As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco

É o quarto filme centrado nas aventuras, ou desventuras, do Sr. Hulot, inesquecível personagem criado e interpretado por Jacques Tati. Dessa vez, ele enfrenta o trânsito em viagem tresloucada de Paris a Amsterdã. O Sr. Hulot é projetista de uma pequena fábrica de automóveis (esse é um dos fascínios do personagem, nunca se sabe exatamente quem ele é ou o que ele faz, ele simplesmente se adapta às ideias de seu criador). Ele desenvolve um carro-acampamento que deve ser transportado de caminhão para uma feira de automóveis em Amsterdã. 

Mais uma vez, Jacques Tati centra suas lentes críticas e irônicas na direção da modernidade, agora o alvo são os automóveis. Em entrevista, o diretor disse que pensou no filme observando como a personalidade das pessoas muda quando estão dentro de seus carros. Depois do lançamento do filme, Tati inclusive se juntou a grupos ativistas em passeios de bicicletas para protestar contra a invasão dos carros nas cidades, em detrimento de pedestres. 

A crítica é o pretexto para as divertidas gags protagonizadas pelo Sr. Hulot em meio ao trânsito louco. A marca visual de Jacques Tati continua inovadora, em sequências que reforçam o poder das imagens no cinema, com destaque para a série de acidentes de carros em um cruzamento e a composição estética dos carros em uma tarde de chuva, quando motoristas e passageiros se integram ao movimento dos limpadores de pára brisas. 

As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco (Trafic, França, 1971), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Maria Kimberly, François Maison Grosse. 

Os finais alternativos de Blade runner

Blade runner – O caçador de androides (Blade runner, EUA, 1982), de Ridley Scott, foi praticamente ignorado pela crítica na estreia. A maioria dos especialistas elogiou apenas seus aspectos plásticos. Ridley Scott levou para o cinema a experiência adquirida como diretor de publicidade, aliando a linguagem ágil da TV com um requintado apuro fotográfico e técnico. Indiferente à crítica, o público colocou o filme no status de cult movie, criando fãs-clubes, transformando-o em objeto de pesquisas acadêmicas e elaborando infindáveis discussões acerca dos vários finais.

Nos anos seguintes à estreia, o filme foi relançado com substanciais modificações. A versão em VHS trouxe cenas adicionais. Em 1992, comemorando dez anos de lançamento do filme, Ridley Scott remontou o filme, utilizando cenas excluídas e apresentando uma versão alternativa do final: Blade runner: versão do diretor (Blade runner: the director’s cut). 

Baseado no romance Do androids dream of electric sheep? (1969), de Philip K. Dick, o cenário do filme é a Los Angeles de 2019. Uma chuva interminável e ácida cai sobre a cidade, iluminada por néon e faróis de veículos que cruzam os céus, passando por gigantescos painéis publicitários. Multidões caminham pelas ruas, se espremem em bares, restaurantes e nunca veem o sol – a cidade está num estágio de total degradação ambiental. A população, formada por etnias, raças e culturas variadas, fala um dialeto estranho que oscila entre o inglês, chinês, espanhol e outras línguas. Em meio a este caos, desembarcam quatro replicantes, androides idênticos aos humanos, quase impossíveis de serem reconhecidos. Foram criados para servir ao homem em perigosas missões espaciais, mas se rebelaram e fugiram para a Terra. Deckard (Harrison Ford), um blade runner, é encarregado de matar os quatro replicantes. Em sua busca, ele encontra uma quinta replicante, Rachael (Sean Young), por quem se apaixona. No entanto, suas ordens são claras: todos os replicantes devem ser exterminados. 

Blade runner é um misto de ficção científica, policial e filme de ação, miscelânea de gêneros cinematográficos que domina a produção americana a partir dos anos 70. Deckard persegue e mata os replicantes, até o clássico duelo com Roy (Rutger Hauer). Após o confronto, Deckard volta para o seu apartamento, onde Rachael o espera para fugirem. Deckard está apaixonado e se recusa a eliminá-la, mesmo recebendo ordens claras de executar todos os replicantes. 

