Queima de livros

A trama de Fahrenheit 451 (França, 1966), de François Truffaut, se passa em um futuro indefinido. Um regime totalitário proibiu os livros, o leitor que ousa desafiar a lei é preso e reeducado. O argumento do governo é que livros incentivam a fantasia, sonhos, romances, tornando os cidadãos infelizes pois almejam coisas que não podem alcançar. Algumas pessoas insistem em manter bibliotecas clandestinas. Quando descobertas, os bombeiros são acionados, invadem as casas e queimam todos os livros. Daí o título do filme: fahrenheit 451 é a temperatura de queima do papel. Montag, um bombeiro, guarda alguns livros para ler escondido. Ele começa a questionar esse estado e tem acesso a uma sociedade secreta, cujo objetivo é preservar a memória da literatura.

O filme é baseado no romance homônimo de Ray Bradbury. O enredo enfoca dois grandes inimigos dos livros: o fogo e o homem. O livro A longa viagem da biblioteca dos reis, de Lilia Moritz Schwarcz, narra o terremoto que assolou Lisboa, em 1755. A Biblioteca Real de Portugal, que contava com cerca de 70 mil livros, foi praticamente destruída pelo terremoto.

“Mas o fogo teimou em ser democrático e destruiu a todos e a tudo: diante do papel, as chamas foram implacáveis, reduzindo os documentos a cinza e pó. Depois do terremoto, Portugal acordou em luto por suas gentes, em pranto por suas moradas e monumentos – e com certeza menos culto: foram-se os livros e documentos e ficaram apenas as lembranças desse catálogo maravilhoso, dessa biblioteca exímia em classificações e nas lógicas que opunham de forma cartesiana títulos, temas e formatos.”

Nesse caso, o inimigo implacável é a natureza. O outro inimigo, o homem, também se serve do fogo para destruir. O nome da rosa (1980), de Umberto Eco, é uma história de detetives em homenagem a Sherlock Holmes, mas o tema central são livros proibidos na Idade Média. Em um mosteiro, os monges guardam os livros em uma biblioteca labiríntica. Misteriosos assassinatos acontecem ao redor de um determinado livro. No final, a imensa biblioteca é consumida pelo fogo enquanto hereges são queimados do lado de fora do mosteiro pela Inquisição. A igreja, sentindo-se ameaçada, queima livros e homens.

Volto a um trecho de A longa viagem da biblioteca dos reis.

“A história mostra como essas livrarias foram e continuam sendo destruídas, seja por motivos naturais ou por conta da razão instável dos homens. E, cada vez que uma caía, tombava com ela uma parte da civilização. Foi assim com Alexandria, que durou apenas um século, e com ela – com seus 700 mil volumes – desapareceu parte do conhecimento disponível sobre a Grécia. Não por acaso os ingleses queimaram a Biblioteca do Congresso em 1814, e um novo acervo cultural teve de ser construído. Foi assim quando Monte Cassino foi bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, e perdeu-se boa parte do conhecimento sobre a Europa Medieval. E, não faz muito tempo, a destruição da Biblioteca Nacional do Camboja, pelo Khmer Vermelho, levou consigo o maior estoque de informações sobre a civilização cambojana. Por sinal, esse era o objetivo de seus algozes, que pretendiam reduzir o passado a zero e recomeçar do nada: criar uma memória; inventar de novo uma mesma nação. Não por acaso destruíram 80% dos livros e mataram 57 dos seus sessenta bibliotecários. Como se vê, a história das bibliotecas é antiga e feita de destruições, mais ou menos intencionais. Mas a repetição pede atenção e a insistência em queimar revela o objetivo de liquidar memórias e de tudo recomeçar.”

No filme de Truffaut, os personagens terminam recitando uns aos outros trechos de seus livros favoritos. A forma que encontraram de preservar a memória que deveria estar nos livros.

“Livros guardam memórias e encantamentos, e se travestem. Perturbam e excitam a fantasia, e às vezes irmanam o sonho com ação. Por isso trazem tanto medo e pedem reação.” – Lilia Moritz Schwarcz.

