoes’, dentro do mais puro espírito astaireano (…) – um número simples, mas extraordinariamente dinâmico, que Astaire executa em volta de uma cadeira de engraxate na rua 42 com incomparável leveza estilística; 2) ‘The girl hunt, a murder mystery in jazz’, mais ambicioso, pois constitui o clímax da fita. (…) A cenografia emprega um mínimo de cores e, na coreografia de Michael Kidd, um instante, pelo menos, é genial: a entrada dos capangas, precedendo Astaire, no Dem Bones Café.” – Antonio Moniz Vianna

São momentos fascinantes, representantes do gênero que conheceu o apogeu entre os anos 30 e 60, com filmes que, segundo Ruy Castro, provocavam no espectador o irresistível impulso de sair à rua dançando. Impossível, pois a genialidade de coreógrafos, diretores e intérpretes era exatamente criar coreografias grandiosas com aparente simplicidade. Ao ver o gesto fortuito de Fred Astaire e Cyd Charisse caminhando para a dança no Central Park, o espectador talvez tenha vontade de sair por aí ensaiando passos, mas se contenta em seguir com os olhos e a alma cada movimento dos dançarinos e, assim, entrar verdadeiramente no filme.

Referências:

Saudades do século 20. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Um filme por dia. Crítica de choque (1946-73). Antônio Moniz Vianna. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Santiago (2006), documentário de João Moreira Salles

Extras do DVD: A roda da fortuna.

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Gigi

Gigi (EUA, 1958), de Vincente Minnelli. Gaston Lachaise (Louis Jordan) é o solteiro mais cobiçado de Paris. Milionário, jovem, bonito, manipula as mulheres influenciado por seu velho tio Honoré (Maurice Chevalier). Gigi (Leslie Caron) é adolescente ainda com temperamento e atitudes infantis. Ela recebe aulas de etiqueta de sua tia para se tornar dama da sociedade e conquistar um bom marido. Quando Gaston está entediado, vai a casa de Gigi jogar cartas com a amiga.

Como em todo musical, as canções narram, o estilo faz com que os atores quase “falem” ao invés de cantar. Essa técnica seria repetida em My fair lady (1964)outro musical de sucessoAs músicas de My fair lady foram compostas especialmente para a interpretação de Rex Harrison e Audrey Hepburn que não eram cantores (mesmo assim, Audrey Hepburn foi dublada na montagem final). Quando canta, Leslie Caron também foi dublada em Gigi.

Em Gigi, os números de maior expressão musical ficam por conta de Maurice Chevalier. Louis Jordan e Leslie Caron apenas pontuam determinados momentos com intervenções cantadas.

Essa naturalidade é fascinante, assim como os números espontâneos exprimindo paixão, desejo, raiva, humor, tédio. Sentimentos bem característicos da fútil sociedade parisiense da época que gastava seu tempo em clubes, bailes, parques e festas regadas a fofocas que ganhavam a imprensa sensacionalista.

Paris é sempre um personagem em musicais. Filmes como Um americano em Paris (1951),  Cinderela em Paris (1957), Todos dizem eu te amo (1996) também usaram o glamour da cidade para compor histórias românticas deliciosas. Vincente Minnelli usa Paris em Gigi como elemento fotográfico, incorporando à trama belos cenários da cidade, incluindo a inesquecível cena noturna de uma fonte. Imagens que representam a magia fotográfica do cinema.  

Gaston sai da casa de Gigi após uma discussão. É noite. Ele está vestido de fraque e cartola pretos, tem uma bengala nas mãos. A calçada da rua apresenta aquele brilho característico da noite úmida, as pedras e Gaston interagem em um tom noir. Gaston para debaixo de uma luminária acesa com a bengala apoiada nos ombros. Percebe-se que toda a seqüência se desenrola em estudada composição estética, com o personagem parando em determinados pontos.

De cabeça baixa, Gaston está no canto esquerdo da tela. Ao fundo, a fonte domina a cena. Esculturas de cavalos negros nas duas extremidades recortadas pela água que jorra em um brilho indistinto, quase como se a água estivesse estática. Gaston e as esculturas compõem a fotografia como silhuetas, vultos negros.

A impressão que se tem é que o ator vai começar a cantar, mas ele apenas anda para um lado, para o outro, parando em poses para a câmera ao som da música-tema do filme. Faz gestos ensaiados com a bengala ora no ombro, ora apoiada no chão. A cartola desleixada na cabeça. Belo ensaio fotográfico que só o cinema é capaz pois utiliza a imagem e a música para traduzir sentimentos.

Só por esta seqüência Gigi já seria um grande filme. Mas é um grande filme do início ao fim, desses que transformam sua noite em uma noite musical.

Assim estava escrito

Segundo a publicação 1001 filmes para ver antes de morrerAssim estava escrito (1952) é “Ainda o melhor filme hollywoodiano sobre Hollywood.” Três personagens da meca do cinema, roteirista, diretor e atriz, estão reunidos no escritório de uma grande produtora. Eles aguardam telefonema do produtor Jonathan Shields (Kirk Douglas). Jonathan tenta retomar a carreira, em decadência em Hollywood, tentando convencer os antigos “amigos” a se reunirem no projeto de um filme.

Flashbacks reconstituem a carreira deles ao lado de Jonathan, revelando que cada um tem motivo justo para recusar a parceria. “O diretor Fred Amiel (Barry Sullivan) é um antigo sócio que foi incentivado por Shields a fazer um filme de monstros barato chamado A maldição do homem-gato (A marca da pantera vem à mente), mas então é afastado do projeto dos seus sonhos, uma produção mexicana risivelmente ‘importante’ chamada A montanha distante. Georgia Morrison (Lana Turner), a filha vulgar e bêbada de um astro encrenqueiro estilo John Barrymore, é retirada da sarjeta, transformada em uma deusa do cinema e depois trocada por uma qualquer (a maravilhosamente irônica Elaine Stewart) na noite da estréia. Dentre os três, o menos disposto a perdoá-lo é o roteirista profissional James Lee Bartlow (Dick Powell), cuja mulher frívola e assanhada (Gloria Grahame, vencedora do Oscar) Shields repassa para o ‘amante latino’ Victor ‘Gaucho’ (Gilbert Roland), que a mata em um acidente de avião.”

Assim estava escrito é um retrato frio, cruel, da indústria do cinema. Roteiristas, atores, diretores e produtores representam esta comunidade movida a sonhos milionários, muitos deles se despindo de escrúpulos para alcançarem o estrelato. Na visão impiedosa de Vincente Minnelli, dos grandes diretores da era de ouro de Hollywood, assim são os sonhos, assim é o cinema.

Assim estava escrito (The bad and the beautiful, EUA, 1952), de Vincente Minnelli. Com Lana Turner, Kirk Douglas, Walter Pidgeon, Dick Powell, Barry Sullivan.

Fonte: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.