Os finais de Casablanca

Em 1942, a Segunda Guerra Mundial estava em momentos decisivos. A entrada dos Estados Unidos na guerra representou o ponto de virada, um ano antes. Soldados e mais soldados americanos desembarcavam na Europa e na Ásia. Hollywood também fazia a sua parte, produtores, diretores e atores participavam do esforço de guerra, produzindo filmes sobre o conflito, na tentativa de mostrar para o mundo a heróica luta dos aliados contra o nazismo. Neste contexto, foi lançado o filme que se tornou um dos maiores clássicos de todos os tempos: Casablanca (EUA, 1942), de Michael Curtiz.

Casablanca é uma mistura de thriller de espionagem e romance. Rick Blaine (Humphrey Bogart) é dono do Rick ‘s Bar, em Casablanca, no Marrocos, colônia francesa na África. O bar é freqüentado por oficiais locais que seguem ordens do comando nazista (o filme se passa na época da ocupação da França pelos alemães) e por uma legião de refugiados de guerra. Certa noite, Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e seu marido Victor Laszlo (Paul Henreid), importante líder da resistência francesa, entram no bar. Rick e Ilsa foram amantes em Paris, mas o romance terminou no momento da ocupação da França pela Alemanha. O encontro dos dois provoca lembranças, sentimentos e oferece ao público cenas e frases típicas do melodrama. Rick, bêbado, murmura para o copo, “De todos os bares do mundo, ela tinha que entrar no meu”Rick e Ilsa estão num bar, em Paris, quando os alemães invadem a cidade,  Ilsa desabafa, “O mundo desmorona e nós nos apaixonamos.”. Ela ouve estrondos ao longe e pergunta, abrigada no peito de Rick, “Foram tiros de canhão ou meu coração batendo?”.

Momentos que exemplificam o tom melodramático que fazia sucesso no cinema no início dos anos 40. Mas, ao contrário de diversos outros filmes do gênero, Casablanca nunca envelhece. Passa de geração para geração sempre com a aura e o glamour dos clássicos. É daqueles filmes em que tudo dá certo: uma história envolvente, uma música arrebatadora, o carisma do par de protagonistas centrais, a escolha acertada de diversos atores secundários, a direção precisa de Michael Curtiz e, principalmente, o final que deixou milhões de espectadores com o coração na mão. O filme representa a fase áurea de Hollywood que, mesmo em meio à tragédia da Segunda Guerra Mundial, conseguia produzir filmes que levavam esperança e humanidade ao espectador. O mundo desmoronava, mas era possível se apaixonar. 

“Gostávamos do faz-de-conta que o mundo era assim – rápido e cômico; esse faz-de-conta necessário para gostar dele e distinguir o bom filme comercial americano – o bom trabalho de Casablanca ou Uma aventura na Martinica (To Have and Have Not) – do filme de arte e outras artes. Era o melhor tipo de produto de Hollywood: resultado do trabalho de equipe de profissionais talentosos, muito bem pagos, que ganhavam seu sustento; e gostávamos dele como produto, e supúnhamos que os envolvidos nele gostavam do dinheiro que ganhavam.” – Pauline Kael.   

A história de Casablanca gira em torno de um triângulo amoroso que envolve nobres ideais da humanidade. Enquanto Victor Lazlo tenta a todo custo deixar Casablanca para continuar sua luta a favor dos aliados, Rick e Ilsa relembram os momentos vividos em Paris. Colocam em pratos limpos o final repentino do romance. Ilsa era casada com Victor, mas recebeu a notícia de que ele morrera ao tentar fugir do campo de concentração. Logo depois, ela conhece Rick em Paris e os dois se apaixonam. Vivem dias felizes, passeando pela cidade, frequentando o bar onde o pianista Sam (Dooley Wilson) toca As time goes by. Um belo caso de amor, até que os alemães invadem Paris. 

Temendo ser preso, Rick tem que deixar Paris. Ilsa iria com ele. No dia da fuga, ela descobre que o marido ainda estava vivo. Escreve uma carta de despedida para Rick, sem explicações. Rick recebe a carta numa manhã chuvosa na estação de trem de Paris. Sentindo-se enganado, parte em companhia do pianista Sam. 

Quando os dois se reencontram em Casablanca, reatam o caso. No entanto, Victor Lazlo e a guerra estão entre eles. Victor é personagem importante na luta pela resistência francesa e precisa fugir, a todo custo, de Casablanca. Rick tem em mãos dois salvo-condutos que podem ajudar o casal, mas reluta em entregá-los e ficar de novo sem a mulher que ama. Ilsa também não quer mais deixar Rick. Ela pede: “Pense por nós dois. Por todos nós.” 

Rick, então, arma um intrincado esquema para a fuga de Casablanca. Rende o Capitão Renault (Claude Rains), chefe da polícia local, e diz a Ilsa que vai usar os salvo-condutos para fugir com ela.   

“Victor pensa que partirei com ele. Você não contou a ele?” – pergunta Ilsa. 

“Não, ainda não.” – responde Rick.

“Está tudo certo?”

“Sim. Contaremos no aeroporto. Quanto menos tempo ele tiver para pensar, mais fácil será. Por favor, confie em mim.”

No aeroporto, ameaçados pela chegada do chefe da polícia nazista que tenta impedir a fuga, acontece a clássica despedida. Rick pede a Victor que leve as malas para embarque. Victor se afasta. Rick entrega os salvo-condutos para o Capitão Renault e pede que ele preencha os nomes.

