Conversa de adultos

Gabriela saiu da piscina e sentou-se no chão, de frente para a mãe.

– Você está triste, mãe. – a mãe tirou os óculos escuros.

– Por que você diz isso?

– Dá para notar. Não precisa nem prestar muita atenção.

– Deve ser o dia. Domingo costuma ser monótono, sem nada para fazer, todo final de semana neste sítio. A mesma vista, as mesmas pessoas, tanta gente aqui sem ter o que fazer, com vontade de fazer coisas que não pode. Acho que estou um pouco cheia, só isso.  – ela surpreendeu-se de desabafar com a filha assim.

– Não estou falando só de hoje. Estou falando de todos os dias. – a mãe ficou alguns segundos sem saber, levantou-se, caminhou até perto da grade do deck. O sol começava a se aproximar da montanha, batendo quase de frente em seus olhos, derramando uma luz clara na paisagem verde, deixando árvores, matas e caminhos com uma cor estourada, quase indistinguível.  Debruçou-se na sacada e ouviu a voz de Gabriela, bem perto de seu ouvido. Voz baixa, tranqüila e segura, como se falasse de um segredo, mas sem medo de revelar segredos.

– Papai já sabe que você está apaixonada por outro homem?

– Enlouqueceu, menina.

– Deixa disso, mãe. Escutei você no telefone outro dia. – ela pensou em negar, um jeito de virar o jogo. Olhou por alguns segundos para a filha, ela permanecia tranquila, os olhos esperando. – E então. Papai já sabe?

– Não. Acho que ele não percebeu nada. Ele fica dia e noite no trabalho, eu também, a gente nem tem tempo para desconfiar dessas coisas. – não sentiu medo nem pesar por ter se revelado tão naturalmente para a filha, apenas surpresa consigo mesma. Pegou-a pela mão e levou-a de volta para as cadeiras ao lado da piscina. Por fim, sentou-se e afundou a cabeça entre os joelhos, como se desse conta do que acontecera. Sentiu a mão de Gabriela em seus cabelos. Levantou o rosto.  – Coisa feia, escutar conversa dos outros.

– Eu sei. Desculpa mãe, foi sem querer. É sério? vocês estão juntos há muito tempo? ouvi você dizer te amo.

– É. É sério. Acho que pela primeira vez na vida estou amando de verdade. Não que eu não tenha amado seu pai. É um amor diferente, com paixão. Como se, como se…. ah, não sei.

– E você quer ficar com ele.

– Quero. É a coisa que eu mais quero na vida.

– Porque você não conversa com o papai. Talvez ele entenda. – a mãe olhou com carinho a filha, os cabelos loiros, olhos azuis, “Deus, como ela cresceu”.

– Não posso. Nós temos você, eu não posso fazer isso com você.

– Pera aí, mãe. Eu não tenho nada a ver com isso. É uma história entre você, papai e o seu …. o seu….o seu namorado.

– Mas Gabriela, você não entende.

– Acho que quem não está entendendo é você. Daqui a pouco eu saio de casa, vou viver a minha vida e você vai ficar aqui. Você e o papai. Pelo jeito, infelizes.

– Não é tão simples ….

– Na verdade é simples. Você não ama o papai. Acho que o papai também não ama você mais. Ficam aí, apegados a essas coisas materiais, dizendo com orgulho de tudo que construíram juntos. Agora você está apaixonada, está tendo um caso. Se fosse um caso passageiro, vá lá. Mas não. Parece que não. Você acabou de dizer que quer ficar com ele mais do que tudo na vida. Está triste, deprimida, sofrendo. E diz que vai sacrificar a sua vida por mim. Eu não peço isto. Filho nenhum pede isto. Vocês é que decidem assim. Vivem dizendo, “vocês são a minha vida”, e tem aquela conversa fiada, aquela chantagem barata: “dediquei a minha vida por você, fiquei noites sem dormir, deixei de fazer tudo que queria”. Não vem com essa que eu não quero carregar este peso. Se você sacrificar alguma coisa é problema seu. Convenhamos, né mãe. Vocês complicam tanto a vida.

– Mas eu vou separar você e seu pai ….

– Ah, não vai. Mas não vai mesmo. Eu adoro o papai. Vou continuar convivendo com ele. Eu tenho amigos de pais separados, você sabe. Eles vivem do mesmo jeito. Ninguém morre, ninguém mata. Uns carregam lá os seus problemas, mas… os pais tão aí, cuidando da vida, dos filhos, trabalhando, vivendo. Acho que vai ser até legal ter duas casas, conhecer seu namorado, a namorada do papai. É a vida, mãe.

Um estremecimento tomou conta do corpo de Gabriela. Ela encolheu os braços. O sol acabara de se esconder atrás da montanha.

– Você vai se resfriar minha filha. Vem cá, deixa eu enxugar você. – ela pegou a toalha e envolveu-a toda, passando a toalha pelos cabelos molhados da filha. – Tem certeza que você vai ficar bem?

