Formas de roteiro ou não-roteiro

Trecho de artigo de Alain Bergala “Rossellini Godard: qual herança?” no qual o autor traça paralelos entre os métodos de roteirização dos dois cineastas. 

Godard, como Rossellini, recusa a forma canônica da continuidade dialogada de noventa páginas. Quando o produtor fecha Rossellini num quarto e o impede de sair antes de escrever um roteiro para Viagem à Itália, o cineasta acaba por lhe dar um documento de cinco páginas em que determina as locações (com grande exatidão), os não atores que atuarão no filme (guias de museus e de lugares turísticos) e os modelos precisos dos automóveis que aparecerão na imagem. Era pouco, mas bastava para preparar a filmagem, de resto improvisada pelo cineasta. 

Do mesmo modo, e contrariamente à lenda, Godard sempre escreveu, antes de iniciar o filme, um roteiro de poucas páginas com a sucessão das cenas e dos cenários, apenas o suficiente para permitir que a produção organizasse a filmagem. Para responder sem muito custo a um pedido de roteiro, Godard, assim como Rossellini, praticou um desenvolto copiar e colar de textos preexistentes, romances policiais, patchwork de elementos tirados de toda parte, livros, revistas, jornais, anedotas recolhidas no acaso dos encontros. Truffaut, que foi durante alguns meses assistente de Rossellini, conta como recortava livros com tesoura durante uma viagem noturna de carro com Rossellini e colava os recortes na forma de um roteiro, que o cineasta entregaria na manhã seguinte. 

Rossellini sempre teve a convicção de que seria vão e absurdo decupar uma cena do roteiro no papel antes da filmagem: “Como filmo em interiores reais e em exteriores sem pesquisa prévia, posso apenas improvisar a mise-en-scène em função da locação na qual me encontro. Escolho meus atores de complementação no lugar, no momento da filmagem, e antes de tê-los visto todos, não posso escrever um diálogo, que fatalmente soaria teatral e falso. Enfim, acredito muito na inspiração do momento.”

Sem mudar uma palavra sequer, Godard poderia tomar para si essa declaração pois, para ele também (assim como para Rivette Rohmer), decupar a cena, escolher os eixos da câmera e dirigir os atores no espaço são ações que só podem ser feitas na locação real, com os atores, as limitações de luz e de tempo, no momento do encontro do projeto de cena com a realidade das condições de filmagem. 

Godard. Inteiro ou o mundo em pedaços. Eugenio Puppo e Mateu Araújo (organização). São Paulo: Heco Produções, 2015

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