Audrey

Impossível não se emocionar assistindo à Audrey, documentário que retrata uma das atrizes mais fascinantes, dentro e fora das telas, deste maravilhoso cinema clássico americano. O filme traz depoimentos de familiares e amigos da atriz, como Sean Hepburn-Ferrer, Emma Ferrer, Richard Dreyfuss, Clare Waight Keller, John Loring. 

Os depoimentos reconstituem a infância de Audrey, quando ela sofreu com os horrores da ocupação nazista na Holanda, vivendo, inclusive, em estado de desnutrição. Foi abandonada pelo pai que se aliou às fileiras nazistas. A vida pessoal da atriz é pontuada ao longo de sua carreira, passando pelos casamentos desfeitos, pelo reencontro com o pai, com destaque para sua atuação como Embaixadora da Unicef. 

Os sofrimentos de Audrey durante a segunda guerra mundial, as frustrações de seus relacionamentos amorosos,  seu engajamento fervoroso na luta pelas crianças famintas da África e, finalmente, a batalha contra o câncer que a vitimou, são entrecortados pelas belas imagens da carreira da atriz. Imagens eternas: a princesa que passeia liberta pelas ruas de Roma, a filha de um motorista que se transforma em Paris e seduz dois ricos irmãos, a mendiga que ressurge como a mais bela dama, a garota de programa com seu ar ingênuo diante da joalheria e mais, muito mais – poderíamos ficar descrevendo quase sem fim as aparições luminosas de Audrey Hepburn no cinema e em nossa vidas. Melhor assistir ao documentário e correr para rever os filmes.  

Audrey (EUA, 2020), de Helena Coan. 

O rei dos elfos

O filme abre com a descrição em prosa do célebre poema de Goethe, O rei dos elfos. Corta para um homem à cavalo levando o filho doente nos braços. Ele precisa chegar à cidade o mais rápido possível, mas seu cavalo não resiste e cai por terra. Pai e filho encontram abrigo em uma casa, conseguem um cavalo e cavalgam pela estrada até adentrar, à noite, a floresta. 

A partir daí, a trama ganha o tom assombrado, baseado no poema de Goethe. O rei dos elfos emerge das sombras, junto com suas fadas, e persegue o garoto. A diretora Marie-Louise Iribe, também atriz, uma das pioneiras do cinema francês, recria com efeitos visuais o visual místico da floresta, onde vivem seres fantasmagóricos comandados pelo assustador rei que sequestra a alma das crianças. Realizado logo no início do cinema sonoro, a película traz a força da narrativa visual, com frases curtas  entre a criança e seu pai, reproduzidas do poema. O final triste, já anunciado na balada de Goethe, deixa o espectador entre os sentimentos de beleza e melancolia, ciente que está diante de um filme que une várias referências artísticas.  

O rei dos elfos (Les roi des aulnes, França, 1931), de Marie-Louise Iribe. Com Otto Gebuhr, Joe Hamman, Mary Costes, Rosa Bertens.  

A grande ilusão

A obra-prima de Jean-Renoir, considerado um dos filmes mais humanistas de todos os tempos, passou por revisões de acordo com o contexto histórico. A trama acontece em dois campos de prisioneiros alemães, durante a primeira guerra mundial, onde estão presos soldados franceses e ingleses. Na primeira parte, em um quartel, na segunda, em um suntuoso castelo. O capitão Pierre Fresnay e o Tenente Marechal guiam os homens em tentativas de fuga. Neste contexto, se desenvolve o grande tema da película: a fraternidade, solidariedade entre soldados de raças e classes distintas, todos irmanados pela tragédia da guerra. 

Não há cenas de trincheiras, tiroteios, assassinatos em massa. Prisioneiros e carcereiros interagem com compreensão sobre os papéis de cada um na guerra, cumprindo com seus deveres, servindo nobremente às suas nações, mas solidários no sofrimento e na ilusão de que tudo passará rápido. 

O Capitão alemão von Rauffenstein e o Capitão francês Boeldieu se aproximam em respeito mútuo, pois fazem parte da mesma classe social aristocrática. Diferenças raciais também são tema da película. O judeu Rosenthal convive com os soldados ouvindo agressões verbais, mas o companheirismo supera tudo, como na emocionante cena na neve, quando Marechal e Rosenthal estão quase se entregando ao destino. “Renoir aproveita o poder ilusório da arte para demonstrar como os homens poderiam ser. Por isso, seus personagens podem estar em posições distintas, sem que isso implique oposição ou impulso de aniquilar o outro.” – Cássio Starling Carlos. 