– Mãe, eu já estou crescidinha. Por falar nisto. Mês que vem é meu aniversário. Já comprou o meu presente?

– Não sei, o que você quer?

– Humm. Tava pensando numa mobilete.

– Mobilete?

– É. Aquela moto pequena que o Arthurzinho tem.

– Ah, não. É muito perigoso. Você ainda não tem idade.

– Mãe. Eu já vou fazer doze anos. Dá para deixar esse negócio de menininha de lado?

Cortejo de amigos

Foi a madrugada mais fria do ano. Perto de 15 graus, edredons e cobertores saíram dos armários. A cama ficou mais aconchegante pela manhã. Cai uma chuva fina, o tempo incerto entre o outono e o inverno.

Gosto de lentidão pela manhã. Tomar banho quente pensando em coisas por fazer, outras já feitas. Nos meus tempos de agência de propaganda, gastava água e conta de luz em busca de ideias debaixo do chuveiro – cantores de terceira, poetas e redatores publicitários são ameaça ecológica. É bom preparar o café, me sentar à mesa com a xícara fumegante, sem pressa, tomando goles folheando uma revista, o jornal do dia. Às vezes, essa lentidão da manhã fria traz lembranças.

No rádio toca O rancho da goiabada, de Aldir Blanc e João Bosco. Pela segunda vez, presto atenção quase religiosa nesta música. A primeira foi no final da década de 70, no enterro de Zé Carlos, amigo de infância.

Ele morreu afogado em Guarapari, antes de completar 20 anos. As lembranças dele são esparsas: moreno, pequeno bigode teimando em não crescer, cabelos curtos, gosto refinado por samba. Era daqueles que puxavam a canção em rodas de violão, de bem com a vida, a voz desafinada sobressaindo.

Nossa turma ia chegando aos poucos no começo da noite, saindo do trabalho, da escola.  O ponto era o bar da rua, mesas na calçada. As conversas, comuns: futebol, estudos, trabalho, política, até a bebida começar os efeitos e alguém aparecer com o violão. Zé Carlos sempre dava jeito de puxar a música do João Bosco e Aldir Blanc. Ele começava cantando baixinho, acompanhando o ritmo do violão, olhos baixos, bebericando a cerveja nos intervalos, esperando a hora para soltar a voz: “e a sobremesa é goiabada cascão, com muito queijo depois café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor ou DAGMAR….” Pelo tom de voz, a alegria represada, quase um grito, fiquei com a impressão de alguma Dagmar na vida do amigo. Talvez mulher casada, sonho de muito adolescente.

No enterro de Zé Carlos, enquanto acompanhamos o caixão pelas alamedas do cemitério, uma voz tímida começou a cantar O rancho da goiabada. Os amigos foram aderindo até se transformar em coro alto, triste, ecoando no vazio do Cemitério da Colina.

A música e o cortejo ficaram gravados na minha memória. Indissociáveis. A primeira lembrança triste da adolescência, como uma despedida daqueles dias felizes.

Hoje, nessa manhã fria de outono, acho a música mais bonita. Aumento um pouco o rádio, presto atenção, guardo trechos da letra na bela interpretação do Quarteto em Cy. Acabo de tomar o café, me preparo para sair, penso no trabalho que tenho pela frente. Aos poucos esqueço a música, me concentro em coisas mais presentes. Como tantas e tantas lembranças, O rancho da goiabada está guardada em uma pequena rua de bairro.

Algum lugar do passado

Venha ver a vista do final de tarde. Os carros cruzam as ruas, alguns com faróis acesos, outros insistem na última luz do dia. Bando de pássaros voa em sincronia logo abaixo da janela.

Lembro-me de nossa vista do quarto de hotel. O calor daquelas tardes de abril nos deixava sonolentos, entregues ao prazer do ar condicionado, da cama despretensiosa, do roçar de pernas sem desejo. O cheiro gostoso do seu corpo recendendo a sol. Entregues à tarde, ao nada, à sensação de nos deixarmos. No final da tarde, sentados na varanda do quarto, o sol escondido atrás do hotel refletia uma luz morna nas águas do mar, a maré alta batendo no arrimo de concreto, quase ao alcance dos nossos pés. Nossos olhos entregues.

Os pássaros não voam mais. Devem estar no ninho. Existem três grandes árvores frondosas no lote vizinho. Decerto estão ali, penas encolhidas, asas protegendo o corpo como um abraço próprio, se preparando para a noite longa, incerta.

Você gosta de caminhar entre árvores no final da tarde. Entre pés de fruta. Entre roseiras. Os pés com vontade de pisar descalços na grama, mas receosos de pequenas picadas. Às vezes, você estica um pouco o pescoço, chega o nariz perto dos ramos da vegetação. Dama da noite. Tardes no sítio. O pai acorda da sesta. As mãos cruzadas nas costas, anda calmo pelo quintal, a vistoriar laranjas, mangas, flores de jabuticabeiras, folhas de alface na horta. Os cachorros andam ao lado, despencam em uma correria por nada. É hora de dar milho às galinhas. Ele conversa com elas, a cada uma um nome.

