O cinema e o silêncio

A máscara negra desceu sobre o rosto deformado de Anakin Skywalker. Certos closes tomam conta dos nossos olhos e do que eles escondem. No final de A Vingança dos Sith, a máscara de Darth Vader dominou o cinema através do mais completo silêncio.

Em 1980, entrei no cinema tentando dominar a ansiedade que me persegue desde a década de 70, antes de cada filme da série Star wars. Naquele ano, o filme ainda era chamado de Guerra nas estrelas e parecia a história de Luke Skywalker, guerreiro estelar, samurai, pistoleiro e piloto de combate. Dentro do cinema lotado, os adolescentes gritam e assobiam a cada batalha de O império contra-ataca. Impossível ficar indiferente diante do idealismo místico de Luke e do romantismo cínico de Hans Solo.

Luke Skywalker finalmente se encontra com Darth Vader. Eles duelam pelos corredores da Cidade das Nuvens. A cena é famosa. Um dos vilões mais lembrados do cinema decepa a mão do herói, o jovem cavaleiro jedi procura fugir mas tem abaixo o abismo. Luke agarra-se como pode, a dor estampada no rosto. Darth Vader estende a mão para ele e numa frase revela o segredo da saga.

Não sei quantas pessoas cabiam naquele velho e grandioso cinema que guardava o glamour da sétima arte: tapetes vermelhos, dois andares, escada em caracol, tela de 70 mm. Quando a câmara deu close em Darth Vader e a voz impiedosa de James Earl Jones invadiu o cinema, nada mais se ouviu. Nem um som, nem um suspiro. O fascínio da revelação se traduziu em completo silêncio.

A vingança dos Sith encerra uma história de seis filmes. História que perdeu muito da magia e ganhou efeitos visuais espetaculares, que trocou o glamour por uma franquia milionária, a marca Star wars. A vingança dos Sith invadiu metade dos cinemas no mundo inteiro, domina jornais, revistas, programas de TV e a sempre inquietante Internet, que acabou com a sensação de ser surpreendido por uma frase tão banal quanto “Eu sou seu pai”.

Mas dentro do cinema, quando a máscara de Darth Vader tomou conta da tela, o silêncio era o mesmo de 1980.

Minha bela Jimena

Quando chego em casa à noite, Jimena me espera no portão. Ela ouve o barulho do carro de longe e começa a latir. Abro o portão da garagem e a encontro dando voltas no jardim, feliz, saudosa de afagos, chorando mansamente de ansiedade, pedindo atenção na noite.

Ela chegou onze anos atrás, da raça pastor-alemão, inquieta, andando pelos cantos da casa, reconhecendo o lugar, marcando espaço. Deitou-se, o focinho entre as patas, esperando o nome. Carlos Heitor Cony tinha uma setter chamada Mila, homenagem à rua onde o escritor Franz Kafka morou em Praga. Como minhas maiores viagens são através dos livros e filmes, minha homenagem foi para uma das lembranças visuais mais arrebatadoras da minha infância: Sophia Loren no filme El Cid (1961), de Anthony Mann.

Quando a mãe permitia, eu ficava assistindo a filmes de madrugada. Ainda sem vídeos e DVDs, minha única opção era a famosa Sessão Coruja da Rede Globo. Eram noites de sono perdidas para conhecer alguns clássicos do cinema, exibidos sempre depois da meia-noite. Em uma dessas madrugadas da década de 70, conheci a história do lendário herói espanhol Rodrigo de Bivar (Charlton Heston), apelidado El Cid pelos muçulmanos.

O filme El Cid é o típico representante do gênero épico que fez muito sucesso até a década de 60 no cinema americano. Fotografia em technicolor, cenas de batalhas grandiosas, astros hollywoodianos interpretando personagens mitológicos (o próprio Charlton Heston fizera, dois anos antes, Ben-Hur), uma bela história de amor como pano de fundo. Era a época dos grandes espetáculos, dos grandes filmes, do grande cinema.