Lançado em 1937, A grande ilusão arrebatou público e crítica como um libelo contra a guerra, capaz de receber elogios da direita e da esquerda. Nos países fascistas, claro, o filme foi proibido, pois a segunda grande guerra já se avizinhava, justificando de vez o título do filme. 

Depois dos horrores nazistas, mesmo na França o filme sofreu cortes, pois já não era possível apelar para a fraternidade entre alemães e franceses. Críticas severas e infundadas acusaram até mesmo Renoir de incentivar o antisemistismo. Em vários momentos, os ataques à Rosenthal refletem a realidade da sociedade francesa, mas Renoir deixa claro que o companheirismo entre os soldados leva a necessidade urgente de integrar os judeus. 

Renoir afirmou diversas vezes que o filme é totalmente baseado na realidade, em sua experiência na guerra e em relatos de outros soldados, afirmando seu apego ao cinema realista. Os diálogos são primorosos e foram reescritos durante as filmagens, pois todos já tinham consciência de uma nova tragédia pairando no ar. Renoir também reescrevia no set cenas importantes da trama, contando com a participação de sua secretária François Giroud, que depois se tornaria famosa roteirista, com vigorosa carreira no jornalismo e na política, chegando à Secretaria de Estado da Cultura do governo francês nos anos 70. 

Sobre o roteiro, um dos melhores da história do cinema, vale refletir sobre duas outras questões, além da reescrita dos diálogos. Quando Erich von Stroheim foi escolhido para interpretar o capitão alemão, mudanças significativas foram feitas, contando com a participação do ator na reescrita de suas falas e na composição do próprio figurino, trazendo contribuições decisivas para a história. A outra questão é o crescimento do judeu Rosenthal. No roteiro original, ele estaria presente apenas na primeira parte da trama, como um dos prisioneiros do quartel. Renoir decidiu colocá-lo também no castelo o que transformou Rosenthal em um dos personagens mais fortes da narrativa, inclusive fugindo com Marecha e empreendendo a famosa batalha contra o tempo e a paisagem nas andanças rumo à Suíça.

Por fim, vale citar a aparição luminosa da atriz Dita Parla, pequena fazendeira que abriga os fugitivos. O amor que cresce entre Elsa e Marechal faz refletir não apenas sobre o absurdo da guerra, mas também sobre a incomunicabilidade ou sobre a não-necessidade de se comunicar por palavras, apenas por olhares, gestos e ações fraternas. É o apelo final de Renoir ao pacifismo, ao humanismo, não é necessário compreender verbalmente um ao outro, basta nos entregarmos aos sentimentos mais belos que deveriam mover a humanidade: amizade, fraternidade, amor.  

A grande ilusão (La grande illusion, França, 1937), de Jean Renoir. Com Jean Gabin (Tenente Marechal), Pierre Fresnay (Capitão Boeldieu), Erich von Stroheim (Capitão von Rauffenstein), Marcel Dalio (Tenente Rosenthal), Dita Parlo (Elsa).

Referência: Jean Renoir. A grande ilusão. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

Na teia do destino

Não espere os cânones do gênero neste revigorante filme noir de Max Ophuls. “Os gêneros são cercados de convenções. É o que fazem. É por isso que os amamos. Mas, quando transcendem essas convenções, levam você a considerações e a reflexões sobre as questões psicológicas e morais que despertam. Aí, tornam-se grandes.”

Essa análise de Richard Schickel, crítico e historiador, se aplica com perfeição à Na teia do destino. Lucia Harper (Joan Bennett) tenta proteger sua filha adolescente da sedução de um atraente mafioso de Los Angeles. Ao descobrir as verdadeiras intenções do namorado, ele quer extorquir dinheiro da família, a jovem provoca acidentalmente a morte do canalha, em uma noite de tempestade. Lucia descobre o cadáver e tenta encobrir o assassinato. No entanto, entra em cena o irlandês Martin Donnelly (James Mason), outro mafioso, que, a serviço de seu chefe, passa a chantagear Lucia. 

A reviravolta da trama, consequentemente do gênero, acontece quando o irlandês se apaixona por Lucia. A tradicional femme fatale, presente em várias narrativas noir, agora age por causas nobres, provocando a tentativa de redenção do bandido apaixonado. 