“Os nomes são Sr. e Sra. Victor Laszlo.” – revela Rick. Quando ouve a determinação de Rick, Ilsa se assusta e acontece o antológico diálogo:

“Mas por que meu nome?” – pergunta Ilsa. 

“Você vai partir.” – responde Rick. 

“E você?”

“Fico com Renault.”

“Não! O que houve? Combinamos.”

“Ontem, você disse para pensar por nós dois. Deve partir no avião com Victor …”

“Richard, não!”

“Sabe o que aconteceria se você ficasse aqui? Iríamos para um campo de concentração.”

“Você quer que eu vá embora.”

“Ambos sabemos que você pertence ao Victor. É parte do seu trabalho ..”. 

“E nós?”

“Nós sempre teremos as lembranças de Paris …”

“E eu disse que nunca deixaria você.”

“Não deixará. Mas tenho trabalho a fazer […] Não tenho sentimentos nobres, mas nossos problemas são pequenos neste mundo louco. Algum dia entenderá. Boa sorte para você.”

Victor se aproxima. O avião liga as hélices. Rick e Ilsa trocam o último e terno olhar. Na sequência, o Capitão Renault também faz seu gesto nobre. Rick mata o chefe da polícia nazista e Renault manda seus subalternos “prenderem os suspeitos de sempre”. Os dois, agora amigos, terminam o filme caminhando pelo aeroporto.  

Das diversas histórias que se contam a respeito do filmedizem que os roteiristas (os gêmeos Julius e Philip Epstein, com a colaboração de Howard Koch) escreviam a história durante as filmagens. O crítico de cinema Sérgio Augusto discutiu o assunto em ensaio.

“Nem assistido por tanta gente o roteiro conseguiu ficar pronto antes do início das filmagens. E nem durante. Ia chegando aos poucos, razão pela qual Curtiz teve de rodar Casablanca na ordem direta. Os atores, a maioria egressa do teatro, acostumada portanto, a crescer com o papel, saíram ganhando. A certa altura, porém, Bergman exigiu que lhe dissessem nos braços de quem Ilsa, afinal, acabaria. ‘É fundamental para a minha interpretação que eu saiba por quem ela está apaixonada’, ponderou a atriz. ‘Ainda não está decidido como será o final’, respondeu Koch. E assim foi até o último dia.” – Amir Labaki

Ingrid Bergman comentou: “Era ridículo, horrível. Todos os dias filmávamos de improviso. Todos os dias nos entregavam diálogos e tentávamos pôr algum sentido naquilo. Ninguém sabia o rumo do filme” – Otto Friedrich

Parece que todo mundo estava em dúvida quanto ao final. Os roteiristas de Casablanca utilizaram a prática comum no cinema de escrever finais diferentes. Foram escritos três finais. Rick fica sozinho e é preso. Rick fica sozinho, mas não é preso. Rick fica com Ilsa. Segundo Ingrid Bergman, a decisão do estúdio era filmar pelo menos dois finais. 

“Eles não conseguiam decidir se eu ia viajar com meu marido ou ficar com Humphrey Bogart. Então, a primeira versão que filmamos foi aquela em que me despeço de Humphrey Bogart e sigo com Paul Henreid. E todos disseram: ‘Pronto! É isso aí! Não precisamos de outro final.” – Otto Friedrich.  

Para testar o filme, um público foi convocado em Huntington Park e diversos espectadores escreveram no formulário que o final não tinha ficado muito claro. Não entenderam se Rick e o Capitão Renault iam ser presos. O chefe do estúdio ordenou que se escrevesse uma nova cena, na qual os dois escapariam de Casablanca num cargueiro. Esta cena também não foi filmada. 

Mesmo temendo reação negativa do público diante do final anti-convencional, os produtores do filme acabaram decidindo por deixar o final como estava. “Romances com finais felizes são comuns na Hollywood de ontem e de hoje. Casablanca contrariou a norma e o mocinho não acabou com a mocinha” – Amir Labaki.  

Durante a Segunda Guerra Mundial, diversos filmes foram produzidos com a clara intenção de mobilizar o mundo em favor dos aliados. Casablanca é o melhor exemplo deste período,  pois mistura espionagem e melodrama, tem doses de bom humor, explora o sentimentalismo embalado por um retumbante sucesso musical (As Time Goes By). O filme alcançou em cheio seus objetivos e emocionou o mundo. Neste contexto, o final patriótico, Rick e Ilsa abrindo mão de seus sentimentos em favor da resistência, era coerente com o espírito da época. Segundo Heitor Capuzzo, “se há a lenda de que os realizadores não sabiam a conclusão ideal para a trama durante as filmagens, não há como imaginar outro final. Há muitos indícios de que o casal permanecerá separado.”   

Um final que permanece no imaginário de milhões de espectadores, como a lembrar de um tempo só possível no cinema, marcado pelo estouro de balas de canhões, corações batendo peito a peito e um apaixonado olhar de adeus. 

Referências:

Alfred Hitchcock: o cinema em construção. Heitor Capuzzo. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES, 1993. 

Cidade das redes. Otto Friedrich. São Paulo: Companhia das Letras, 1988

Criando Kane e outros ensaios. Pauline KaelRio de Janeiro: Record, 2000

Folha conta 100 anos de cinema. Amir Labaki. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1995

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