Época das grandes atrizes, daquelas que tomavam conta da tela e de quem estava fora dela. Basta o primeiro fotograma de Sophia Loren em El Cid para entender a beleza do filme. Ela é Jimena, uma nobre da corte espanhola, noiva de Rodrigo de Bivar, antes dele se transformar no herói que vai libertar a Espanha dos muçulmanos.

No auge da fama, a italiana Sophia Loren carregava vários adjetivos: esplendorosa, sedutora, radiante, para muitos representava a exuberância devastadora da mulher latina (basta um close em seus seios e lábios para entender o que estou dizendo).

Nunca mais esqueci Jimena e ficava ano a ano esperando as reprises de El Cid. Assisti a cada uma delas na TV, em vídeo, em DVD, sempre com o mesmo fascínio em cada cena de Sophia Loren. Revi o filme nestes dias, motivado por semanas cuidando de minha Jimena, devido a uma doença. Com todo o carinho que ela exige, necessita e merece.

Olhando para o céu

O pai e a mãe acordaram os filhos de madrugada. Traziam a expressão de novidade e fascínio. Andamos até a rua de cima. Vários amigos já estavam aguardando, alguns com colchas e cobertores nas costas. Não me lembro exatamente o ano, foi no início da década de 70, e nem mesmo o cometa que procurávamos. Lembro-me de crianças e adultos na madrugada olhando para o céu.

A mesma cena de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg. Pessoas sentadas na estrada à noite. As espaçonaves passam num jogo de luzes e cores e desaparecem na escuridão. Spielberg começava a mostrar o seu fascínio por mundos e seres desconhecidos que habitam a mente das crianças. O final de Contatos Imediatos do Terceiro Grau representa o imaginário de quem sempre vasculhou o universo a procura de objetos não identificados. As notas musicais, as pequenas espaçonaves dançando no céu, a gigantesca nave flutuando sobre a terra, o deslumbramento no olhar de François Truffaut (nesse momento, creio, é o próprio Truffaut  e não o cientista que ele interpreta). Cenas inesquecíveis de um filme carregado de otimismo e esperança.

Em E.T., o Extraterrestre (1982), Spielberg mostrou a saída para o medo e a intolerância que dominam o mundo adulto: o olhar das crianças.  O filme é das fábulas mais ternas de todos os tempos.  Duas crianças de mundos diferentes, quase incomunicáveis, evoluem da estranheza para a amizade. As cenas são mostradas sob o ponto de vista das crianças. E. T. combate a ideologia alardeada pelos antigos filmes de ficção científica produzidos no auge da guerra fria entre EUA e URSS que sempre colocavam os alienígenas como ameaça, o invasor.

No filme de Spielberg, a ameaça vem dos adultos. Na cena da perseguição, as crianças fogem de bicicleta dos carros da polícia que chega a fazer um cerco à mão armada aos fugitivos. Na edição comemorativa de vinte anos do filme, Spielberg substituiu, usando recursos digitais, as armas dos policiais por walkie-talkies. Achava a violência das armas exagero num filme carregado de lirismo.

Lirismo que vem da infância do diretor. A bicicleta de Elliot voando na noite e passando em frente à lua é bela referência a Peter Pan. O roteiro de Melissa Mathison e a direção mágica de Spielberg reservaram um final capaz de comover o mais empedernido espectador. Impossível não deixar a lágrima correr na hora do abraço do E. T. em Elliot. No meu caso, algumas lágrimas a mais, carregadas de lembranças: o filme termina com crianças e adultos olhando para o céu.

Alice e a Bruxa do Oeste

Alice deitou a cabeça em meu ombro e me apertou com força. A Bruxa do Oeste fazia malabarismos com sua vassoura, deixando no céu, em um rastro de fumaça, uma frase de alerta a Dorothy. A reação de Alice às aparições da Bruxa era se aproximar cada vez mais. Primeiro, olhar amedrontado, depois, leves arrepios sentidos no toque dos braços, finalmente, a cabeça apoiada no ombro, as mãos enlaçadas em meu antebraço.