Debates éticos permeiam o filme, como adultério, um inocente que pode ser condenado por um crime que não cometeu mas, que, segundo Donnelly vai pagar pelos outros crimes. Joan Bennett é a grande estrela do filme, sua personagem destila charme em cada cena, mesmo nas mais aflitivas, incentivando, talvez inconscientemente, as investidas do irlândes amargurado, capaz de qualquer sacrifício para salvar sua amada. É a transcendência das convenções em um filme belo, triste e sedutor.  

Na teia do destino (The reckless moment, EUA, 1949), de Max Ophuls. Com Joan Bennett, James Mason, Geraldine Brooks.

A sorridente Madame Beudet

Madame Beudet está enclausurada em um casamento monótono, representação da sociedade que relega a mulher ao papel de dona de casa amorosa, cuja obrigação é sentir-se feliz diante da vida confortável proporcionada pelo casamento. Cada vez mais triste e deprimida, Madame Beudet enseja sua única possibilidade de libertação: a morte do marido.

A diretora Germaine Dulac fez parte do círculo de cineastas experimentais da última década do cinema mudo, reunidos em torno do movimento denominado impressionismo francês. Seus filme buscavam ao mesmo tempo a poesia das imagens e a representação da opressão feminina, sendo por isso considerada uma das primeiras autoras do cinema feminista.

“O elemento mais cativante de A sorridente Madame Beudet é composto pelas elaboradas sequências de sonho em que a dona de casa do título (Germaine Dermoz) fantasia uma vida fora dos limites da sua existência monótona. Usando efeitos especiais radicais e técnicas de montagem, Dulac incorpora alguns dos elementos estéticos de vanguarda da época para contrastar o poder feminino rico e vigoroso da vida imaginária de madame Beudet com o tédio da rotina compartilhada com seu marido (Alexandre Arquillière).” 

A sorridente Madame Beudet (La souriante Madame Beudet, França, 1923), de Germaine Dulac. Com Germaine Dermoz, Alexandre Arquillère, Jean D’yd.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

A dama de Shanghai

A dama de Shanghai (The lady from Shanghai, EUA, 1948) abre com voz em off do marinheiro Michael (Orson Welles) narrando seu primeiro encontro com a bela e sedutora Elsa Bannister (Rita Hayworth), durante um passeio noturno no Central Park. São os indícios da experimentação de Orson Welles pelo universo do filme noir: narração em primeira pessoa, fotografia noturna das cidades, a sedutora mulher fatal que envolve o amante com propósitos criminosos.

“Com um sotaque irlandês titubeante, Welles é um marinheiro contratado por um advogado aleijado (Everett Sloane, sórdido e assustador) para trabalhar em seu iate e talvez também (como no enredo preservado por Welles em Uma história imortal – 1968) prestar serviços à sua bela esposa. Um assassinato ocorre, seguido por um julgamento em que todos agem de forma no mínimo antiética, e um caleidoscópio louco é despedaçado por um clímax envolvendo um tiroteio numa sala de espelhos. A dama de Shanghai, como filme, é um espelho despedaçado, com fragmentos de genialidade que jamais poderão ser juntados para formar algo que faça sentido.”

Rita Hayworth, de cabelos curtos, está deslumbrante em cada close, em cada ângulo ousado de Orson Welles: tomando sol no iate, cercada pelos três homens que a desejam, pulando de uma rocha para o banho de mar, a luz do cinema noir refletindo em seu rosto quando finge amor, tristeza, desolação. Para completar, a antológica sequência final na sala de espelhos, quando o confronto entre Elsa e Arthur é pontuado por estilhaços de vidros, a imagem da femme fatalle se despedaçando para logo em seguida se reconstituir em um novo reflexo, como a própria Rita Hayworth.

Vampiros de almas

Duas questões marcaram ideologicamente parte do cinema americano dos anos 50. Primeiro, a guerra fria. A disputa em diversos campos, incluindo a espionagem, envolveu os dois grandes polos mundiais, contrapondo o capitalismo americano e o socialismo soviético. A “ameaça vermelha” virou paranoia para a sociedade americana.

Segundo, o macarthismo. Na década de 50, o senador Joseph McCarthy  empreendeu violenta campanha nos EUA para combater comunistas supostamente infiltrados em importantes setores da sociedade. Esta caça às bruxas levou centenas de cidadãos aos tribunais americanos, principalmente cineastas, devido ao imenso prestígio que a classe detinha junto à sociedade. Vários cineastas foram impedidos de trabalhar, alguns condenados à prisão.

