Categoria: Crônica

  • O bosque das ilusões perdidas

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    Quando Luiz Augusto desceu para o escritório, às três horas da madrugada, a casa estava silenciosa, livre da agitada reunião à mesa, cerca de seis horas atrás. Os filhos vieram de visita naquele final de semana. Durante o jantar, os netos corriam em volta da mesa, gritando, trombando uns com os outros, diante dos olhares condescendentes dos pais. A cada grito, Luis Augusto tremia por dentro em uma série de impropérios silenciosos. Respirava e voltava para o prato de massas e o copo de vinho.

    Luiz Augusto cresceu em uma família de oito irmãos, numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. A família morava em casa de três quartos, os filhos amontoados nos cômodos, a balbúrdia tomando conta da casa até quase meia-noite. Quando todos dormiam, Luiz Augusto abria os olhos e aproveitava o silêncio da noite. Caminhava até o canto da cozinha, atrás da enorme dispensa de madeira, acendia a vela e abria o livro.

    O menino descobrira os livros influenciado pelo tio metido a escritor que o levava à biblioteca e, antes de emprestar um exemplar, discorria sobre as histórias. O Capitão Ahab em sua luta contra a baleia branca. Luis Augusto não entendia o que fazia um homem vagar pelos mares à procura de um peixe. “Baleia é mamífero.” – corrigia o tio. “Bem, se vive no mar, deve ser peixe. E o Capitão é um idiota em perder seu tempo olhando para o mar durante dias e dias à espera de Moby Dick. Afinal, já tinha perdido a perna…” – refletia o jovem leitor.

    De quem Luiz Augusto gostava mesmo era de Sancho Pança. Lendo as histórias do desventurado Quixote e seu fiel criado, o menino gargalhava sem parar. Foi desvendando moinhos de vento que Luiz Augusto descobriu que letras são as verdadeiras asas da imaginação. Pegou gosto e nunca mais largou dos livros.

    No final da adolescência, se mudou para a capital. Na faculdade de direito, lia tudo o exigido e muito mais. Filosofia, sociologia, compêndios legais, história, literatura, poesia. Sozinho, no quarto da pensão onde morava, no centro de Belo Horizonte, devorava todos os livros que precisava para sua formação acadêmica. Terminava a noite com um clássico da literatura jogado no peito, vencido pelo cansaço. Zola, Balzac, Tolstói, Dostoievski, Dickens, Flaubert, Proust, todos passavam pela sua cabeceira e depois eram devolvidos à biblioteca.

    Luiz Augusto se formou primeiro da classe. O esforço rendeu ao advogado brilhante carreira na área criminalista. Trabalhava entre doze e quatorze horas por dia, acumulou considerável fortuna com os casos famosos que defendeu, se casou com a filha de um médico famoso.

    A carreira cobrou um preço caro: júris abarrotados de gente, profusão de microfones nas saídas dos tribunais, salões apinhados de signatários da alta sociedade se empanturrando de conversa fiada, vinho e quitutes. A cada tormento diário, o advogado só pensava em chegar em casa, se trancar no seu escritório, acender a luz do abajur da mesa, abrir um romance e se deixar, à meia-luz, em seu frágil momento de solidão.

    Vieram os filhos, quatro, com eles a algazarra, a irritante necessidade de gritar enquanto correm no quintal, ao redor de mesa ou em qualquer outro cômodo da casa, até mesmo no escritório do pai. Luis Augusto já não podia mais trancar a porta, pois vez por outra bateria uma bola, uma boneca, um pedaço de pau, a cabeça de um dos filhos arremessada pelo irmão, e, pior de tudo, os punhos da mulher exigindo que o pai tomasse uma atitude contra aqueles delinquentes infantis. O jeito então foi passar a ler de madrugada. Acordava às três horas e caminhava na surdina para seu escritório.

    O custo novamente foi alto: um enfarte aos 55 anos. Como não podia diminuir o trabalho e as altas rodas da sociedade, que, no caso, estão relacionados, eliminou o restante que preenchia sua vida. O escritório passou a ficar fechado por fora.

    Até que um dia, visitando um cliente em um condomínio na Serra do Cipó, se encantou pela solidão da vista das montanhas. O advogado tinha 60 anos quando comprou a casa na Serra, escondido de todos, até mesmo da mulher. Adotou a casa como seu refúgio. Durante um dia no meio da semana, acordava cedo e dirigia por quase cem quilômetros até sua casa na montanha. Passava o dia entre seus livros.

