Gente pobre

Sinto certo fascínio por estas edições da Editora 34. Na parte superior da capa, todos os livros trazem uma gravura em preto e branco. Na parte inferior, a direção de arte simples, composta por uma tipologia delicada, deixa quase em suspenso esse nome que faz parte da minha formação como leitor: Fiódor Dostoiévski.

Gente pobre é o primeiro livro de Dostoiévski, publicado em 1846. “É provável que não haja outro caso, pelo menos na Rússia, de um escritor que da noite para o dia tenha saído da mais completa obscuridade para a glória antes mesmo de ter sua primeira obra publicada. Em 1845, aos 25 anos de idade e completamente desconhecido, Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski surge no círculo literário de Vissarion Bielínski, o principal crítico da época, trazendo consigo os manuscritos de seu primeiro romance, Gente pobre, prontos para vir à luz. O poeta russo Nikolai Niekrássov (1821-1878) e o escritor Dmitri Gregoróvitch (1822-1899), ao terminar sua leitura, em lágrimas, saíram anunciando que havia surgido um novo Gógol e predizendo um grande futuro ao então jovem escritor.” – Fátima Bianchi.

A estrutura do romance é simples: o funcionário público Makar Aleksievich troca correspondências com a jovem Varvara Alekseyevna. É o típico romance epistolar. Através das cartas, o leitor é aos poucos envolvido pelo drama das duas personagens às voltas com a pobreza que acometia grande parte da população russa daquele final de século. Em algumas cartas, Makar descreve à Varvara seu círculo social, composto por colegas de trabalho e pelos moradores da pensão em que vive. É um tipo de residência comum nos romances de Dostoiévski. Escreve Makar:

“Já lhe descrevi a disposição dos quartos; não há o que dizer, é verdade que é cômoda, mas dentro deles é meio abafado, isto é, não que cheirem mal, mas é como se fosse um ar, se é que posso me exprimir assim, meio podre, penetrante e adocicado. A primeira impressão é desfavorável, mas isso não quer dizer nada, basta ficar uns dois minutos dentro de casa que passa, e a gente nem percebe que passa completamente, porque parece que a gente mesmo fica cheirando mal, a roupa fica com cheiro, as mãos ficam com cheiro, tudo fica com cheiro – e a gente se acostuma.”

Conviver com a miséria e assistir com frieza às desgraças que caem sobre cada um parece ser a única solução para Makar e os moradores da pensão. Para Varvara, a esperança é um casamento ao qual ela busca com a resignação desta gente pobre. “Meu inestimável amigo Makar Alekseyevich! Tudo se cumpriu! Minha sorte está lançada, não sei qual, mas me submeto à vontade do Senhor.”

Creio que o fascínio que sinto pela literatura de Dostoiévski está nas personagens que o autor apresenta a cada livro. São sempre reveladores de um país que conserva o ar de tragédia cotidiana. Imagino a beleza enigmática de Moscou, da São Petersburgo de Noites brancas, através de histórias como as de Makar e Varvara, através da pena deste escritor que trabalhava sob a luz de velas, retratando um mundo obscuro.

A paixão pelo jogo

Um jogador, de Fiódor Dostoiévski, retrata com conhecimento o mundo subterrâneo dos cassinos. Conhecimento que o autor adquiriu através do vício compulsivo pelo jogo.

“A paixão pelo jogo foi sua segunda doença, possivelmente relacionada com a primeira, uma obsessão verdadeiramente anormal. A isso devemos o maravilhoso romance O jogador, que se passa numa estação de águas alemã, inverossimilmente e perversamente chamada Roletemburgo. Nesse romance, a psicologia mórbida e do demônio Sorte é exposta com incomparável veracidade.” – escreveu Thomas Mann sobre o vício de seu colega escritor.

Aleksei Ivanovich serve a um general russo. Jogador inveterado, calculista, passa dias e noites em volta da roleta sempre que tem dinheiro. Também em volta da roleta se encontram diversas nacionalidades, incluindo alemães, ingleses, franceses, poloneses. Figuras caricatas, vencidas diariamente pelo vício.

“Não há qualquer magnificência nessas reles salas, e o ouro não apenas se amontoa sobre as mesas, mas até mal existe ali. Naturalmente, vez por outra, no decorrer da estação, aparece, de repente, algum excêntrico, um inglês ou um asiático, ou um turco, por exemplo, como aconteceu este verão, e, de chofre, perde ou ganha uma quantia muito elevada; mas todos os demais apostam uns escassos florins, e, normalmente, há bem pouco dinheiro sobre a mesa. Depois que entrei na sala de jogo (a primeira vez na vida), fiquei por algum tempo sem me decidir a jogar. Além disso, eu era comprimido pela multidão. Mas, ainda que estivesse sozinho, penso que iria embora quanto antes e não começaria a jogar. Batucava-me o coração, confesso, e meu estado não era de sangue-frio; já sabia com certeza – há muito o decidira – que não sairia sem maiores novidades de Roletemburgo; algo além de radical e definitivo tinha que suceder indefectivelmente em meu destino. Era preciso, e assim seria. Por mais ridículo que fosse o fato de eu esperar tanto da roleta, tenho a impressão de ser ainda mais ridícula a opinião rotineira, por todos aceita, de que é estúpido e absurdo esperar algo do jogo. E por que há de o jogo ser pior do que qualquer outro meio de adquirir dinheiro, como, por exemplo, o comércio? É verdade que, em cem jogadores, ganha apenas um. Mas que tenho eu com isso?”

Estas reflexões de Aleksiéi o movem durante a narrativa, dividido entre o jogo e o amor por Polina, filha do general para quem trabalha. A vida de Aleksiéi acaba se confundindo com o jogo, em determinado momento nada mais importa, a não ser estar ao lado da roleta.

“Possuído de uma espécie de febre, empurrei todo aquele monte de dinheiro sobre o vermelho – e, de repente, voltei a mim! E uma única vez em toda aquela noite, enquanto durou o jogo, o frio do medo me perpassou o corpo e se refletiu num tremor de pernas e das mãos.”

É um relato cruel, carregado da percepção que Dostoiévski tinha de seu próprio vício e das pessoas que o cercavam. Um jogador reflete, como sempre, o profundo sentimento de ironia e decadência que o escritor russo infligia a suas personagens.