O cinema americano, por Italo Calvino

“Ainda não disse, mas parece ter ficado subentendido que para mim o cinema era americano, a produção de Hollywood. A ‘minha’ época vai mais ou menos de Lanceiros de Bengala, com Gary Cooper, e O grande motim, com Charles Laughton e Clark Gable, até a morte de Jean Harlow (que revivi muitos anos mais tarde, com a morte de Marilyn Monroe, num período mais consciente da carga nervosa dos símbolos), com muitas comédias no meio, aquelas policiais, com Myrna Loy e William Powell e o cachorro Asta, os musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers, os suspenses de Charlie Chan, detetive chinês, e os filmes de terror de Boris Karloff. Os nomes dos diretores eram menos importantes, com exceção de alguns como Frank Capra, Gregory La Cava e Frank Borzage, que, em vez de milionários, representavam pessoas pobres, quase sempre com Spencer Tracy. Eram os diretores bonzinhos da época de Roosevelt, que, como deduzi mais tarde, eu engolia sem distinguir uma coisa de outra. O cinema americano do momento consistia numa coleção de rostos de atores jamais vista, nem antes nem depois (pelo menos assim me parece), e as histórias eram simples mecanismos usados para reuni-los (apaixonados, comediantes, atores em geral) em combinações sempre diferentes. Ao redor das tramas convencionais, havia pouco do sabor de uma sociedade e de uma época, mas era exatamente por isto que me atingia sem que soubesse definir no que consistia. Era (como teria aprendido em seguida) a mistificação de alma daquela sociedade, mas era uma mistificação particular, diferente daquela nossa mistificação que aparecia durante o resto do dia. E como para o psicanalista é tão interessante que o paciente minta tanto quanto seja sincero, porque de qualquer forma revela alguma coisa de si, eu, espectador pertencente a outro sistema de mistificação, tinha muito o que aprender, tanto daquele pouco de verdade quanto daquela grande mentira fruto dos produtos de Hollywood. Assim, não carrego nenhum rancor daquelas imagens mentirosas da vida; hoje parece que nunca acreditei que fossem verdadeiras, mas sim que fossem algumas das possíveis imagens artificiais, ainda que não tivesse conseguido explicar isso na época.” – Autobiografia de um espectador. Italo Calvino.

Referência: Fazer um filme. Federico Fellini. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011