Depois, bem à tardinha, o sol se escondendo no morro, ele pega o equipamento de matar formigas. Vai caçar a praga que destrói folhas, flores, devorando num ritmo eterno o trabalho do dia. Você vai atrás, indica a entrada dos formigueiros. O pai coloca o tubo no buraco, bombeia formicida dentro. Mais à frente, outro buraco, mais outro, a noite derrama sua luz fraca. Os olhos do pai desistem da busca, já não enxergam. Talvez uma lanterna, você sugere. Vamos deixar para amanhã, tenho todo o tempo, as formigas também. Diz o pai e senta-se ao meu lado na varanda. A mãe já está sentada, esperando a novela das seis. Entre uma conversa e outra, entre um silêncio e outro, a noite chega com o misterioso som dos noturnos. A mãe repete a frase de todos os dias, é tão gostoso dormir com o barulho dos sapos, acordar com o galo cantando. Os olhos descansam em um ponto qualquer da escuridão.

Todos os carros já estão com faróis acesos. Não podem mais com a penumbra, com as sombras da noite que levam meus olhos para algum lugar do passado.

A partilha

Os livros estavam espalhados no chão da sala. O sol anunciava uma clara manhã de domingo, a primavera despejando seus cheiros naquela casa banhada de flores. As flores de minha mãe.

Eu perdera no par ou ímpar e a irmã ganhara a oportunidade de escolher primeiro. Olhei para meu livro favorito, mas desviei os olhos com medo de me trair. Com ar de vencedora, ela escolheu As sandálias do pescador. Respirei aliviado.

– Sua vez. – disse a irmã, olhando para O morro dos ventos uivantes. Peguei o livro.

– Vamos fazer diferente. Eu escolho mais um agora e você escolhe dois depois.

Ela concordou. Peguei rapidamente O bosque das ilusões perdidas. A seguir, ela separou para o seu canto Como era verde meu vale. Sorriu ao notar o meu olhar angustiado.

Quando começamos a trabalhar, ainda adolescentes, fizemos um pacto, cada um compraria um livro por mês, formando uma biblioteca única. Era a forma de valorizar nosso pouco salário para fazer aquilo de que gostamos tanto: ler. Dependendo do mês, dava para comprar mais de dois livros. Combinamos, “quando um de nós sair de casa, dividimos a biblioteca”.

Ela pegou o segundo livro, O caso dos dez negrinhos. Terminada a divisão, a irmã me ajudou a empacotar os livros. Descobrimos que não eram tantos assim, pouco mais de uma dúzia foi o que me coube na partilha.

Dias depois, ao arrumar os livros em minha nova casa, no fundo da caixa encontrei Como era verde meu vale. Foi o primeiro livro que coloquei na estante, a lombada verde soltando a cola, revelando o uso descuidado de jovens leitores. Um a um os livros foram encontrando seu lugar no canto do móvel. E até hoje, tantos anos, tantas mudanças depois, o verdadeiro lugar destes livros é na casa dos meus pais, na casa dos meus irmãos.

Entre parafusos e engrenagens

O motorista do guincho abriu o capô do carro, mexeu em pontos incompreensíveis para mim e deu aquele suspiro de entendido.

– É o cabo. Tá solto, coisa simples…  acho que não precisa rebocar, é só apertar, assim…. apertar bem…. vamos ver se pega, vai lá, liga o carro.

– O carburador tá sujo. Carros de dupla carburação são mais complicados. Tem que andar tudo reguladinho, tem que tá sempre conferindo, desregula um, depois o outro. – debruçado no motor, o pai levantava a cabeça de vez em quando para explicar. As mãos sujas de óleo, o suor escorrendo pelo rosto.

Eu podia ouvir a conversa dos meninos na rua. Era início de noite, depois do jantar iam chegando aos poucos, a aglomeração acontecia sempre na porta de minha casa. A rampa da garagem era um bom lugar para sentar, a casa ficava no centro do quarteirão, local estratégico.

– Liga o carro, vai lá, vamos ver se aprende. – o pai me ajudou a sentar no banco, meus pés quase não chegavam aos pedais.

– Senta mais na beirada… isso. Agora vira a chave devagar até ouvir o barulho da ignição, assim, assim…. não, solta, solta a chave. – olhei assustado para o pai, certo de ter feito alguma coisa errada. Ele passou a mão na minha cabeça.

– De novo, quando você ouvir o barulho do motor dá uma pequena acelerada, com calma, é fácil, tá vendo? é simples. – ouvi maravilhado o carro funcionando. O pai deixou que eu ficasse um tempo, com a ponta dos pés apertei o acelerador, o barulho aumentou, aumentou, invadiu a garagem.