A estrela cadente

Greta Garbo (1905/1990) abandonou o cinema em 1941, com apenas 32 anos, no auge da carreira. Ela nunca revelou os motivos da decisão, embora especulações apontem depressão devido a Segunda Guerra Mundial, ressentimento com os críticos que a elogiavam apenas como um dos mais belos rostos do cinema e ausência de projetos que a interessassem. Após o adeus às telas, Greta Garbo viveu praticamente reclusa em seu apartamento em Nova Iorque, evitando qualquer tipo de contato com a imprensa e limitando seu círculo de relacionamento a poucos amigos e familiares. Seus filmes mais importantes, que ajudaram a criar o mito da mulher bela, misteriosa e fria (Garbo nunca ri, diziam): Mata Hari (1931), Grande Hotel (1932), Rainha Cristina (1933), Anna Karenina (1935), A dama das camélias (1936) e Ninotchka (1939).

O trecho abaixo é do texto A estrela cadente, de François Mauriac (ensaio ficcional sobre os motivos do abandono de Greta Garbo).

“Compreenda-me, senhor… do fundo de um camarote em Nova York, em Chicago, em Viena, em Berlim, em Paris, vi frequentemente, numa semi-escuridão enevoada, essa multidão enorme, fascinada pelo meu rosto; parecia-me sempre em toda parte a mesma multidão, o mesmo monstro domado de onde subia, em direção à minha face, o incenso de milhares e milhares de cigarros. Não, é claro, em direção à minha face tal como ela é, em direção ao meu pobre rosto contundido, com traços de lágrimas, com a marca de beijos, com ligeiras rugas que a menor das dores imprime num rosto mortal, seja ele o mais belo e o mais querido dos rostos vivos.”

“Porque o meu verdadeiro rosto, eles não conhecem; e eu mesma o esqueci: para oferecer aos homens essa maravilha intemporal, esses esplendor de meus traços tal como, na tela, eles adoram, fui obrigada a alterar o rosto de criança que Deus me deu… Quem sabe se já desloquei minhas sobrancelhas… e não são, talvez, meus verdadeiros cílios que sombreiam os meus olhares. A carne jovem não produz mais calor, não irradia mais através da maquiagem, das roupas, das pastas. Eu fui destruída, fui sacrificada à imagem de uma beleza que pôde saciar esses milhões de desejos enganados, de esperas vãs. Eu sou o que esse adolescente não encontrará jamais e o que durante meio século esse velhinho procurará em vão, e o que essa mulher teria querido ser, para prender aquele que a traiu. O senhor compreende por que eu me escondo? É por pena deles e porque não quero que eles saibam que eu não existo.”

“Assim falava Greta Garbo.”

Referência:  O espectador noturno. Os escritores e o cinema. Jérôme Prieur. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

O nascimento de Walter White

Em 2005, o roteirista Vince Gilligan conversava ao telefone com Thomas Schnauz, também roteirista, amigo dos tempos em que trabalharam juntos na série Arquivo X. A conversa era uma espécie de queixa sobre os rumos do cinema, sobre as dificuldades de trabalhar no ramo de longas-metragens. Até que Gilligan sugeriu:

“Talvez a gente pudesse ser recepcionista no Walmart”.

“Talvez a gente pudesse comprar uma van grandona e montar um laboratório para fabricar metanfetamina”, Schnauz rebateu.

“E quando ele disse isso, pipocou uma imagem na minha cabeça de um personagem fazendo exatamente isso: um cara comum que decide ‘virar sangue-ruim’ e se tornar um criminoso”, Gilligan contou. A imagem era tão forte que ele desligou e começou a tomar notas no mesmo instante. O cerne do seriado se desenhou rapidamente.”

Esta história fascinante do nascimento de Walter White, e outras tantas, compõem o livro Homens difíceis – Os bastidores do processo criativo de BREAKING BAD, FAMÍLIA SOPRANO, MAD MEN e outras séries revolucionárias. O autor Brett Martin busca, através de relatos do processo criativo que acompanhou a origem, redação e produção de séries marcantes da TV contemporânea, traçar um retrato do trabalho dos roteiristas, ou showrunners, como são denominados hoje.