Segundo Antonio Costa (Compreender o cinema), em determinados filmes de gênero dos anos 50 “serão evidenciadas as relações entre as temáticas dos gêneros e determinadas linhas de tendências políticas, econômicas etc. Segundo uma exemplificação fornecida por La Polla (1978), podemos notar como o western retrata o modelo do desenvolvimento ‘expansionista e colonialista‘ dos Estados Unidos, enquanto o cinema de ficção será o gênero ‘passível, mais que qualquer outro, de uma leitura política em clave contemporânea durante o macartismo e o perigo vermelho’.”

No clássico western Matar ou morrer (1952), de Fred Zinnemann, há uma alegoria ao macarthismo. O xerife Will Kane (Gary Cooper) pede ajuda aos moradores da cidade para enfrentar três pistoleiros que vão chegar no trem do meio dia para matá-lo. Um a um, os moradores viram as costas, o xerife foge da cidade, mas volta e resolve enfrentar os pistoleiros, mesmo sabendo que seria vítima fácil. Exatamente o que aconteceu com vários artistas nos tribunais americanos, entregues à própria sorte, delatados e abandonados por amigos, tentando se defender sozinhos. “O filme de Zinnemann é ao mesmo tempo um excelente faroeste de suspense e uma perfeita alegoria do clima de medo e suspeita que prevalecia nos Estados Unidos durante a era McCarthy”. – 1001 filmes para ver antes de morrer.

Nestas posições ideológicas, Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, EUA, 1956), de Don Siegel. tem uma singularidade: a dupla leitura. A história se passa em uma cidadezinha do meio-oeste americano.  Quando o Dr. Miles Bennell (Kevin McCarthy) retorna à cidade, é procurado por alguns de seus pacientes. Eles relatam que parentes próximos são impostores, estão possuídos. Gradativamente, os moradores da cidade passam por transformações psicológicas, perdem as emoções, andam em grupos como autômatos.

Na verdade,  alienígenas estão incubados em uma espécie de vagem e tomam os corpos dos moradores. Analogia ao vírus do comunismo que paira no ar como uma ameaça e pode transformar os cidadãos em vegetais.

A sequência final deixa em aberto outra especulação ideológica. O Dr. Miles, último sobrevivente do vírus, corre da multidão pela cidade. Esconde-se em uma mina abandonada, vê sua namorada ser tomada pelos alienígenas, continua correndo até conseguir sair da cidade e entrar em uma rodovia no meio de centenas de carros. É noite, Miles se desvia dos carros, gritando por socorro, até que se volta para a câmera e grita “você é o próximo”.

A ameaça vermelha e o macarthismo, duas paranoias que chegaram ao limite da criminalidade oficial, se confundem em Vampiros de Almas, este clássico da ficção científica.

“Apesar do clima de filme B, a obra de Siegel – baseada no romance de Jack Finney – está menos interessada em respeitar as convenções da ficção científica do que em dramatizar os perigos do conformismo social e a ameaça de invasão que pode vir tanto de fora quanto de dentro da própria comunidade.”  – 1001 filmes…

Referências:

Compreender o cinema. Antônio Costa. São Paulo: Globo, 1989

1001 filmes para ver antes de morrer. Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

Amarga esperança

Nicholas Ray foi amado, talvez idolatrado, pelos jovens críticos da Cahiers du Cinema e posteriormente diretores consagrados da nouvelle vague francesa. Jean-Luc Godard chegou ao extremo de afirmar: “Houve o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rossellini), a dança (Eisenstein), a música (Renoir). Doravante, há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray”. A própria teoria do autor, defendida pelos críticos franceses, encontrou em Nicholas Ray uma de suas principais referência: 

“Acho que o que nos atraiu foi que havia algo europeu neste diretor de Hollywood. E o que havia de Europeu? Talvez a fragilidade e vulnerabilidade dos personagens principais. Apesar de ele rodar muito com astros como John Wayne ou Humphrey Bogart, seus personagens masculinos não eram machões. Havia uma grande sensibilidade, principalmente no tratamento das histórias sentimentais que dava uma impressão de grande realismo. Numa época em que o cinema de Hollywood não era pessoal ou autobiográfico tínhamos sempre a impressão de que as histórias de amor nos filmes de Nicholas Ray eram histórias reais.” – François Truffaut. Sobre a admiração incondicional pelo cinema de Nichoas Ray, Traffaut completa, em depoimento para um documentário: “Eu já disse uma vez, e repito para esta câmera. Eu disse que um filme como Johnny Guitar teve mais importância na minha vida do que na de Nicholas Ray.”

