Meu tio

O filme abre com cães correndo livremente pelas ruas de Paris. Um dos cães, dachshund vestido com manta escocesa, passa por baixo do portão e entra em casa: a moderna e futurista casa da família com quem mora. Os mesmo cães são vistos no final do filme, fazendo exatamente a mesma coisa: correndo pelas ruas, felizes com a liberdade. 

Com imagens assim, simples situações do cotidiano, Jacques Tati não deixa dúvidas sobre o tema de Meu Tio: a família Arpel se entrega ao fascínio do modernismo, representada pela casa que beira o ridículo com seu ambientes, móveis e eletrodomésticos  nada aconchegantes ou habitáveis; enquanto o Sr. Hulot vive em um bairro simples, onde um varredor de rua sempre se esquece de usar a vassoura pois conversa com cada um que passa. Uma das sequências antológicas do cinema é quando o Sr. Hulot entra em seu prédio:

“Jacques Tati é o grande filósofo faz-tudo da comédia, que toma cuidado meticuloso em organizar seus filmes de modo a exporem uma série de revelações e deleites aparentemente sem esforço. Examinemos uma das cenas iniciais de Meu tio, quando a câmera observa o exterior do prédio onde Hulot, o personagem de Tati, vive em um quarto sob o telhado. À primeira vista, parecem dois prédios vizinhos e Hulot entra no andar térreo de um deles. Mas, à medida que sobe as escadas, vislumbramos-lhe o corpo e as pernas, a cabeça ou os sapatos através de uma série de janelas, portas e corredores, revelando que os dois edifícios são interligados. Quando afinal ele chega ao último andar, desaparece e não ressurge onde seria de se esperar, mas sim no outro lado da tela.” – Roger Ebert

A sequência representa o perfeito domínio que Jacques Tati tinha do espaço cênico, criando gags através de referências visuais, praticamente sem diálogos, usando o som dos objetos em cena em momentos precisos. A casa futurista aprisiona seus moradores na formalidade, nas aparências que a sociedade exige. As ruas, para onde o cão foge, assim como o menino Arpel que anseia pela chegada do tio para se entregar à vida deliciosamente mundana das crianças. Só mesmo as ruas e só mesmo a genialidade de Jacques Tati são capazes de criar a gag do assobio das crianças que desviam a atenção dos pedestres, levandos-os ao encontro do poste.  

Meu tio (Mon oncle, França, 1958), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Jean Pierre Zola, Adrienne Servantie, Alain Bécourt.

Referência: Grandes filmes. Roger Ebert. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

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