A base estrutural do livro é o processo de criação de personagens antológicos, como Don Draper, Walter White, Dr. House e Tony Soprano. São os homens difíceis, assim como seus criadores, personagens que não existiriam em outros tempos.

“Se fossem dar ouvidos às opiniões convencionais ainda em vigor, esses seriam personagens que os americanos nunca permitiriam entrar em sua sala de estar: criaturas infelizes, moralmente incorretas, complicadas, profundamente humanas. Eles se envolviam num jogo sedutor com o espectador, desafiando-o emocionalmente a investir, eventualmente torcer e até amar uma gama de personalidades criminosas cujos delitos acabariam incluindo tudo, de adultérios e poligamia (Mad Men Amor imenso – Big Love) a vampirismo e assassinatos em série (True Blood Dexter). Desde o momento em que Tony Soprano entrou em sua piscina para dar as boas vindas a seu bando de patos geniosos, ficou claro que os espectadores estavam dispostos a ser seduzidos.”

As análises do autor, junto com histórias e relatos dos processos e enredos das séries, colocam Homens difíceis no patamar dos livros fundamentais. Não só para roteiristas e aspirantes a entrar no complexo universo das criações de séries audiovisuais, mas também para apaixonados por estes personagens, estas tramas ousadas, subversivas, instigantes.

Homens difíceis – Os bastidores do processo criativo de BREAKING BAD, FAMÍLIA SOPRANO, MAD MEN e outras séries revolucionárias. Brett Martin. São Paulo: Aleph, 2014.

Escritores diante da tela muda

O espectador noturno. Os escritores e o cinema, livro organizado por Jérôme Prieur, reúne textos de escritores sobre os primórdios do cinema. Não tratam dos filmes especificamente: são registros das impressões, sensações, sentimentos dentro da sala escura, diante dessa arte para eles nova e fascinante.

Fascínio que, em alguns casos, beira a confusão entre ficção e realidade. Em A linha de fogo, o escritor Fernand Fleurel conta a história da primeira sessão de cinema assistida por Vitorine, empregada da família. Era um filme mudo sobre a guerra e, em determinada sequência, Vitorine enxerga seu filho em um soldado no campo de batalha. O jovem estava verdadeiramente combatendo na guerra mundial e quando o ator foi atingido por disparos a empregada entrega-se tragicamente no cinema, acreditando ver a morte do filho.

Narrativas que se imbricam. O exagero desta história ilustra bem a tese apresentada por Jacques Audiberti em um texto mais didático intitulado A parede de fundo. “Entre as razões estéticas ou intelectuais propostas ao olhar humano, nenhuma exige a presença, a colaboração do espectador como o cinema.” Para o autor, o fascínio do cinema reside na capacidade de praticar “pelas vias das falhas, dos defeitos, muito mais do que pela virtude de uma vontade explícita, seus dois jogos fundamentais: o movimento e o fantástico.”

Jacques Audiberti reproduz as sensações experimentadas por espectadores após um filme de Charlie Chaplin:

“Era preciso ver os espectadores saírem do espetáculo – saírem deles mesmos… rijões, verticais, iam pela rua como espectros. A congestão mental lhes enrubescia as bochechas. Arrancados à norma do encantamento, caminhavam sobre veludo, sem dobrar a rótula. Entregues ao brilho de suas vidas, precisavam de algum tempo para exorcizar o heroísmo por ninguém impedido, onde atores da tela os haviam encarnado desencarnando-os. Entre esses espectadores, esses sonâmbulos, a maior parte por ter devorado a bengala e o chapéu coco de Carlitos, desenhavam gestos convulsivos, ritmos quebradiços. Outros, embriagados por aquilo que haviam visto, levavam consigo as grandes sensações das galopadas e prolongavam em seu pâncreas ou nas suas supra-renais o trem do inferno e o final feliz das capturas realizadas em situações embaraçosas dos mustangs.”