    Quando se aposentou, saiu de casa na madrugada de segunda-feira. Deixou bilhete de despedida para a mulher. Na subida da serra, em uma das curvas da estrada, parou o carro, desceu para olhar a vista. O sol amarelo nascia atrás das montanhas. Nuvens esparsas recortavam o céu. Teve um desejo repentino de explodir a estrada, fechar a passagem do desfiladeiro, se houvesse. Diante da impossibilidade, se sentou à sombra da árvore e abriu o livro. O dia já ia pelo meio quando Luiz Augusto terminou de ler O bosque das ilusões perdidas.

  • Beijo de cinema

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    A aula terminou mais cedo naquela noite. Bastou um estrondo para tudo se apagar no Estadual Central. Ficamos sentados alguns minutos, meio assustados com a luz noir de um e outro relâmpago que entrava pelas janelas. Não precisamos esperar o aviso de suspensão das aulas para esvaziar as salas, já eram quase dez horas da noite, momento em que os alunos já começavam a sair. 

    A gente descia toda noite pela Rua São Paulo até o centro. Em turma, cansados, adolescentes que passavam o dia no trabalho e à noite em bancos de escola, mas descontraídos pelo ar fresco e sensação de liberdade da noite. Alguns mais afoitos, entre brincadeiras e gritos, outros taciturnos, todos irmanados pela idade descompromissada.  

    Perguntei a Isa se ela queria pegar ônibus, pingos de chuva já batiam no chão, invadindo a noite de verão. Ela olhou por alguns segundos para o alto, seus olhos cor de natureza selvagem como a perseguir aventuras. “Quero descer a pé” e sem mesmo olhar para mim ou me esperar, entrou na chuva. 

    Caminhamos lado a lado, sentindo a roupa se encharcar, aquela sensação de peso que começa nos ombros e desce, tornando a calça jeans quase insustentável. Durou pouco essa sensação. Tantos anos depois, pensando nesta noite, creio que Isa já contagiava com sua leveza. Ela passou quase a  deslizar pela chuva já densa, deixando a água bater nos cabelos, no rosto, escorrer pelo corpo, penetrar em sua pele. Isa levantava o rosto e, de olhos fechados, sentia, sentia…, não sei como descrever, minha memória de cinema apenas gravou a cena de seu rosto jovem e belo se entregando como se nada mais houvesse ali. 

    Para completar a ousadia, ela, já com os tênis na mão, pisava em poças, acompanhava a enxurrada que descia veloz.  A meninada atrás, tentando inutilmente se proteger com sombrinhas e guarda-chuvas, olhava deslumbrada, alguns gritavam “sua louca”, mas Isa sabia, louco é quem me diz. 

    Quanto a mim, que vivia já naquela época muito através dos livros e filmes, tentava acompanhá-la, mas queria mesmo era registrar cada imagem: dos pingos refletidos nas luzes dos postes, das poças d’águas pisoteadas pelos pés descalços que prendiam meu olhar em pleno fetiche, da blusa branca e agora transparente colada em seus seios, dos seus cabelos encharcados sem dó – a chuva não poupava nem a ela nem a mim, conspirava, sugeria, implorava por impulsos. 

    Foi em um destes momentos. Isa parou no cruzamento da Avenida Álvares Cabral e levantou novamente o rosto, de olhos fechados. Foi quando sentiu meus lábios. Abriu por um relance os olhos e se entregou àquele beijo molhado, os lábios deslizando ao sabor da água, as línguas se misturando suavemente, pouco a pouco mais e mais atrevidas. Corpos molhados que se buscavam, se apertavam, às vezes relaxavam, mas incontidos se apertavam quase em um sufoco. 

    Talvez seja minha imaginação, afinal o dia amanheceu chuvoso e, ontem, assisti à Depois do vendaval, filme passado na úmida Irlanda, com um beijo arrebatador na chuva. John Wayne e Maureen O’Hara tentam se esconder da chuva repentina debaixo de um arco de concreto, no cemitério da cidade. Ela olha assustada os relâmpagos, seus cabelos ruivos já respingados pela chuva. John Wayne tira o paletó e encobre os ombros dela. Ele não se importa com a chuva, deixa a água cair pelo seu rosto, encharcar sua camisa branca. Assustada com um relâmpago mais forte, Maureen O’Hara se protege no peito dele. Completamente encharcados, os dois se olham com ternura e se beijam. Um beijo rápido, como a época impunha, mas nem mesmo o rígido Código Hays que determinava idiotices assim nos filmes (tempo limitado de lábios nos lábios) conseguiu impedir o erotismo da cena. 

    Sei que recrio aquela chuva de uma noite de verão influenciado por imagens assim,  com meus olhos em um passado distante, confuso e traiçoeiro, são assim as memórias. Não importa, quando penso no meu beijo de cinema, meus lábios sentem a doçura selvagem daqueles lábios molhados. Os lábios de Isa.