Os personagens frágeis, vulneráveis, são marcantes já em Amarga esperança, primeiro filme dirigido por Nicholas Ray. A película abre com imagens amorosas de dois jovens se olhando, se beijando, felizes, somente os rostos com fundo negro, acompanhados pela frase: “Este rapaz e esta garota nunca conseguiram se integrar no mundo em que vivemos. Esta é sua história.” Os dois se voltam assustados para a câmera, entra o título: They live by night. Corta para ousada sequência filmada de helicóptero, a câmera oscilante mostra em plongée um carro correndo por um terreno árido. Três fugitivos da prisão estão no carro: Chickamaw, T-Dub e Bowie, o jovem da abertura. 

Eles abandonam o carro e seguem a pé, mas Bowie torce o pé e precisa esperar que seus dois amigos enviem um resgate. À noite, o farol de um carro cruza à noite, Bowie se aproxima, uma jovem cujo chapéu projeta sombra em seus olhos, na escuridão da noite, começa o diálogo recheados de “talvez”, sem qualquer conclusão. Estamos diante de um filme noir, gênero revitalizado por Nicholas Ray. Ao invés dos becos noturnos das cidades urbanas, Amarga esperança é um road-movie que se passa nas estradas descampadas do Texas. Os protagonistas do filme não são o detetive particular frio, irônico e inescrupuloso, e nem a femme fatale que leva o amante à degradaçãol. São Bowie e Keechi, jovens que vivem uma súbita e intensa paixão, alternando momentos românticos com a fuga desesperada da polícia e de seus destinos. A fotografia alternam entre o claro escuro, as imagens sombrias da noite contrastam com a dureza do sol do meio dia, atrevidas cenas áreas nunca vistas no cinema até então marcam a estreia de um autor no cinema. “Amarga esperança é um dos filmes que levou os filmes de crime e os noir para outra direção e revitalizou o gênero devido à visão original de Nicholas Ray e o tipo de detalhe que ele traz para a filmagem.” – Imogem Sara Smith. 

Após dois assaltos a bancos, Bowie se transforma no mítico “Bowie the kid”, pois personifica os bandidos que tomaram conta do imaginário popular a partir da história de Bonnie e Clyde. Resta a ele e sua jovem esposa Keechi fugirem pela noite, buscando refúgios em motéis e chalés rurais, até serem descobertos e pegarem novamente a estrada. 

O destino trágico está selado desde a abertura do filme, mas o violento final traz aos olhos e corações dos espectadores um dos momentos mais tristes do cinema. Coisas desse cinema noir amargo e sem esperança, coisas desse cinema que nos move com amor, paixão e deslumbre por histórias inalcançáveis, coisas dos filmes de Nicholas Ray. 

Amarga esperança (They live by night, EUA, 1948), de Nicholas Ray. Com Farley Granger (Bowie), Cathay O’Donnell (Keechie), Howard da Silva (Chickamaw), Jay C. Flippen (T-Dub), Will Wright (Mobley). 

Referência: Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Nicholas Ray. Amarga esperança. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018. 

Tabu

Antes mesmo das filmagens, Tabu já apresenta uma história de amor: em 1929, Murnau realiza seu sonho de comprar um iate, nomeado de Bali. Assim, conseguiria realizar seu sonho de juventude, conhecer os mares do sul e, ao mesmo tempo, reencontrar seu amado Walter Spies que vivia em Bali.

Junto com o documentarista Robert Flaherty, Murnau chega em Bali em 29 de julho de 1929. Flaherty começa a trabalhar no projeto de um filme chamado Turia, filmando cenas de praias e dos nativos nas cachoeiras. A película seria produzida pela Colorart, no entanto, a produtora faliu durante o crash da bolsa de Nova Iorque. Murnau escreve, então, o roteiro de Tabu e decide financiar o filme. Ele contrata o diretor de fotografia Robert Crosby para substituir Flaherty, com quem o diretor se desentendeu. 

A trama de Tabu segue os passos de dois nativos, Matahi e Reri, jovem virgem que é escolhida pela tribo para servir aos Deuses, sob os cuidados do velho sacerdote Hitu. Matahi sequestra Reri, os dois fogem para outra ilha, onde os brancos exploram pérolas, colonizando os nativos com objetivos de exploração econômica. Matahi se revela exímio mergulhador, o casal vive algum tempo num idílio amoroso. No entanto, a figura do velho sacerdote persegue-os, até o final trágico. 