As sensações que o cinema provoca no espectador também estão presentes em um artigo de Thomas Mann, citado no livro:

“Seria, portanto, a verdadeira vida, a nova vida, esse abandono que se vai requentar nas salas escuras, esse poço de melancolia? Por que nos banhamos de lágrimas tão naturalmente no cinema? Porque as pessoas soltam gritos como uma empregadinha em seu dia de folga? Olhe um casal de namorados na tela, dois jovens bonitos como as imagens se fazendo seus eternos adeuses num verdadeiro jardim, com o capim ondulando ao vento, tudo acompanhado da música mais doce; quem poderia resistir; quem não deixaria cair com alegria a lágrima que incha sua pálpebra? Porque tudo isso é matéria bruta, isso não se altera, é a vida em primeira mão; é ardente e toca o coração, nos afeta como cebola ou rapé. Sinto uma lágrima correr pela minha bochecha no escuro, e sem ruído, com dignidade, eu a enxugo com a ponta do dedo.”

Para completar, um trecho de A fábrica, de René Daumal. Sobre o amor ingênuo pelo cinema:

“ – Mas por que o público vem ver essas imagens mortas de deuses natimortos?”

“- Em primeiro lugar porque, na escuridão da sala de projeção, ele pode ver sem ser visto, ouvir sem responder e contemplar (sem risco, acredita ele) seres fantásticos (que acabam, assim mesmo, por possuí-los). Em seguida porque, vendo-os, ele se dá a ilusão de ter vencido, por baixo preço todas as espécies de alegrias, crimes, bobagens, vícios, virtudes, boas ações, gestos heróicos, nobres sentimentos e pequenas covardias que ele não terá jamais coragem de viver seriamente.”

“- Estranho prazer. Deixar, assim, manipular a imaginação por imitadores de fantasmas, numa sala escura…

“Vamos lá, vamos lá, não se faça de inocente. Todo mundo ama isso. Até o polvo gosta que lhe façam cócegas.”

Referência: O espectador noturno. Os escritores e o cinema. Jérôme Prieur. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

Gente pobre

Sinto certo fascínio por estas edições da Editora 34. Na parte superior da capa, todos os livros trazem uma gravura em preto e branco. Na parte inferior, a direção de arte simples, composta por uma tipologia delicada, deixa quase em suspenso esse nome que faz parte da minha formação como leitor: Fiódor Dostoiévski.

Gente pobre é o primeiro livro de Dostoiévski, publicado em 1846. “É provável que não haja outro caso, pelo menos na Rússia, de um escritor que da noite para o dia tenha saído da mais completa obscuridade para a glória antes mesmo de ter sua primeira obra publicada. Em 1845, aos 25 anos de idade e completamente desconhecido, Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski surge no círculo literário de Vissarion Bielínski, o principal crítico da época, trazendo consigo os manuscritos de seu primeiro romance, Gente pobre, prontos para vir à luz. O poeta russo Nikolai Niekrássov (1821-1878) e o escritor Dmitri Gregoróvitch (1822-1899), ao terminar sua leitura, em lágrimas, saíram anunciando que havia surgido um novo Gógol e predizendo um grande futuro ao então jovem escritor.” – Fátima Bianchi.

A estrutura do romance é simples: o funcionário público Makar Aleksievich troca correspondências com a jovem Varvara Alekseyevna. É o típico romance epistolar. Através das cartas, o leitor é aos poucos envolvido pelo drama das duas personagens às voltas com a pobreza que acometia grande parte da população russa daquele final de século. Em algumas cartas, Makar descreve à Varvara seu círculo social, composto por colegas de trabalho e pelos moradores da pensão em que vive. É um tipo de residência comum nos romances de Dostoiévski. Escreve Makar:

“Já lhe descrevi a disposição dos quartos; não há o que dizer, é verdade que é cômoda, mas dentro deles é meio abafado, isto é, não que cheirem mal, mas é como se fosse um ar, se é que posso me exprimir assim, meio podre, penetrante e adocicado. A primeira impressão é desfavorável, mas isso não quer dizer nada, basta ficar uns dois minutos dentro de casa que passa, e a gente nem percebe que passa completamente, porque parece que a gente mesmo fica cheirando mal, a roupa fica com cheiro, as mãos ficam com cheiro, tudo fica com cheiro – e a gente se acostuma.”