O filme trata de questão cara para os humanos e, ao que parece, para os replicantes: longevidade e mortalidade. A versão do diretor deveria ser o filme lançado originalmente, na década de 80. Mas o tom de policial futurista com abordagens psicológicas e filosóficas não agradou aos produtores. Após uma série de exibições-testes, os executivos do estúdio consideraram o filme “sombrio, deprimente e confuso”. Exigiram mudanças, cobraram um final feliz.

Atendendo às exigências, Ridley Scott cortou algumas cenas e refilmou outras. As principais alterações, feitas para a versão lançada comercialmente no início dos anos 80, foram:

1. Narração em off de Deckard é inserida, o filme passa a ser narrado na primeira pessoa. Harrison Ford foi chamado para fazer a narração depois de seu trabalho concluído e, a princípio, se recusou a gravá-la. Pressionado, acabou cedendo, fazendo a narração num tom desinteressante e frio. As alterações do filme foram, inclusive, motivo de discórdia entre Ford e o diretor Ridley Scott. Em entrevista à Folha de São Paulo (novembro de 2000), o ator demonstra sua indignação: 

“Não fui um grande fã do filme. Faço um detetive que não investiga. Abro quatro portas (risos). Fui obrigado a fazer aquela narração ridícula. O primeiro roteiro que recebemos tinha uma narração muito longa. Eu disse que aquilo atrapalhava a participação do público. Vamos pegar as informações da narração e colocá-las dentro das cenas. Mostre, não conte. Trabalhamos nisso com um roteirista por três semanas dentro da minha mesa de cozinha e muito pouco disso restou. O filme é um exercício de ‘design’, espetacular para olhar, mas sem apelo emocional.” – Amir Labaki. 

2. Deckard está em seu apartamento. Ele toca piano, adormece e sonha com um unicórnio. Esta cena foi retirada da versão comercial, lançada nos anos 80. A retirada do “sonho com o unicórnio” torna sem sentido uma das cenas finais do filme. O policial Gaff tem o hábito de fazer origamis e deixá-los por onde passa. No final do filme, quando Deckard e Rachael estão fugindo do apartamento, Deckard encontra um origami de unicórnio no chão do apartamento (esta cena foi mantida nas duas versões). Assim, ele sabe que Gaff esteve ali e  a poupara. Mas porque um unicórnio? Segundo o Dr. Tyrell, os replicantes têm memória implantada. O origami do unicórnio simboliza que Gaff sabia dos sonhos de Deckard. Portanto, está aberta a possibilidade do blade runner ser um replicante. Ao retirar o sonho da versão comercial, Ridley Scott e os produtores eliminaram esta possibilidade de conclusão para o público. 

3. A principal modificação pedida pelos produtores foi um final feliz para o filme. A versão do diretor termina com Deckard e Rachael entrando no elevador. A porta se fecha. Fade-out. Na versão comercial, os dois entram no elevador. A porta se fecha. Corta para cena de uma estrada. Deckard está dirigindo, com Rachael ao lado. Ao fundo, montanhas, o sol, não há mais a chuva ácida de Los Angeles. A estrada é bela e ensolarada. Ouve-se a voz de Deckard, relatando o que o Dr. Tyrell revelara. Rachael tinha tempo de vida indeterminado. As cenas da estrada foram feitas com sobras do filme O iluminado (The shining, EUA, 1980), de Stanley Kubrick. Enquanto dirige pela bela paisagem, Deckard revela que ela não era uma replicante comum, com apenas cinco anos de existência. Como os humanos, ela não sabia o seu tempo de vida. O tom pessimista dá lugar ao otimismo, à beleza da paisagem, ao amor. Happy-end. 

O final feliz difere, inclusive, do romance de Philip K. Dick, em que o filme é baseado. “No texto de Dick, não há happy-end” – Amir Labaki.

Ridley Scott chegou a cogitar outras versões para o final. Uma versão mostra os dois fugindo de automóvel do policial Gaff. Em outras, Rachael se mata ou é morta por Deckard. No entanto, o diretor afirmou em entrevistas que o verdadeiro final é o que consta da versão do diretor. 

O relançamento de Blade runner em 1992, com vinte minutos a mais de cenas e final diferente, aconteceu graças a John Rendall, na época um estudante de 23 anos. Ele pesquisou durante três meses os arquivos da Warner e encontrou as cenas cortadas do filme original. Entrou em contato com o diretor e nasceu assim a ideia do que hoje é prática comum: lançar a versão do diretor.  Em alguns casos, apenas estratégia de marketing, fornecendo ao espectador benefício para consumir um “novo filme.”. Em outros, como em Blade runner, a possibilidade do diretor resgatar um clássico e afirmar quem é o verdadeiro autor no cinema. 