Pouco depois, o filme ganhou aquele ar soturno, as cores berrantes do Technicolor deram lugar a nuances desbotadas. Dorothy e seus amigos penetravam na floresta mal assombrada em direção ao castelo da Bruxa. Alice tremeu levemente e, pela primeira vez, passei o braço por cima de seu ombro, apertando-a, roçando meus lábios em seus cabelos… Um estrondo ecoou no cinema. Imediatamente as luzes e a projeção se apagaram, a sala ficou às escuras. Gritos temerosos, tumulto, o rosto de Alice em meu peito.

Pequenos pontos luminosos surgiram nas laterais. Os lanterninhas gritavam “calma, calma”, “não se assustem”, “sem correria”. Em vão, meninos já corriam pelos corredores. Um lanterninha subiu no palco e gritou: “é apenas uma queda de luz, fiquem sentados, fiquem sentados, daqui a pouco a luz volta…”

Os meninos sossegaram aos poucos, ouvi uma frase solta: “um ônibus bateu no poste aí em frente.” Afaguei os cabelos de Alice. “Vou ver o que aconteceu”. Ela me olhou desolada, talvez pensando na Bruxa do Oeste, se ligando a esses acasos que transformam a simples queda de luz em presságios sombrios. “Não saia daqui”. Ela assentiu com a cabeça e, naquele breve instante de olhos recíprocos, a vontade de buscar o que meus sentidos pediam desde que Dorothy cantou “Over the rainbow”: 

“Não demoro”. Segui pelo corredor até o banheiro nos fundos do cinema. A janela dava para a Av. Amazonas. Do outro lado da avenida, pequena confusão se formava em frente ao ônibus em cima do passeio. A visão do alto deixava claro o acontecido: o ônibus batera no poste, a frente do veículo estava achatada, como a enlaçar o poste.

Era fim de tarde de domingo, aquela parte do bairro estava sem luz, escuridão total começava a tomar conta do cinema. Voltei para perto de Alice. Ela estava mais calma, conversava com as amigas. Todos já sabiam do acidente. Alguns minutos depois, o lanterninha subiu novamente no palco e avisou que não poderíamos esperar mais. Pediu que saíssemos do cinema com calma, em fila. Na porta, cada um receberia um ingresso válido para a próxima semana.

No domingo seguinte, voltei ao cinema sem Alice. Dorothy também não estava comigo. Era outro filme, O Mágico de Oz saíra de cartaz.

Cerca de quinze anos depois, tarde da noite, apaguei as luzes da sala e coloquei a fita no videocassete. Quando Dorothy começou a cantar “Over the rainbow”, eu já estava nas lembranças daquela tarde. Os personagens entraram na floresta mal assombrada. Assisti finalmente ao resto do filme neste estado insensato a que sou levado por filmes do passado. Dorothy acordou em sua casa no Kansas repetindo “não há lugar melhor do que o nosso lar”. Fiquei ainda um tempo na escuridão da sala, como naquela tarde no cinema da minha adolescência. Tentei, inutilmente, relembrar o gosto dos lábios de Alice.

As primeiras sessões de cinema

O pai segura firme a mão da filha caçula ao atravessar a rua. Anda rápido no calçamento de pedras, olha entre um sentido e outro preocupado com carros. Ele sequer olha para trás, pois desde cedo ensinara os filhos homens a se cuidarem sozinhos. Mesmo assim, meu irmão mais velho me prende pela gola da camisa, acelerando os passos ao notar minha distração no meio da rua.

O trânsito de Belo Horizonte, no início dos anos 70, não era de provocar receios. Adolescentes ao volante sem carteira conviviam com velhos motoristas. Antes dos 14 anos, meu irmão já dirigia o Gordini branco do pai, atravessando a cidade, geralmente à noite, quando guardas de trânsito preparavam os lençóis. Dirigia como experiente motorista, despreocupado, até que a família sentiu o temor da polícia bater à porta.

