
O roteiro original de Amores de apache (Casque d’or, França, 1952) versava sobre uma disputa de gangues em Paris, conhecidas como “apaches”. O estilo se assemelhava aos westerns americanos, com cenas de embates violentos a tiros. Quando Charles Becker assumiu o projeto, que seria dirigido por Julien Duvivier, trabalhou com o roteirista Jacques Companeez em uma história de amor – um melodrama, ambientada no submundo do crime de Paris.
O cenário são os subúrbios de Paris durante a Belle Époque, final do século XIX. Marie (Simone Signoret), conhecida como Casque d’or, é uma garota da noite que se relaciona com membros da gangue chefiada por Félix Leca (Claude Dauphin). Em um salão de dança às margens do rio, ela conhece Manda, um ex-criminoso que passou sete anos na cadeia, e agora tenta se regenerar, trabalhando como carpinteiro. A paixão entre os dois é imediata, explosiva, despertando a ira do atual amante de Marie, um membro da gangue de Félix.
“Jacques Becker estava determinado a fazer com que Amores de apache não fosse, em qualquer sentido tradicional do termo, um flme histórico. ‘Queria que meus atores se comportassem como se vivessem na época em que se passa a história’, explicou ele, ‘e não como se vestissem fantasias’. Sua recriação da Paris da virada do século é cheia de detalhes e precisão, e dentro desse cenário seu elenco se move, fala e se sustenta com a mesma credibilidade do seu habitat natural. Todos os personagens, por mais breve que seja a aparição deles na tela, são caracterizados com exatidão, o que dá aos espectadores a sensação de que – como o próprio Becker afirma – ‘continuam a vida fora do cinema, entre as cenas e antes mesmo de o filme começar’. Este é um mundo visto por inteiro, sem romantismo ou sensacionalismo, e sim apresentado como uma comunidade complexa e viva por si só.” Philipe Kemp
Amores de apache marca a transição do realismo poético francês para o novo cinema dos anos 60. O filme foi um fracasso de bilheteria, mas foi elogiado pelos jovens críticos da Cahiers Du Cinema, que defendiam um cinema mais realista e moderno, filmado nas ruas, assim como o filme de Jacques Becker – um melodrama com toques de modernidade.
A história de amor de Marie e Manda, cujos destinos caminham para a tragédia, é narrada com belas cenas do romance, com destaque para a beleza e talento de Simone Signoret. É também uma história de amizade, dois amigos que cumpriram pena juntos e agora se veem em lados opostos, mas sacrificam tudo em nome da cumplicidade que construíram.
Referência: Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011