ReferênciaFolha conta 100 anos de cinema. Amir Labaki (org.) Rio de Janeiro: Imago Editora, 1995.

Atração fatal: as duas mortes de Alex Forrest

Robert Altman cita no filme O jogador (The player, EUA, 1992) um caso famoso do cinema da década de 80: o novo final de Atração fatal, gravado após uma exibição de pré-teste. Em O jogador, produtores de cinema estão conversando sobre o final do filme.

“Quem escreveu o novo final de Atração fatal? O público”

“Há milhões de escritores e o público o escreveu.”

“Não se pode prever como seria com o final original. Mas sabemos que a bilheteria mundial foi de US$ 300 milhões com o final escolhido no teste.”

Atração fatal (Fatal attraction, EUA, 1987), de Adrian Lyne, aborda conseqüências da infidelidade. O advogado Dan Gallagher (Michael Douglas) é casado. Enquanto a mulher e a filha passam um final de semana fora, ele tem um caso com Alex Forrest (Glenn Close). O romance de fim de semana se transforma numa obsessão sem limites. Alex Forrest se revela psicótica e, quando descobre que o amante ocasional não quer mais nada com ela, passa a perseguir Dan e sua família.

Em uma sequência famosa, Alex mata o coelho da filha do casal, colocando-o para “ferver” na panela na cozinha da casa. Depois, seqüestra a garota, passando uma tarde com ela no parque de diversões. A mãe, desesperada, sai de carro em busca da filha e acaba sofrendo acidente de trânsito. Alex devolve a filha, mas Dan, furioso, vai até a casa da ex-amante. Os dois brigam, Dan começa a estrangular Alex, mas desiste a tempo. Alex pega uma faca de cozinha e investe novamente contra Dan, tentando matá-lo. Dan consegue dominá-la, tira a faca de suas mãos e vai embora.

No final original, após esta cena, Alex Forrest coloca a ópera Madame Butterfly para tocar, pega a faca de cozinha que Dan deixara em cima da mesa, senta-se calmamente no banheiro e, ao som da música, corta o próprio pescoço (edição especial em DVD do filme traz este final como bônus). Cena forte, selando o trágico destino dos dois amantes: o suicídio incrimina Dan – ele acabara de ter uma violenta briga com a vítima e deixara suas impressões digitais na faca.

Stanley R. Jaffe, produtor do filme, declara que “este final era inteligente, arriscado e brilhante. Mas o público não gostou.” O filme foi testado em Seattle, São Francisco e Los Angeles. Observações dos principais envolvidos com Atração Fatal sobre o comportamento do público durante as sessões de testes:

“Era evidente que estavam desconfortáveis e insatisfeitos.” – Anne Archer, que interpretou a mulher de Dan.

“Chegava a um ponto que a gente sentia que o público não estava satisfeito.” – Sherry Lansing, produtora do filme.

“O final parecia trivial. O filme funciona perfeitamente até os 15 minutos finais.” – Adrian Lyne.

“Nas exibições, quando a Anne Archer pega o telefone e diz para Glenn Close: ‘Aproxime-se da minha família de novo e eu a mato ouviu?’, o público estourava, queria vingança.” – Stanley R. Jaffe, produtor.

“Sabíamos que o público queria que a Anne defendesse a sua família. Sabíamos que queriam que a Glenn Close morresse.” – nova opinião da produtora Sherry Lansing.

Após as exibições testes, Adrian Lyne conversou com os produtores e decidiram por um novo final.  A idéia não agradou a Glenn Close: “Pensei que fosse piada quando o Stanley me ligou e disse, ‘vamos refilmar o final’. Para mim, o fim da personagem era aquele. É como muitas personalidades assim terminam. Matam-se.” Depois de se recusar durante semanas a fazer o novo final, ela acabou cedendo e participou das gravações.