– Agora vem cá, deixa o carro ligado. – voltamos para a traseira do carro, o motor trepidando. – Tá vendo aqui, olha só, você mexe e o carro acelera. Como são dois carburadores… . – ele continuava a explicar, esquecido do tempo. Quando seu rosto quase sumia perto do motor, meus olhos se desviavam para o portão da garagem. Meus ouvidos divididos entre o barulho do motor e a algazarra dos meninos.

– Tá vendo este cabo?, ele costuma soltar, se algum dia o carro morrer com você na rua, dá uma olhada, costuma ser muito simples, só apertar um pouco, pega aquela chave pra mim.  – ele esperou alguns segundo, percebeu que eu não tinha ouvido, descobriu meus olhos na rua. O pai limpou as mãos em um pedaço de estopa, passou um pano pelo suor do rosto. Abriu o portão da garagem e fez um gesto com as mãos.

Saí para a rua, o ar livre da noite, os meninos já organizados para brincadeiras. O pai ficou um tempo parado, sorriso nos lábios, depois fechou o portão e voltou para seu motor, sozinho, perdido entre ferramentas, parafusos e engrenagens.

Sentado no banco, ouvi o barulho do motor funcionando. Apertei o acelerador devagar, depois um pouco mais fundo, mais fundo, o barulho aumentando. O motorista do guincho levantou a cabeça e fez um gesto como quem diz, já está bom. Ele fechou o capô do carro. Passava da meia-noite, o celular tocou, minha mulher perguntando se já resolvera.

– Já. Coisa simples, só um cabo que soltou.

Voo noturno

O avião passou em frente a parede de vidro do bar do hotel, em direção a pista de pouso. Era o terceiro avião que Fábio seguia com o olhar, as luzes indicando a aproximação desses fascinantes voos noturnos. Agradeceu ao garçom o copo de uísque, deixou os olhos no reflexo do vidro, agora encontrando a escuridão.

Nas diversas vezes em que viera a Zurique, nunca encontrara tempo para se sentar em uma das mesas do bar, perto da janela de onde se vê o aeroporto. Lembrou-se dos tempos de menino. O tio morava próximo ao aeroporto da Pampulha. Quando a família de Fábio visitava o tio, o menino rapidamente dava um jeito de fugir daquelas conversas de sofá, atravessava a rua, empilhava cinco ou seis tijolos ao lado do muro do aeroporto e esperava, pescoço pouco acima do muro, um avião pousar. Se fosse corajoso, colocaria mais alguns tijolos na pilha, com um pequeno esforço conseguiria subir e sentar-se no alto do muro, as pernas caídas do lado de dentro enquanto os aviões desfilavam em frente, a pista ao alcance de algumas poucas passadas.

Mas Fábio era menino medroso. Imaginava um guarda gordo, grosso bigode cobrindo a boca, o cassetete pendurado no cinto chegando quase até o chão, quepe enterrado na cabeça. O guarda chegava debaixo do muro, agarrava suas pernas e o puxava para o lado de dentro, jogando-o ao chão. Deitado na terra, ele sentia o pé do guarda em seu peito, o cassetete batendo de leve na sua face, o brilho sádico no olhar do policial.

Fábio girava o copo de uísque, o líquido dando voltas nas laterais. Depois de tantos anos, tantos voos, não sabia bem porque estava agora olhando de novo aviões a pousar. Olhou o relógio, ainda tinha cerca de uma hora antes de sair para o aeroporto.

Adriana chegou cheirando a banho, os longos cabelos molhados, o tom fresco do ar da noite estampado em suas faces. Deixou a chave do quarto em cima da mesa. Outro avião cortou o silêncio que se interpôs naquela troca de olhares. “Você não pode ficar mais um ou dois dias?”, ela  perguntou.

Eles se conheceram três dias atrás. Adriana estava sentada na amurada às margens do rio, um livro nas pernas, o corpo ligeiramente curvado, uma jaqueta jeans a protegendo do vento da tarde. Às vezes ela ajeitava os cabelos atrás da orelha, tentando evitar que eles atrapalhassem sua leitura.

Já fazia cerca de cinco minutos que Fábio a observava – uma quase menina perto dele, sentado no banco do jardim poucos metros adiante. Adriana levantou os olhos na direção de Fábio e deixou-os assim, um flerte longo, curioso, como se olhasse para um rosto há muito tempo querido. Ela levantou-se, caminhou em direção ao estranho que a encarava tão sem cerimônia e ao mesmo tempo tão meigo, sentou-se a seu lado no banco, deitou o rosto no ombro de Fábio e continuou a leitura.