Nestes anos de farda no país, o menor sinal de polícia fazia tremer. Domingo à tarde, meu irmão saiu de carro e foi surpreendido poucos quarteirões depois por uma viatura. Apesar dos insistentes sinais da polícia, acelerou o carro, empreendendo uma fuga até a porta de nossa casa. Vizinhos saíram à rua, meninos correram em volta da viatura que parou atrás do Gordini, mulheres assustadas correram a gritar os maridos.

Meu irmão entrou correndo em casa e o pai, com a tranquilidade que irritava seus adversários mais ferrenhos na porrinha, saiu à rua e entabulou conversa à boca miúda com os dois policiais. Minutos depois, estavam todos sentados no sofá da sala. Na cozinha, a mãe andava de um lado para o outro, sem saber direito onde estava o bule de café.

Meia hora depois, os policiais trocavam apertos de mãos com o pai na porta de casa. Um deles, ante o olhar atento dos vizinhos, fez uma repreensão severa à qual o patriarca respondeu com promessa de nunca mais deixar o filho roubar seu carro.

O pai passava o tempo ensimesmado em suas tarefas diárias. O aperto de um parafuso nas velhas máquinas que tanto e tão bem consertava. Os olhos parados na TV em preto e branco, assistindo a desenhos dos estúdios Hanna Barbera. O remexo do garfo no prato de comida de um jeito calmo, como quem não tem mais nada a fazer.

A língua do pai se soltava depois de um ou dois copos de cerveja, quando, no bar, começava a discutir cinema com um amigo. Os dois passavam horas conversando sobre clássicos do cinema.

– Qual o melhor faroeste de todos os tempos?

– Rastros de ódio. – respondia de pronto o amigo.

– Prefiro Johnny Guitar. – retrucava o pai, bebericando a cerveja. – E a cena de Jane Russell deitada na grama… Quem é mesmo o diretor do filme?

– Howard Hawks.

– Não, é o outro Howard… Hughes.

Homem de hábitos, um deles, levar os filhos todo domingo às sessões matinais do Cine São Carlos, no início da Rua Padre Eustáquio. Ele deixa o carro na Rua Rio Casca e segue na frente com a filha caçula segura pela mão. Os filhos homens andam atrás, enfrentando pequenos desafios da vida como atravessar ruas. O caminho para minhas primeiras sessões de cinema.

Na porta do cinema, o pai segue até a pequena abertura na parede, protegida por grossas barras de ferro. Ingressos na mão, beija a face da filha, passa a mão nos meus cabelos, fita o primogênito, recomenda:

– Cuide de seus irmãos. E se comportem. Sala de cinema é um templo, quando a luz do projetor se acender, silêncio… . – à medida que a fila anda, conta pelo menos uma cena do desenho.

– Vocês vão ver uma das imagens mais impressionantes, nem parece filme infantil. Os abutres voando pelo desfiladeiro… bem, não posso contar o final.

– Ninguém consegue segurar as lágrimas quando Bambi vê a mãe… deixa pra lá.

– Você já viu um elefante bêbado? – solta uma risada leve, quase sem som.

O pai nunca entrava conosco. Voltava para nos buscar perto do horário de almoço.

Naquele domingo, como de costume, ele espera os filhos passarem pela roleta. Quando entramos no saguão do cinema, o irmão comenta.

– Uê! Ele não contou nada do filme.

Assim que sentia os filhos em segurança dentro do cinema, o pai dava meia volta em direção à Rua Rio Casca. Logo depois, a gente corria para dentro do cinema, já participando da algazarra que tomava conta da sala. Naquele domingo, o pai continua parado na porta do cinema. As mãos, como de costume, enfiadas no bolso. Até que, sem mais nem menos, ele grita, desviando o olhar para o cartaz afixado na parede lateral.

– Ei, ele pode voar.

Depois do filme

– Desculpe o atraso.

– Não tem problema. Já comprei os ingressos, o filme ainda não deve ter começado. Tem sempre comercial, um curta-metragem antes, é melhor entrar mais tarde.