Robert Flaherty queria produzir um documentário sobre a exploração dos nativos pelo homem branco. Murnau, ao contrário, imprimiu um estilo estético ao filme baseado em pinturas alemãs, pedindo aos atores que imitassem as poses dos quadros. Os movimentos também deveriam se parecer com uma dança, estilo chamado por Murnau e Spies de “cinematografia arquitetônica”. Flaherty não gostou do resultado, pois acreditava na verdade dos documentários. Ele disse que “o estilo de Murnau não passava de uma espantosa manipulação.”

O erotismo está presente em grande parte das tomadas de Tabu, principalmente no início, quando os nativos praticam alegremente a pesca. Os gestos coreografados destilam beleza e sensualidade nas cenas aquáticas. 

“A sensação de puro regozijo dessas imagens prolonga-se na sequência seguinte, quando vemos a aproximação entre Matahi e Reri, o surgimento entre eles de um amor pleno, físico e que se exibe sem nenhum pudor. Toda essa parte é feita de movimentos incessantes na forma de saltos, lutas, danças e nados, de fluxos que reforçam o sentimento de alegria.” – Cássio Starling Carlos

O estilo expressionista de Murnau contrapõe essa alegria erótica e inocente quando as sombras projetadas no rosto do sacerdote Htu, o velho que condena Reri ao Tabu, representam forças ocultas e sombrias que exigem o sacrifício dos amantes. O silencioso Htu, de olhar penetrante e aterrador, é como uma maldição que se interpõe no caminho dos jovens.

Assim como o destino dos dois jovens amantes de Tabu, a relação entre Walter Spies e Friedrich Wilhelm Murnau, o mítico diretor do expressionismo alemão, responsável por obras-primas como Nosferatu (1922), A última gargalhada (1924), Fausto (1926) e Aurora (1927), seguiu caminhos trágicos após a conclusão das filmagens. Em 11 de março de 1931, uma semana antes da estreia de Tabu, Murnau morreu em um acidente de carro em Santa Mônica, Califórnia. Tinha 42 anos.  

“Após auxiliar Andre Roosevelt na produção do longa Kriss, em 1928, Walter Spies produziu um novo filme que ele gostaria de ter dirigido com Murnau em Bali, A ilha dos demônios. Após a morte de Murnau, o filme foi concluído, apresentando Bali como o paraíso que ele e Murnau sempre sonharam.  Posteriormente, Spies foi preso e acusado de homossexualidade e pederastia. Ele passou muitos anos na prisão. Em 1942, durante a Segunda Grande Guerra, o navio no qual ele havia sido deportado de Bali foi atingido por um torpedo próximo ao Ceilão. Spies morreu afogado tal como o herói Matahi, que no filme de Murnau morre afogado após lutar contra tabus religiosos e morais.” – extraído do documentário “Uma obra em criação”. 

Tabu (EUA, 1931), de F. W. Murnau. Com Matahi, Reri, Hitu, Bill Bambridge. Referência: Coleção Folha Grande Diretores do Cinema. F. W. Murnau – Tabu. Carlos Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

Onde está a liberdade?

A reunião entre Totó, dos mais famosos comediantes italianos, com Roberto Rossellini, pai do neorrealismo, resultou em um filme divertido e crítico da sociedade italiana. O barbeiro Salvatore Lojacono acaba de cumprir 20 anos de prisão por ter assassinado o amante de sua mulher. Sem conseguir se integrar à sociedade, ele tenta de tudo, inclusive indo aos tribunais para voltar para a prisão. 

Os momentos divertidos da trama se concentram na defesa própria que Salvatore faz no tribunal, tentando convencer os jurados que precisa voltar para a prisão, onde foi mais feliz. Durante a defesa, flaschbacks mostram sua vida na prisão e nas ruas, após a liberdade. Rossellini aborda questões como marginais que não conseguem se reintegrar à sociedade, mesmo após pagar por seu crimes; pessoas que transitam pela noite sem emprego na Itália do pós-guerra, marcada pelo individualismo; a falta de moradia; enfim, a Itália que tenta se reerguer das tragédias da Segunda Guerra Mundial, mas esquece de seus cidadãos mais necessitados. Roberto Rossellini filma tudo com a estética neorrealista, buscando o cotidiano da cidade, bem ao seu estilo quase documental. 

Onde está a liberdade (Dovè la libertà…?, Itália, 1954), de Roberto Rossellini. Com Toto (Salvatore Lojacono), Vera Molnar (Agnese), Andrea Compagnini (Nadino Torquati), Augusta Mancini (Teresa).