“Não, não posso ficar. Tenho mil coisas para fazer no Brasil, devo voltar em três ou quatro meses, depende dos negócios. Até lá seu curso já acabou. Você vai ficar bem?”, respondeu Fábio, voltando a girar o uísque no copo. “Porque você não fica mais uma noite. Nós voltamos para o quarto…” “Não posso. Tenho negócios a resolver, minha …. Não me olhe assim…”

Fábio tirou os braços de Adriana com calma de seu pescoço. Fazia mais de uma hora que estava acordado, controlando a respiração como se embalasse o sono da jovem deitada em seu dorso. Resolveu se levantar. À medida que deslizava para o lado, substituiu seu corpo pelo travesseiro, pousando a cabeça dela suavemente, sem acordá-la.  Sentou-se na escrivaninha em frente à cama.

A meia luz do quarto era suficiente. Ligou o computador pensando em preencher os relatórios que deveria encaminhar para a empresa. Precisava de uma desculpa para justificar o atraso de um dia, não só na empresa. Enquanto o windows rodava na tela negra do notebook, deixou os olhos no espelho em frente, presos na imagem nua de Adriana na cama. Ela estava de bruços, abraçada com o travesseiro, o corpo resplandecendo de juventude, uma perna ligeiramente dobrada, a outra esticada, a imagem de menina impregnando o quarto de desejo. “Em que você está pensando?” Fábio não havia percebido os olhos semicerrados de Adriana. “Aposto que está pensando em mim, com tesão.”

Ele ficou um longo tempo olhando, percorrendo seu corpo, até que ela pegou novamente no sono, os braços apertados no travesseiro, as costas arfando lentamente. Não. Não pensava em você. Pensava no menino empilhando tijolos até dar conta de esticar o pescoço por cima do muro. Ele desce, pega mais três ou quatro tijolos, consegue apoiar as palmas das mãos no muro e com um pequeno impulso passa uma das pernas, depois outra e, cansado, as mãos um pouco arranhadas, senta-se no alto, as duas pernas para o lado de dentro do muro. O menino espera um bom tempo até um avião apontar no horizonte, refletindo o sol do final de tarde. O avião passa bem em frente a ele, pousando com leveza na pista.

O sol começa a desaparecer, deixando a tarde avermelhada. O menino espera outro avião, talvez apareça um guarda gordo, de grossos bigodes, o longo cassetete pendurado no cinto, e o puxe pelas pernas. Talvez.

Zé do Muro

Bate você…. você.” Demorei um pouco a entender os gritos do técnico no meio da confusão de jogadores cercando o juiz na grande área. Batata já estava com a bola nas mãos, próximo à marca do pênalti. Zé do Muro continuava gritando: “Bate você… você.”, o dedo apontando para mim.

Acredito que nenhum dos jogadores do meu time, todos adolescentes entre 13 e 16 anos, sabia o nome depois de José, mas o bairro inteiro conhecia a origem do apelido. A rotina de Zé do Muro era simples: saía de casa por volta das três da tarde, descia a rua até o bar e bebia, com amigos ou sozinho, até o momento em que o dono do bar começava a baixar as portas. Não é difícil imaginar a dificuldade em andar rua acima após essa longa jornada etílica. Ele andava dez ou quinze passos e apoiava o ombro no muro, esperava um pouco, andava mais alguns passos, encostava-se no muro novamente. Virou Zé do Muro.

Zé do Muro só era visto sóbrio duas vezes por semana: na sexta-feira, dia de treino do time de meninos da rua, e no jogo de domingo. As mãos trêmulas segurando o cigarro, gritando enraivecido por erros fundamentais como passes mal trocados. Depois dos treinos, a gente se sentava, Zé do Muro ao centro, a noite tomando conta do campo. Em cinco minutos de preleção, ele versava sobre preceitos que, ensinava, todos deveriam respeitar no futebol. Nunca chute a bola com o bico da chuteira; dribles só têm sentido na direção do gol, o resto é firula, provocação; não existe idiotice maior do que cruzar a bola da intermediária para a grande área, pois os zagueiros estão sempre de frente…

Eram 40 minutos do segundo tempo. O placar, 3 x 2 para o time adversário. Decisão do torneio Bola de Ouro, patrocinado pelo Bar do Careca. O empate levaria o jogo para a prorrogação. Batata já com a bola debaixo do braço. Zé do Muro continuou gritando até deixar claro a ordem: eu fizera os dois gols do meu time e deveria bater o pênalti. Peguei a bola das mãos de Batata.

O morro atrás do gol estava cheio de torcedores: pais, mães, irmãos, parentes, vizinhos – manhãs de domingo de futebol. Respirei fundo, olhar fixo nos olhos do goleiro. Corri e um segundo antes desviei os olhos para a bola.

Naquela noite, caminhei sozinho pelo bairro. Andei por cerca de uma hora, as ruas quase desertas, passando pelos prédios que se erguiam na explosão imobiliária vertical daqueles anos 70. Ao voltar, quando virei a esquina da minha rua, vi um vulto encostado no muro a poucos metros de distância. Decidi atravessar para o outro lado, pensei, no estado em que está ele não vai me ver. Mas Zé do Muro começou a andar em passos acelerados, firmes, em poucos segundos estava na minha frente. Ele despenteou meus cabelos com a mão, sua voz soou clara e forte: “Da próxima vez, olhe firme nos olhos do goleiro.”