A sessão de domingo do Cine Roxy era tranquila. O cinema tinha a fama de passar “filmes de arte”, difícil se formar grandes filas. Nem mesmo a pequena bilheteria, uma abertura na parede, com barras de ferro transversais, apresentava problemas. Além de tudo, adquiri desde os meus primeiros encontros o hábito de chegar cedo, cerca de trinta minutos antes das meninas. Eu marcava os encontros para a porta do cinema, ruim só o desconforto de ficar esperando em pé, na rua, às vezes conversando banalidades com o pipoqueiro.

– Vamos entrar? – Marisa tinha a beleza incerta da adolescente em formação. Não sabia ainda o que fazer com os cabelos, cortados em linha reta pouco abaixo dos ombros, enchendo de volume a cabeça a partir do lado direito, caindo ondulados, sem preparo algum. O rosto ovalado não combinava com cabelos assim, as bochechas cheias, levemente rosadas, boca pequena, nariz fino. Também não sabia ainda como se vestir para este ou aquele encontro, estava de tênis, calça jeans e camiseta, roupa mal ajustada … bem, era um encontro. Eu a conhecera duas semanas antes, nestas festas de finais de semana em casa de amigos.

Buscamos cadeiras no meio do cinema. No Roxy não era bom sentar atrás, pois dava para ouvir o barulho de carros da Avenida Augusto de Lima. Assim que o filme começou, Marisa deitou a cabeça em meu ombro, a mão em minha coxa. A sessão estava vazia naquele início de noite do domingo e logo percebi que não estávamos interessados no filme. Era a quinta vez em menos de um mês que eu assistia a Hair.

Na primeira sessão, no Palladium, não consegui me levantar ao final. À medida que os hippies invadiam o gramado à frente do Capitólio, em Washington, cantando Let the sunshine in, sensação indefinida tomou conta. Fiquei sentado olhando para a tela, sem prestar atenção nos créditos, esperando a sessão seguinte. Voltei na outra semana e na outra com o fascínio de quem está assistindo ao filme pela primeira vez.

Quando o filme acabou, Marisa se endireitou na cadeira. No caminho para o ponto de ônibus, no centro da cidade, tive a prudência de não perguntar se ela gostara do filme, pouco assistimos, afinal.

– Você pode me deixar aqui no ponto mesmo. Meu bairro é longe…

– Não. Vou com você até em casa.

– Já são quase onze horas…

– Não tem problema, estou acostumado a andar de noite pela cidade.

O Bairro Santa Inês fica perto de Sabará, mas naquela noite não me pareceu tão longe assim. O ônibus vazio permitiu ainda um ou outro arroubo, importunado apenas pelo olhar displicente do trocador. Andamos cerca de quatro quarteirões da avenida principal até a casa de Marisa. A rua mal iluminada e uma grande árvore na porta da casa colaboraram para uma despedida mais longa do que eu imaginava e podia.

– Será que ainda tem ônibus? – ela perguntou olhando o relógio.

– Não sei, deve passar um noturno naquela avenida. – ela ficou calada por alguns instantes, seus olhos procurando alguma coisa.

– Não quer entrar um pouco?

– É tarde, seus pais….

– Estão viajando. Foram ontem para a praia.

– E você?

– Tenho cursinho, o vestibular já é no início do mês. Amanhã vou para a casa da minha tia. Vem, entra um pouco.

O ponto de ônibus já estava cheio. Decerto, gente que pegava trabalho cedo, homens e mulheres com bolsas a tiracolo, as marmitas quadradas de alumínio bem ajeitadas no fundo, apoiadas dos lados para não virarem. 

Preocupada com os vizinhas, Marisa me fizera sair da casa ainda de madrugada. Agora, no ponto de ônibus, fiquei com aquela emoção indefinida, deixando de pegar um ônibus, o outro, mais um, como créditos passando no final da sessão.

Humphrey

– Humphrey Bogart. Você se parecia com Humphrey Bogart naquela noite de chuva. – Elza bateu com força a pequena pá de jardim na terra seca, tentando cavar um buraco, pequeno que fosse.

