O cinema segundo Carl Dreyer

Carl Dreyer (1889-1968) foi um dos mais influentes realizadores do cinema. Nasceu na Dinamarca, mas realizou a maioria de seus filmes na França. Sua obra-prima é O martírio de Joana d’Arc (1928), famoso pelo retrato realista e impressionante do sofrimento da heroína francesa – as tomadas em closes da atriz Marie Falconetti são referências ainda hoje em questões de expressividade. A seguir, reflexões do diretor sobre o cinema: 

Paris era, e ainda é, o laboratório do cinema europeu. Nenhuma outra cidade possui uma cultura cinematográfica tão vasta. 

Atores possuem a habilidade de se perceberam, se observarem, e em seguida avaliar se foram bem ou não. Eles conseguem perceber quando estão realmente dentro do papel. 

Onde há possibilidade para uma renovação artística no cinema? Para mim, vejo apenas um caminho: a abstração. A arte de apresentar a vida interior, não exterior. 

Imagine que estamos sentados em uma sala normal. De repente somos avisados de que há um cadáver atrás da porta. Imediatamente a sala muda de aparência. Todos os objetos nela mudam. A luz e a atmosfera mudaram, mesmo sem nada ter fisicamente mudado. É porque mudamos e as coisas são do jeito que percebemos. É esse efeito que quero produzir em meus filmes. 

Filme falado é uma forma concentrada. É incrível o quanto se pode obter com diálogos curtos cortando frases e palavras inteiras com o mero objetivo de fazer suas intenções emergirem claramente. Mas o filme falado tem uma tendência de negligenciar o aspecto visual. O cinema é antes de tudo uma arte visual, algo que estimula a visão. E uma imagem pode provocar uma grande impressão no espectador muito melhor do que palavras. Ninguém que tenha visto meus filmes pode duvidar que, para mim, a técnica é um meio, e não um fim em si. 

Foi a ação e atmosfera de Dias de ira que determinaram seu ritmo estável e pacífico. Mas isso serve a outros dois propósitos. Primeiro, expressa a lentidão do ritmo daquela época. Em segundo lugar, enfatiza e reforça a ideia do que o escritor tentou aplicar em sua peça e que eu tentei transferir para o filme. Os movimentos do ator devem harmonizar com seu estilo de fala. Olhe para Lisbeth Movin. O ritmo de seus movimentos está em bela harmonia com o ritmo de sua voz. 

Às vezes vemos rostos sem maquiagem nos filmes para criar um efeito revigorante. Mas a situação ideal só virá quando todas as faces forem representadas do jeito que são na vida real. Nada no mundo pode se comparar a um rosto humano. É uma paisagem a ser explorada incansavelmente, uma paisagem com sua própria beleza, enrugada ou macia.

Filmes podem ser várias coisas, assim como livros e peças. Em nosso desejo de criar filmes artísticos, não podemos torcer o nariz para os filmes populares que, acredito, têm uma importante missão. Pessoas comuns que vivem em pequenos apartamentos, que esperam por um raio de sol em suas vidas, podem viver uma semana inteira da lembrança desse tipo de filme. Seria tolo e arrogante pensar apenas a respeito de filmes artísticos. Isso faria do mundo um lugar chato. E para o resto de nós, o prazer está exatamente em olhar para os outros filmes que não são tão bons, com inveja das salas lotadas dos filmes populares. 

Produtores são como católicos. O que não pode ser conquistado neste século pode ser no próximo. Especialmente em um país pequeno, produtores têm medo de experimentar. Nunca penso na audiência quando estou filmando, absolutamente. Apesar de querer fazer um filme que seja facilmente compreendido. Mas isso eu faço pensando no trabalho em si. Pois involuntariamente buscamos a perfeição. Mas o cinema hoje não é perfeito. Isso é algo pelo qual podemos ser gratos. Porque o que é imperfeito ainda está em desenvolvimento. O imperfeito vive. O que é perfeito morre e é deixado de lado. 

Estou em uma sala de cinema. Na parede à minha frente, as pesadas cortinas estão abertas. As luzes se apagam e a história ganha vida na tela diante de mim. Talvez ela me faça rir, ou talvez me faça chorar. Talvez eu ria com lágrimas nos olhos. Talvez eu chore com um sorriso nos lábios. Sou transportado no tempo e espaço esquecendo minha vida rotineira até que o encanto se desfaça. 

Cinema é minha única grande paixão. 

Caro Sr. Staehr, estou convencido de que Páginas do livro de Satã é o melhor script já oferecido à Nordisk Film. Como havia declarado e repito aqui tenho como objetivo fazer um filme que definirá novos padrões. Mas esse filme não pode ser feito com menos de 230 mil kroner. E não é possível deduzir sobre onde economizar, já que sou a única pessoa capaz de julgar estas questões, pois tenho uma clara ideia de como quero cada plano. Não terá nada de supérfluo, desnecessário ou fortuito. As cenas formarão um todo orgânico. E esse é o final da questão. 

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