A seguir, voltou a caminhar. Quando abri o portão da minha casa, olhei para trás. Quase no fim da rua, iluminado pela luz do poste, Zé encostado no muro. Ele andou mais alguns passos, apoiou o ombro novamente no muro. Assim, de muro em muro até virar a esquina.

A estranha

“É um Primitivo. Italiano. Tem aroma intenso, frutado com toques de ameixa, especiarias e baunilha.” “Eu não entendo nada de vinhos. Gosto, apenas.” Enquanto virava lentamente o líquido na taça de Camila, Fernando pensou em mudar de assunto, disfarçar também sua ignorância sobre o assunto. Acabou revelando. “Eu também não. Foi indicação do vendedor. As características decorei da Internet. Na verdade, entrei pela primeira vez em uma casa de vinhos. Para impressionar você.” Camila sorriu e levou a taça aos lábios. Por um momento, vermelhos se confundiram. Depois, juntou sua boca ácida a de Fernando.

Dois anos antes, Fernando estava sentado em uma pizzaria com a mulher e um grupo de amigos. Ele nem sabia o que fazia ali, ficou calado a maior parte do tempo, o dedo dando voltas na borda do copo de chopp. Às vezes sorria, fazia um comentário qualquer, se voltava para o copo. Despertava com a gargalhada da mulher, alta, estridente. Nos primeiros anos de casado, ele se divertia com esse rir espontâneo. Gostava da risada aberta, sem pudor. Aos poucos, a admiração se transformou em indiferença e, em vários momentos, irritação.

Notou isso pela primeira vez em uma sexta-feira à noite. Assistiam a um DVD, uma leve comédia romântica. Fernando não achou graça no filme, mas sua mulher ria, ria. Uma raiva repentina tomou conta dele, temendo mostrar a irritação, inventou uma desculpa qualquer e saiu da sala. Entrou no chuveiro, deixou a água morna cair sobre o corpo por quase dez minutos. Seus ouvidos ainda escutavam as risadas na sala. Só voltou a assistir ao filme no início da madrugada, quando a mulher já dormia. Deixou o som do home-teather baixo, quase um sussurro. Gostou do filme, surpreendeu-se rindo sozinho na sala.

Sentiu um aperto de mão em sua coxa e levantou os olhos do copo de chopp. Tentou participar da conversa, riu da piada de um dos amigos. A mulher deitou o rosto em seu ombro. Fernando apertou a mão dela, os olhos se desviaram de novo para a mesa em frente.

Ele a vira assim que se sentara à mesa: morena, cabelos pretos cortados rente à orelha, deixando o longo pescoço à mostra. Ela estava sentada com amigas duas mesas adiante. Observando-a melhor, reparou que os cabelos eram pintados. Ela acabara de levar uma taça de vinho aos lábios e o vermelho contrastou com a pele clara. Fernando desviava os olhos, voltava a olhar, a mulher estranha sempre com a taça nos lábios, suas faces ganhando um tom afogueado. Enquanto brincava com o dedo no copo, Fernando passou a imaginar o vinho dançando na boca daquela mulher desconhecida.

A estranha passou a provocá-lo. Ela girava a taça na mão, o vinho circulando no interior. Aproximava a taça do nariz, tomava um gole devagar, olhos fechados. Abria o olhar na direção de Fernando, ficando nele sem pudor até o vinho descer pela garganta. Tudo isso acontecia em poucos e discretos segundos, como se, experiente, ela calculasse o tempo exato para a mulher de Fernando não perceber as insinuações.  Às vezes, a estranha estremecia, um arrepio, como se a brisa de maio que entrava pela janela soubesse exatamente quando atingir aquele pescoço atrevidamente nu: no momento em que o líquido quente e seco passasse pela garganta.

Fernando disse algo no ouvido da esposa e caminhou em direção ao banheiro. Passou pela mesa da estranha e quase sentiu o cheiro de álcool e pele. Saiu do banheiro. Caminhava pelo estreito corredor entre as mesas quando deu de cara com ela. Pararam a poucos centímetros de distância, se olharam apenas o tempo certo para decidir como sairiam daquela situação. Ele se pôs de lado com uma leve reverência.  A estranha entrou no banheiro.

A mulher ria alto dentro do carro, lembrando-se de casos dos amigos. Fernando não se importou com as risadas. Dirigia devagar, concentrado em cada movimento do carro para compensar a irresponsável atitude de dirigir após ter bebido. Em casa, a mulher se livrou rapidamente das roupas e se deitou, dormindo em seguida. No banheiro, Fernando tirou do bolso da calça o guardanapo de papel que a estranha colocara em sua mão naquele breve instante em que ficaram de frente para o outro: Camila.