– Lembra? Sapatos pretos, uma das mãos no bolso do sobretudo cinza, daqueles que a gente só vê no cinema, a outra segurando o cigarro nos lábios, um charme!, chapéu cinza.  A aba do chapéu, levemente inclinada, fazia sombra no seu rosto. – as mãos doíam, ela pegou o regador e molhou um pouco mais a terra, com cuidado, jogando água nos rasgos que já fizera, ajudando com a pá, tentando penetrar no solo resistente.

– Você se escondia da chuva, debaixo da marquise, encostado na porta lateral da igreja. A luz da rua fraquinha, piscando, o tempo estava tão ruim. Em noites de chuva, a praça ficava vazia, os pais não confiavam, mandavam chamar, pra casa!, a cidade deserta, nem as estrelas apareciam. – deixou a pá de lado e tirou a terra do buraco com as mãos.

– Como é mesmo o nome do filme? Isso. A Condessa descalça. Muitos anos depois, vimos o filme no Cine Brasil. Acho que é uma das primeiras cenas, Humphrey Bogart na chuva, assistindo a um enterro. Quando a gente ia ao cinema você nunca olhava para mim, olhava fascinado o tempo todo para a tela, às vezes me dava um ciúme. Mas eu fiquei olhando para você e descobri que na noite em que te vi pela primeira vez, debaixo da marquise da igreja, você se parecia com aquele ator de chapéu e sobretudo na chuva.

– Humphrey Bogart, trabalhou em Casablanca, O tesouro de Sierra Madre, você me disse entusiasmado quando perguntei o nome daquele homem charmoso. – Elza colocou a muda, ainda com o plástico preto em volta, no pequeno buraco.

– Nome complicado. Falta pouco agora.

Ela retirou a muda, molhou mais um pouco a terra, a água formou uma pequena poça, demorando a  infiltrar. Voltou a escavar lentamente, a ponta da pá fazendo pequenos rasgos, as mãos doendo, princípios de calos latejando na confluência dos dedos.

Retirou o plástico preto da muda, espalhou um pouco de adubo no buraco, em seguida uma pequena medida de esterco. Colocou cuidadosamente a planta no lugar, misturou terra preta, esterco e húmus em uma vasilha, espalhando a solução em volta da muda. As mãos ajudavam a terra fértil a tomar seu lugar, o buraco do terreno árido ganhando uma cor viva, a muda pronta para florescer. Nivelou a terra na superfície, por fim molhou com carinho o seu trabalho, a água infiltrando rápida, fácil.

Elza levantou-se, as mãos nas costas tentando parar a leve dor, pequenas pontadas, – nada de mais na minha idade. O sol já encostava na montanha, deixando o céu no tom amarelo de que tanto gostava. Era hora de sentar na varanda, aproveitar a última luz e contemplar suas plantas, suas flores, seu recanto agora solitário.

Abaixou-se novamente, roçou a palma da mão levemente nas minúsculas folhas de murta, como se formasse uma aura em volta de toda a planta. Duas lágrimas escorreram por seu rosto.

– Você se parecia com Humphrey Bogart, meu querido.

Cine Amazonas

Foi meu primeiro gesto de liberdade. Andei cerca de cem metros da minha casa até o ponto. Peguei o ônibus, paguei o trocador com o dinheiro contado, sentei-me quieto na janela, diminuto no banco, os olhos na altura do começo do vidro. Esticava vez por outra o pescoço para ver o caminho, certeza de não me perder. Desci na Avenida Amazonas, andei menos de um quarteirão, as mãos nos bolsos da bermuda (um hábito que ficou, mãos nos bolsos) tocando o dinheiro, certeza de não perdê-lo, e entrei no Cine Amazonas. Comprei o ingresso, escolhi uma cadeira mais ao fundo, esperei o início do filme.

Passou a ser meu programa de domingo, abençoado pela mãe “vai com Deus!, meu filho”. Ir ao Cine Amazonas, sozinho ou em turma de meninos, sessões vespertinas, filmes de censura livre que saíam de cartaz direto para as sessões da tarde da Rede Globo. Era só um programa de menino que descobria as desamarras da vida.