Conviver com a miséria e assistir com frieza às desgraças que caem sobre cada um parece ser a única solução para Makar e os moradores da pensão. Para Varvara, a esperança é um casamento ao qual ela busca com a resignação desta gente pobre. “Meu inestimável amigo Makar Alekseyevich! Tudo se cumpriu! Minha sorte está lançada, não sei qual, mas me submeto à vontade do Senhor.”

Creio que o fascínio que sinto pela literatura de Dostoiévski está nas personagens que o autor apresenta a cada livro. São sempre reveladores de um país que conserva o ar de tragédia cotidiana. Imagino a beleza enigmática de Moscou, da São Petersburgo de Noites brancas, através de histórias como as de Makar e Varvara, através da pena deste escritor que trabalhava sob a luz de velas, retratando um mundo obscuro.

Os roteiristas de Cidadão Kane

Em 1971, a crítica de cinema Pauline Kael escreveu ensaio sobre a concepção do roteiro do filme Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941), acirrando uma polêmica: a verdadeira autoria do roteiro do filme. A ficha técnica credita o roteiro a Herman J. Mankiewicz e Orson Welles, nessa ordem. A direção, todos sabem, é de Orson Welles.

Pauline Kael defende que o argumento e o roteiro são de autoria de Herman J. Mankiewicz. Orson Welles teria apenas sugerido, por telefone ou carta, pequenas mudanças. “Orson Welles não estava por perto quando Cidadão Kane foi escrito, no início de 1940”.

A secretária de Mankiewicz que acompanhou o trabalho do autor do “primeiro ao último parágrafo… diz que Welles não escreveu (nem ditou) uma linha do roteiro de Cidadão Kane”. Era comum, nessa época, produtores e diretores assinarem argumentos e roteiros, juntamente com o escritor do filme. Isso se devia às constantes alterações que sugeriam, à liberdade que o diretor sempre teve de improvisar durante as filmagens e à prática do produtor de determinar cortes ou refilmagens de sequências inteiras. Acabavam se sentindo também donos da ideia.

Mankiewicz tentou impedir que Orson Welles fosse creditado como roteirista do filme. Acionou a justiça, mas o máximo que conseguiu foi que seu nome aparecesse primeiro nos créditos. A relação piorou na noite de entrega do Oscar. O filme foi indicado em 8 categorias, incluindo diretor e ator, mas conquistou apenas o prêmio de roteiro. Segundo a análise de Pauline Kael, Welles ganhou um prêmio pelo roteiro que não escrevera.

“Os membros do Mercury não ficaram surpresos com o fato de Welles assumir crédito pelo roteiro; tinham experiência com essa fraqueza dele. Bem no início de sua vida como prodígio, ele parece ter caído na armadilha que já colheu muitos homens menores – acreditar em sua própria publicidade, acreditar que era mesmo o criador completo, produtor-diretor-escritor-ator. Como podia fazer todas essas coisas, imaginava que as fazia”. – Pauline Kael.

Orson Welles ficou furioso com Pauline Kael. Escreveu uma longa carta, publicada em jornais e revistas, defendendo sua participação no roteiro do clássico.

Em 1971, ano de publicação do ensaio, Pauline Kael estava consagrada como uma das maiores críticas. Foi uma boa briga, pois Orson Welles também já gravara seu nome na história do cinema.

É impossível separar a concepção e estrutura narrativa de Cidadão Kane, definidas no roteiro, com as revoluções criativas e tecnológicas da direção e montagem. O filme é uma conjunção de talentos, incluindo a música, os efeitos sonoros, a fotografia revolucionária de Gregg Toland.

Quase ao final de seu ensaio, Pauline Kael disserta sobre o trabalho do diretor de cinema.

“O diretor deve estar no comando não porque seja a única inteligência criativa, mas porque só assim pode liberar e utilizar os talentos de seus colaboradores, que definham (como eles próprios) nas produções do tipo fabril. A melhor interpretação a dar quando um diretor diz que um filme é totalmente seu não é que tenha feito tudo sozinho, mas que não sofreu interferências, que fez as opções e decisões últimas, que a coisa toda não é uma concessão infeliz pela qual ninguém é responsável; não que ele foi o único criador, mas quase o contrário – que teve liberdade de usar as melhores idéias apresentadas.”