O novo final começa a partir do momento em que Dan deixa a faca de cozinha em cima da mesa, após a briga no apartamento de Alex. Transtornada, a amante vai até a casa de Dan e surpreende a mulher dele no banheiro. Tem início uma violenta briga entre as duas, Alex está com a faca e tenta matar a rival. A sequência é violenta, marcada pelo suspense, pelo inevitável, terminando com a famosa cena da banheira.

Michael Douglas declarou que ninguém podia prever a raiva que o público passou a sentir de Alex Forrest. Os produtores e Adrian Lyne satisfizeram o público, oferecendo-lhes um final de vingança e ódio. Com um final mais “acessível”, Atração fatal arrecadou mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias, foi indicado a nove Oscars (apesar de não ganhar nenhum) e a dupla de personagens principais, Michael Douglas e Glenn Close, virou capa da revista Time.

As interferências no filme trazem ainda uma discussão: mudou-se o final, mas as pistas deixadas pelo roteirista e pelo diretor, que conduzem a narrativa para o caminho planejado, permaneceram. Em uma cena no início do filme, Dan Gallegher e Alex Forrest, ainda amantes, acabam de chegar do parque e estão na cozinha. Estão ouvindo Madame Butterfly. Dan diz que é sua ópera favorita, a viu pela primeira vez na companhia do pai, quando criança. E completa: “Era a história de um marinheiro indo morar com uma japonesa. Até aí, tudo bem. Mas, no ato final, quando ele a deixa, meu pai me disse: ‘ela vai se matar.’ Fiquei aterrorizado. Fui parar debaixo do assento.” – Dan para de falar, presta atenção na música e diz “É agora. É agora.” – a seguir, comenta que aquela foi uma das poucas vezes em que o pai foi delicado com ele. Depois, sai de quadro. Close no rosto de Alex, bebendo vinho tinto e ouvindo, deslumbrada, o ato final da ópera.

É uma pista, a preparação para o ato final de Alex Forrest, que foi cortado do filme, Depois que Dan a deixa, saindo do apartamento, ela se mata ouvindo Madame Butterfly. Assistir a um filme é juntar peças, participar da narrativa. Atração fatal, com o final desejado pelo público pode ter sido um sucesso de bilheteria, mas para os cinéfilos mais atentos, fica a impressão de que alguma peça está faltando.

Referências: extras do DVD.

Você nunca esteve realmente aqui

O filme traz mais um personagem que vez por outra domina narrativas: assassino de aluguel atormentado pelo passado, no caso de Joe, ex-combatente imerso nas memórias cruéis da guerra. No entanto, Joe aluga seus implacáveis tiros por causa nobre: resgatar menores das mãos de pedófilos, executando-os. 

A trama se complica quando Joe se vê envolvido numa intrincada rede de pedofília envolvendo políticos americanos. Ao resgatar a criança Nina dessa rede, a violência explode em sequências sanguinárias e dolorosas.

Joaquin Phoenix ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes (também prêmio de melhor roteiro para Lynne Ramsay). Sua atuação visceral apresenta um personagem que caminha irreversivelmente para a tragédia pessoal, sufocado pela realidade, pelas memórias, pelo destino, como drogas que dominam seu corpo e sua mente. 

Você nunca esteve realmente aqui (You were never really here, EUA, 2017), de Lynne Ramsay. Com Joaquin Phoenix (Joe),  Ekaterina Samsonov (Nina), Alex Manette (Albert voto). 

High life – Uma nova vida

Grupo de criminosos, todos condenados à morte ou prisão perpétua, aceita participar de exploração espacial. O destino da nave é encontrar um buraco negro nos confins da galáxia. O filme é contado sob o ponto de vista de Monte (Robert Pattinson) que no início da trama está sozinho na nave com uma bebê. Narrativa em flash back elucida o destino dos outros tripulantes. 

O olhar da diretora Claire Denis se volta para os instintos que dominam homens e mulheres enclausurados, cujo passado violento aflora e precisa ser controlado através do uso de drogas. Os tripulantes são manipulados pela inescrupulosa médica Dibbs (Juliette Binoche), cujo crime que cometeu, segundo ela mesma, é o único digno do nome. O final enigmático faz referência clara ao maior filme de ficção científica de todos os tempos: 2001 – Uma odisséia no espaço.  

High life – Uma nova vida (High life, EUA, 2018), de Claire Denis. Com Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin. Mia Goth, Agata Buzek.