O mesmo guardanapo que ele segurara durante muitas noites nestes dois anos. Sentado em frente ao computador, passeando pela Internet, ele abria seu pequeno bloco de anotações e tirava o guardanapo de papel. Já nem precisava mais dele, há muito decorara aquele número de celular. Mas acabava por esconder o papel novamente, colocando-o cuidadosamente no meio das páginas, sem amassá-lo.

Camila tomou outro gole do vinho. Ela estava diferente: cabelos ruivos quase chegando nos ombros. Assim que ela passou pela porta, Fernando pensou “talvez nem seja a mesma mulher”. Ele tivera que se explicar no telefone, contar em detalhes o encontro na pizzaria dois anos antes, o impasse na porta do banheiro, o guardanapo de papel. “Ah, sei. Claro, a gente pode se encontrar”.

Fernando passou os dedos entre seus cabelos, tocou de leve a pele do pescoço. Ela encolheu os ombros, pressionando sua mão com a nuca. A garrafa de vinho já estava quase pela metade e ele não sabia ainda o que fazer.

Sabia apenas que estava agora com uma estranha de cabelos ora ruivos ora pretos chamada Camila. Quando abrira a porta do apartamento, não a reconheceu. Ele a lembrava de cabelos curtos, cortados rente às orelhas, deixando à mostra a pele clara do longo pescoço. Durante dois anos, olhando aquele guardanapo de papel, Fernando a imaginou de todas as formas. E agora, buscando com os lábios o pescoço encoberto pelos cabelos, ele sentia um estranho e enjoativo gosto de vinho.

Philip, o gato

Quando criança, nunca dei tiro de chumbinho em gatos. O máximo que fiz, por curiosidade, foi segurar um felino de cabeça para baixo, a três palmos do chão, para ver se caía em pé. Sempre respeitei os bichanos. Adolescente, conheci o Rio de Janeiro. Nunca vou me esquecer do Pão de Açúcar, das argentinas na praia, do gato.

Minha tia morava em Ramos, uma hora de ônibus até as praias de Copacabana e Ipanema. De dia, praia, à noite, por prudência e idade, conversa na porta da rua. Meus primos tinham hábitos suburbanos. Frequentavam a quadra do colégio no sábado, ouviam jogo do Flamengo no domingo á tarde, jogavam baralho até tarde da noite.  E tinham um gato. Gato errante de muros e lamentos. Desaparecia toda noite.

Casa pequena, dois quartos, eu dormia no chão da sala. Era casa geminada, mofo nas paredes, tacos soltos, alguns podres. Naquela noite, fui dormir cedo, cansado da praia. Estendi o colchão no canto, encostado na parede. Abri os olhos na madrugada. A cerca de 20 centímetros do meu rosto, o gato. Sentado no chão da sala, a elegância dos felinos, boca fechada, bigodes equilibrando o rosto numa estética perfeita, pelos limpos e brilhantes, olhos parados nos meus. Fechei os olhos, abri. O gato continuava na mesma posição, como escultura de olhos vivos. Virei para a parede e demorei a adormecer, sabia que ele ainda estava lá, observando. Durante todas as outras noites dormi virado para a parede, rosto colado no mofo.

Depois desta noite, não sei se por acaso ou cisma, os gatos sempre procuram meu olhar. À noite, dirigindo, quando o farol bate num felino, naquele breve instante em que ele pára, calcula o risco do atropelamento e depois desaparece, meu olhar se encontra com o dele. Não, esta história não vai chegar a animais pretos na encruzilhada ou a Edgar Allan Poe. Nada de bruxos, nada de reencarnações. É história de amantes como outra qualquer. A minha namorada tinha um gato.

Conheci Mércia em um bar de jornalistas. Próximo à redação do jornal, o bar ficava aberto pela madrugada, esperando os notívagos. Os jornalista chegavam um a um, alguns eufóricos pelas belas reportagens, outros frustrados pelos cortes do editor, outros sonhando mais alto do que meras resenhas culturais, como Mércia. Ela trabalhava no caderno 2, passava a noite conversando sobre as matérias que fizera e as que não fizera. Quando conversava sobre contos policiais, seus olhos, bem, num desses olhares… terminamos a noite em seu apartamento.

Eu o enxerguei assim que ela abriu a porta: Philip, o gato. Enrodilhado no sofá da sala, levantou a cabeça, seus olhos fixos em mim. Passou a ser rotina. Duas ou três vezes por semana, do bar direto para o apartamento. Dormíamos até tarde, dez, onze da manhã, mas era durante a madrugada que temores me assaltavam. O gato, em algum canto da casa, eu sabia, espreitava. Meu olhar, vez por outra, cruzava com o dele na porta do quarto.