Com o tempo descobri outros caminhos, outros cinemas. O Alvorada, Guarani, aprendi a andar pelo centro da cidade decorando as ruas do Metrópole, Acaiaca, Brasil, Royal, Jacques, Palladium.  Quando eu chegava em casa, minha mãe perguntava simplesmente “gostou do filme?”. Sabia que eu não tinha me desviado porque sabia que para mim era impossível não ir ao cinema.

Em cada um desses cinemas, guardo lembranças de filmes. Os Dez mandamentos no Cine Guarani, Nasce uma estrela no Acaiaca, 2001 Uma odisséia no espaço no Pathé, King Kong (ou melhor, Jessica Lange), no Brasil, Guerra nas estrelas no Palladium.

Do Cine Amazonas, ficaram dois filmes, duas músicas. O primeiro, do fim da infância. Judy Garland cantando Over the rainbow, sonhando em sair da pobreza para uma terra encantada, andando por uma estrada de tijolos amarelos ao lado de amigos, o espantalho sem cérebro, o homem de lata sem coração e o leão sem coragem. Destino, a fantasia do Mágico de Oz. Na verdade, um encontro com eles mesmos, na difícil encruzilhada do medo e desejo de cada um.

O outro filme, do início da adolescência. Katie está num bar e vê Hubbell, um soldado da marinha americana, dormindo na cadeira, bêbado. As lembranças de Katie tomam conta da tela, junto com os créditos do filme e a música The way we were. Hubbell corre pelo campus da universidade e Katie distribui panfletos políticos. Dois jovens, ela uma ativista ambiental e política, radical, não se rende a uma discussão. Ele, despretensioso e sedutor, se deixa levar pelas festas e garotas enquanto cresce o sonho de ser escritor.

Anos mais tarde, depois da guerra, no bar, seus caminhos voltam a se cruzar. Vão se amar, se casam, têm uma filha. É um filme de quem sonha e luta pela liberdade individual. No final, eles estão separados por uma rua: Hubbell, saindo de um restaurante que o seu sucesso pode pagar; Katie do outro lado distribuindo panfletos políticos. The way we were, minha adolescente lembrança do Cine Amazonas, filme com um dos títulos mais bonitos em português: Nosso amor de ontem.

Cena de cinema

“Ele é igualzinho aquele ator de cinema.” A irmã deu um pulo da cama assim que Alice entrou aos gritos pela janela.” “Quem?”  “Aquele ator de cinema… do filme que assistimos na semana passada. Vem, vem ver.”

As irmãs dormiam no quarto voltado para a rua, bastava abrir a janela e o movimento estava bem ali. Vez por outra elas se assustavam quando, deitadas na cama, a modorra quente da tarde, abas da janela de madeira abertas, um amigo assobiava, outra amiga pulava de repente no meio do quarto às risadas.

Era assim a vida das meninas: debruçadas na janela, esperando um rosto novo, diferente dos rapazes que passavam três, quatro vezes por dia em frente a casa. No sábado à noite, davam voltas na pracinha da igreja, moças em sentido contrário aos rapazes, olhares se cruzando até enjoarem um do outro.

Alice, mal completados 16 anos, era dois anos mais velha do que a irmã. Há algum tempo elas ludibriavam o horário das nove da noite, estipulado pelo pai, de entrar em casa e se recolherem. Pouco depois das dez, quando a noite encobria com o silêncio aquela casa austera, as meninas destrancavam a taramela da janela e pulavam de volta para a praça.

Naquele sábado chovia como se o céu se desprendesse. Quando Alice entrou esbaforida, encharcando o chão do quarto, repetindo “igualzinho aquele ator de cinema”, a irmã pensou em chamar a mãe para detectar febre na filha. Dedos benignos de mãe, bastava um toque na testa e, pouco depois, compressas de água refrescavam.

