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  • O mensageiro do diabo

    O mensageiro do diabo (The night of the hunter, EUA, 1955), de Charles Laughton. 

    As crianças John Harper e Pearl Harper estão no quarto à noite, iluminadas apenas pela luz que entra pela janela e deixa suas marcas na parede. Pearl pede ao irmão que conte uma história. John começa a contar a história de um rei enquanto olha para a parede, as sombras da janela e de folhas da árvore demarcando a fotografia expressionista. De repente, a sombra de um homem com chapéu compõe as imagens da janela que jogam suas sombras dentro do quarto. 

    John chega até a janela e vê Harry Powell (Robert Mitchum) parado perto da cerca da rua, embaixo de um poste de luz. Harry caminha lentamente e sai de cena. John se deita ao lado de Pearl e diz: “Não se preocupe, é apenas um homem.”

    Esse homem se passa por reverendo para conquistar jovens mulheres, geralmente viúvas, para ficar com o dinheiro que herdaram. O fim das mulheres remete à clássica história do Barba Azul. Harry cumpriu pena com o pai das crianças e descobriu que, depois de roubar um banco, ele escondeu o dinheiro na propriedade. O plano de Harry agora é conquistar Willa Harper (Shelley Winters) e se apossar do dinheiro. Somente John sabe onde o pai, que morreu na prisão, escondeu o fruto do assalto. 

    O mensageiro do diabo é o único filme dirigido pelo lendário ator Charles Laughton. Um clássico do cinema noir, com fortes referências expressionistas que tomam conta de toda a narrativa, resultado do trabalho primoroso do diretor de fotografia Stanley Cortez. 

    Harry conquista não só a mãe das crianças, mas toda a comunidade, que passa a adorar seu fervor religioso, seu carisma e simpatia. As cenas diurnas, passadas em comunhão entre os moradores à beira do rio, nas ruas da cidade, nos estabelecimentos comerciais, é tomada pela luz natural do dia, representando a harmonia, a amizade e o romance que se inicia. Ao escurecer, o terror expressionista se anuncia nas sombras e na transformação do pastor no verdadeiro demônio. 

    “Mitchum interpreta aqui um vilão comprometido com seu ofício, fazendo hora-extra como serial killer de mulheres liberadas, mas sexualmente obcecado pelo dinheiro, do qual acredita precisar para custear sua cruzada sangrenta. A fuga noturno rio abaixo, com sua fotografia monocromática expressionista, é uma sequência mágica, com closes de uma estranha fauna e flora pantanosa.”

    A segunda parte do filme, quando Harry mata a esposa e as crianças fogem descendo de barco o rio, transforma a película em um thriller, colocando duas ingênuas crianças na mira de um psicopata assassino. A entrada em cena de outra lenda do cinema, Lillian Gish, que interpreta Rachel Cooper, idosa que usa sua casa para abrigar crianças órfãs, provoca o embate entre o bem e o mal, Rachel x Harry, em ações repletas de tensão, com sugestões, inclusive, de pedofilia, ousadia de Charles Laugton para a época. 

    Outra cena ousada, que levantou polêmicas, aconteceu quando Harry está na plateia de um teatro, assistindo a uma performance erótica de uma dançarina. Ele tem no bolso dianteiro da calça a sua faca que dispara como um canivete. Em determinado momento do show, o mecanismo da faca aciona a lâmina. A imagem a seguir é a lâmina da faca que levantou e rasgou a calça de Harry, claramente simulando a ereção.  

    A cena mais impactante do filme é um exercício de terror gótico. Harry mata a mãe das crianças quando ela está deitada na cama, os braços cruzados como a esperar o ato final. Harry, em pé, olha para o teto com o braço disposto como em uma oração divina. Ele se debruça sobre a mulher e levanta novamente o braço, agora com o canivete na mão. Corta para folhagens esvoaçando debaixo d ‘água, como se fossem longos cabelos. Em segundo plano, aparece o corpo de Rachel, os cabelos também esvoaçando, o volante do carro à frente. Um gancho de uma linha de pesca se prende no retrovisor, a câmera sobe lentamente e mostra o reflexo de um barco na superfície do rio. 

    “Além de um bálsamo aos ouvidos, O mensageiro do Diabo é também um colírio para os olhos, pois apresenta o que talvez seja o melhor uso do preto e branco em alto contraste da história do cinema. Sua fotografia barroca, assinada por Stanley Cortez, que também colaborou com Orson Welles em Soberba (1942) explora no limite da perfeição as sombras e ângulos do expressionismo alemão, de onde o corpo lânguido de Robert Mitchum acaba por mimetizar movimentos afetados, assinalando a tendência ao fantástico em detrimento do realismo que marca toda a projeção. Cortez chegou a afirmar que Welles e Laughton foram os únicos diretores com quem colaborou que sabiam exatamente como utilizar a luz nas filmagens.” Vinicius Lins

    Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper). Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Tio Birdie), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper). 

    Referências: 

    100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 

    O mensageiro do diabo. Livreto do blu-ray da Versátil Home Vídeo.