Naquela noite, quando entramos, eu não vi Philip. Estava cansado, fui direto para o quarto. Adormeci. Acordei perto das cinco da manhã, uma sensação de que estava sendo observado. Pressenti um vulto se esgueirando na porta do quarto. Olhei em volta, a luz fraca do abajur projetou sombra na parede, felinamente rápida. Pulei da cama, Mércia se assustou. Suor começou a escorrer pelo meu rosto, ela perguntou se eu estava passando mal. “Preciso de um banho.”

Virei o rosto para o chuveiro, deixei a água quente bater em meu rosto por longo tempo, aliviando meus pensamentos. Quando entrei no quarto, Mércia estava sentada na beira da cama, minha camisa nas mãos, olhar desolado. “Você não vai acreditar.” Ela abriu os braços e estendeu a camisa de malha. Três longos cortes paralelos, começando perto da gola, desciam até o fim da camisa, terminando pouco antes da barra. Perfeitos, descendo em diagonal, como três garras rasgando meu peito.

Mércia saiu gritando por Philip, fiquei com a camisa nas mãos, sentindo os cortes. Peguei uma camisa qualquer no guarda-roupa, vesti as roupas apressado sem dizer nada. Na porta, beijei Mércia pouco menos demorado, os olhos tentando encontrar o gato atrás da amante. Desci as escadas, abri o portão da entrada, olhei para cima. Mércia estava na janela, como sempre. Mas eu só enxergava o olhar de Philip, em algum canto da casa.

Poemas adolescentes

A freira debruçou-se sobre os ombros de Bruno, olhou as letras no papel e ordenou que ele repetisse a lição: a s d f g, a s d f g. Na simplificação dos meninos do bairro, a Escola Profissionalizante Nossa Senhora da Piedade era chamada Cursinho das Freiras. Ficava na Rua das Freiras, fácil de falar como a Rua de Baixo e a Rua de Cima.

Na década de 70, o trágico desmoronamento da construção da Gameleira soterrou e matou diversos operários na hora do almoço. A construção foi abandonada, ficaram as ruínas e um gigantesco terreno vazio, plano – onde hoje funciona o Expominas. Os meninos fizeram ali um campo de futebol. Terra batida, pedras no lugar das traves, linhas imaginárias marcando as saídas do campo. Nas tardes de sábado, os meninos se reuniam depois do almoço, uns convidando os outros: “vamos jogar bola no cemitério.” Tudo muito simples para mentes ainda desprovidas de dor e sofrimento.

Ainda criança, mas já sabendo da necessidade de trabalhar cedo, Bruno matriculou-se no curso de datilografia das freiras. Passava uma hora por dia dedilhando as teclas, dedo a dedo, letra a letra, até decorar a seqüência correta: a s d f g, ç l k j h. Por conta dessa persistência e do fascínio de ver as palavras se formando a tinta, virou exímio datilógrafo. Quando começou a trabalhar de office-boy, contou nota a nota o primeiro salário, descontou o dinheiro da condução e gastou tudo na compra de uma máquina de escrever portátil, Olivetti Lettera 35, de metal, cinza, fita metade preta metade vermelha para os grifos.

Abandonou o cursinho das freiras e continuou o treinamento diário. Saía do trabalho, ia para o colégio noturno e depois das aulas gastava meia hora na mesa da sala de jantar, batendo a máquina, como a mãe costumava dizer. Às vezes, o barulho acordava a mãe, ela levantava-se, perguntava se Bruno tinha jantado e emendava, “o que você está fazendo?” “Escrevendo”, era a invariável resposta. Escrevendo trabalhos de escola, foi dos primeiros da classe a sempre entregar tudo datilografado, impecavelmente corrigido, escrevendo arremedos de contos, crônicas, qualquer coisa que se assemelhasse a um texto. Escrevendo poemas e mais poemas que o ajudaram muito na difícil arte de conquistar.

Era a época das discotecas, das festinhas de bairro, cada fim de semana na casa de um amigo. Meninos e meninas chegavam com LPs, compactos, cassetes, o som 3 em 1 no volume máximo. Todo mundo dançando feito John Travolta no filme Os embalos de sábado à noite. Menos Bruno. Ficava encostado na parede da sala. Seus olhos sempre se apaixonavam, mas até ele se decidir a menina tinha sumido, sozinha ou com alguém mais despojado. Restava a máquina de escrever à noite, a mãe assustada pela hora daquele negócio batendo.

Quando o tempo dava uma oportunidade ao flerte, bem lento no seu caso, ou seja, quando a menina se permitia a olhares furtivos durante dias – em alguns casos meses – Bruno descobriu um jeito. Entregava um pedaço de papel dobrado dentro de um livro, no caderno de escola, ou pedia uma amiga para se fazer de correio. Ele esperava a menina ler e reler o poema, telefonava, convidando para um domingo à tarde no cinema. Sentavam, os braços roçando, dedos acariciando o dorso da mão até se entrelaçarem. Beijavam-se e o filme ficava esquecido na tela.

Nessas noites a mãe ouvia a máquina de escrever batendo mais forte.