Referência: Criando Kane e outros ensaios. Pauline Kael. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

Notícias do cotidiano lento

Antes de sua bem-sucedida carreira de escritor, José de Alencar exerceu o jornalismo. Com 25 anos de idade, trabalhava como folhetinista do Correio da Manhã, no Rio de Janeiro. O folhetim é uma espécie de antecessor da crônica jornalística e, no caso de José de Alencar, escritos com leveza e já antevendo a verve literária-poética.

O livro Ao correr da pena, Editora Martins Fontes, reúne trinta e sete folhetins, escritos por José de Alencar em 1854/1855. São relatos semanais da política, da economia, notícias do exterior, o cotidiano da “corte”, dos teatros, da vida cultural e mundana do Rio de Janeiro daquele final de século. A sociedade se encontrava no teatro, nas festas, nas ruas, e a tudo o escritor assistia com sua pena, às vezes afiada na crítica, às vezes poética.

“É preciso advertir que o olhar estava no Teatro Provisório, e por isso não se deve admirar que falasse italiano; além de que, o olhar é poliglota e sabe todas as línguas melhor do que qualquer diplomata.”

Em um tempo que parece correr sem notícias dignas de nota, José de Alencar critica sua própria profissão, ironizando este trabalho obrigatório do registro, da busca da notícia, do ingrato trabalho de cronista.

“É uma felicidade que não me tenha ainda dado ao trabalho de saber quem foi o inventor deste monstro de Horácio, deste novo Proteu, que chamam – folhetim; senão aproveitaria alguns momentos em que estivesse de candeias às avessas, e escrever-lhe-ia uma biografia, que, com as anotações de certos críticos que eu conheço, havia de fazer o tal sujeito ter um inferno no purgatório onde necessariamente deve estar o inventor de tão desastrada idéia.”

O folhetinista reclama dessa falta de assunto, exaspera-se com a lentidão das notícias vindas pelos paquetes da Europa.

“Façam idéia, estando ainda dominado por estas impressões da véspera, como não fiquei desapontado no dia seguinte, quando me fui esbarrar com a nova da chegada do paquete de Southampton, o qual parece que mesmo de propósito trouxe quanta notícia nova e velha havia lá pela Europa.”

Um paquete chega com notícias da guerra no oriente, a tomada de Sebastopol, uma batalha em campo raso, a morte de um general, e Alencar, com sua crítica apurada, desdenha o velho hábito do jornalismo de interpretar as notícias.

“Passada a primeira impressão, cada um tratou de comentar as notícias a seu modo, de maneira que já ninguém se entende, e não há remédio senão apelar para o vapor seguinte a fim de sabermos a verdadeira solução do negócio.”

Era um tempo sem notícias, ou com notícias velhas tratadas como novidades pela força da palavra. Um trabalho de observador das trivialidades que busca beleza até na maçante atividade das costureiras que começam, naqueles dias, a trabalhar com as revolucionárias máquinas de coser.

“E digam-me ainda que as máquinas despoetizam a arte! Até agora, se tínhamos a ventura de ser admitidos no santuário de algum gabinete de moça, e de passarmos algumas horas a conversar e a vê-la coser, só podíamos gozar dos graciosos movimentos das mãos; porém não se nos concedia o supremo prazer de entrever sob a orla do vestido um pezinho encantador, calçado por alguma botinazinha azul; um pezinho de mulher bonita, que é tudo quanto há de mais poético neste mundo.”

José de Alencar tirava deste cotidiano lento e sem notícias assunto para seus extensos folhetins. Uma visita a Petrópolis, uma noite no teatro, um passeio pela rua do Ouvidor – ele protesta contra a recente iluminação a gás que vai roubar dos namorados a lua – é nesse flanar que o futuro autor de O guarani enxerga romantismo e poesia. E escreve assim,  Ao correr da pena.