Alice juntou a irmã pelas mãos e, quase sem perceber, as duas estavam no passeio da rua, a chuva caindo pesada nos cabelos, nos ombros. “Corre, senão ele vai embora. Olha lá, olha lá…”

Do outro lado da rua, debaixo da pequena marquise de uma das entradas da igreja, um rapaz se escondia da chuva. Apesar do cedo da hora para sábado à noite, a praça estava deserta. A irmã forçou a vista: o estranho vestia um sobretudo cinza, caindo até abaixo dos joelhos. Uma das mãos estava no bolso, a outra, pendente ao longo do corpo, deixava ver brasa entre os dedos. Ela acompanhou o estranho erguer o cigarro até os lábios. A luz fraca do poste impedia que as meninas vissem os traços do rosto. No breve instante em que o cigarro tocou os lábios e a brasa refletiu com um pouco mais de intensidade, o clarão de um relâmpago iluminou a noite, ajudando as meninas a vislumbrarem um rosto moço, moreno, o chapéu escuro encobrindo a cabeça.

“É ou não é igualzinho… o moço que falou tanto coisa bonita no aeroporto.”

Quando viu as irmãs, o estranho tirou lentamente o cigarro dos lábios, soltou uma longa baforada e arredou pé de debaixo da marquise, sentindo a água da chuva bater com força na aba do chapéu. Deixou o cigarro cair no chão e, agora com as duas mãos nos bolsos, atravessou lentamente a rua, provocando sobressaltos nos seios da adolescente Alice, como naquelas noites em frente à tela grande do cinema.

Cartaz de filme

Eram os primeiros anos da década perdida. Eu saía do emprego na Rua Rio de Janeiro e caminhava pelo centro da cidade até o ponto de ônibus. O centro ainda não tinha todo esse emaranhado de pernas e carros, mas as pessoas já iam para casa com ansiedade. Na Avenida Paraná, trabalhadores, donas de casa, adolescentes se amontovam no final da tarde debaixo das placas azuis: 1505 – 1504 – 1503. Números marcando o destino.

Quando o ônibus parava, pouco importava sexo ou fragilidade, a pequena multidão disputava a porta do ônibus. O coletivo demorava a arrancar, o motorista insistia em fechar a porta travada pelos passageiros, a vontade de chegar em casa se sobrepondo ao instinto de sobrevivência. Quando a porta fechava, sobrava nos rostos das pessoas a sensação de vitória e desalento. Vitória pelo embarque; desalento pelos cerca de 30, 40 minutos que passariam espremidos, com a sensação de sardinha em lata, expressão comum na época para designar coletivos em horário de pico.

Várias vezes eu deixava passar um, dois, três ônibus, esperando inutilmente o desafogo da multidão. Passei a adiar minha chegada ao ponto, dando volta pelos cinemas da cidade. Primeiro no Palladium; descia a Goytacazes até o Metrópole; dali pela Afonso Pena, parava no Acaiaca; subia a Tupis com destino ao Jacques; passava em frente ao Tamoios; gastando tempo no fascinante hábito de olhar cartazes de filmes.

Eu ficava alguns momentos parado no saguão de entrada de cada cinema, olhando as fotos dos cartazes, nomes de atores, atrizes, diretor. Às vezes, anotava a data de estreia à lápis num pequeno bloco. Outras vezes, apenas antecipava na mente o filme, especulando, a partir do gênero, personagens, tramas, desfechos. Bons tempos. Ainda não existia a Internet com trailers, resenhas, críticas e tudo que infesta a rede nessa poderosa estratégia de marketing, acabando com o glamour e a surpresa do cartaz do filme.

Em um início dessas noites, a cidade se mostrou mais confusa, as pessoas mais ansiosas, o coração me pesou, o futuro pareceu incerto. Parei na porta do Cine Palladium. Em cartaz: Blade Runner – O Caçador de Andróides, de Ridley Scott.

Comprei ingresso e entrei, sessão quase vazia. Cerca de duas horas depois, quando os créditos começaram a subir pela tela, continuei sentado. As poucas pessoas apressadas tomaram seu rumo. Esperei os nomes sumirem na tela, a música cessar.

Não me levantei. Aos poucos, foi entrando gente para a próxima sessão. O filme começou novamente. Pensei, posso ficar, mais à noite os ônibus passam vazios. Pensei, posso ficar dentro do cinema um pouco mais.