Um assunto de mulheres

Segunda guerra mundial. Em pequena cidade do interior da França ocupada, Marie cuida de seus dois filhos pequenos enquanto seu marido está em combate. Ela é bem sucedida ao ajudar sua vizinha a fazer um aborto. Quando seu marido é dispensado devido a ferimentos, Marie tem que se virar para sustentar a família e passa a ganhar dinheiro com abortos e com aluguel de um quarto para a amiga prostituta receber seus clientes. 

Isabelle Huppert foi premiada em festivais pelo desempenho como a jovem impetuosa e inconsequente que tenta não apenas sobreviver, mas ascender socialmente durante a guerra com atividades clandestinas. Não se vê como delinquente, é apenas seu modo de ganhar a vida e ajudar as mulheres. Em contrapartida, seu marido fecha os olhos para tudo, aceitando sem questionar o dinheiro de Marie. A crueldade e hipocrisia da guerra afloram no final, quando os homens decidem que Marie deve ser punida exemplarmente, enquanto eles mesmos enviam e executam crianças judias nos campos de concentração. 

Um assunto de mulheres (Une affaire de femmes, França, 1988), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Marie Latour), François Cluzet (Paul), Nils Tavernier (Lucien), Marie Brunel (Ginette).  

A voz da lua

É o último filme do grande Fellini. Sua despedida do cinema segue as marcas que deixou em uma das mais brilhantes filmografias da história do cinema: sonho, fantasia, surrealismo, atmosfera circense, personagens que transitam pelo mundo como se navegassem por outras dimensões.

Ivo Salvini (Roberto Benigni) ouve vozes à noite, imaginando que um poço conversa com ele. Enquanto os outros personagens se entregam aos prazeres mundanos, como ver pela janela uma mulher se desnudando, Ivo vive entre o seu passado e as ilusões do presente, ou seja, no mundo da lua. Ele é guiado pela poesia, pelas imagens oníricas de um mundo que talvez só exista em sua mente e coração, se revela dessas pessoas únicas capazes de ouvir a voz da lua.  

A voz da lua (La voce della luna, Itália, 1990), de Federico Fellini. Com Roberto Benigni, Paolo Villaggio, Nada Ottaviani. , 

Ameaça profunda

A premissa do filme fascina e aterroriza: o desconhecido que habita as profundezas do mar pode despertar pela cobiça dos homens. Empresa constrói uma torre de acesso a onze mil metros de profundidade, com fins aparentemente de pesquisas. Logo nas primeiros momentos da narrativa, a estação não aguenta a pressão e tem 70% de suas instalações destruídas. Grupo de seis sobreviventes tem que descer até o mais fundo do mar em busca de cápsulas de ejeção para a superfície. 

Kristen Stewart é a estrela do filme. Nora, sua personagem, guia o grupo ao lado do capitão da estação. Seus cabelos curtos e descoloridos, seu físico esguio, sua personalidade frágil e ao mesmo tempo destemida, representa o estranho que tenta se adaptar a ambientes hostis, onde a luta pela sobrevivência é a única alternativa. 

Ameaça profunda (Underwater, EUA, 2019), de William Ewbank. Com Krister Stewart, T. J. Miller, Jessica Henwick, Vicente Casel.

Vision

Jeanne (Juliette Binoche), ensaísta e jornalista francesa, viaja a uma floresta do Japão. Seu objetivo é encontrar Vision, erva medicinal rara que floresce a cada 997 anos, espalhando esporos capazes de curar a angústia espiritual da humanidade. Durante a viagem, ela conhece Tomo (Masatoshi Nagase), solitário caçador que mora na floresta. 

O filme é uma viagem imagética pela misteriosa floresta, a narrativa oscilando entre o presente e memórias dos personagens que caminham para o encontro com vision. Quando um terceiro e misterioso personagem entra em cena, Jeanne se entrega cada vez mais às memórias, à sua própria angústia. A direção de fotografia emoldura cada frame da bela floresta, como se fossem visões da beleza desse mundo místico, que exige de nós a contemplação e a entrega espiritual, sem buscar explicações.  

Vision (Japão, 2019), de Naomi Kawase. Com Juliette Binoche, Masatoshi Nagase, Mirai Noriyama.

A despedida

Billi (Awkwafina) está conversando com sua avó Nai Nai (Zhao Shuzhen) ao telefone. Ela mora em Nova York, a avó em Pequim, as duas têm uma íntima relação apesar da distância. Nessa ligação, Billie ouve sons estranhos, pois Nai Nai está em uma clínica esperando resultados de seu exame. O diagnóstico é câncer terminal no pulmão.

A partir da notícia, que só Nai Nai não fica sabendo, a família se reúne uma última vez em Pequim para a despedida. O medo de todos é a jovem impetuosa Billi, que não consegue esconder suas emoções, revelar à avó o motivo da reunião. 

O tom de comédia da narrativa discute temas importantes relacionados à família que se distancia. Billie mora com os pais em Nova York, tenta sem sucesso uma bolsa de estudos na Universidade. Ainda dependente dos pais, Billi se sente cobrada e sem rumo em um país estranho que roubou sua identidade: ela nem mesmo domina mais a língua chinesa. Seus tios e primo moram no Japão, também em busca de alternativas. O choque das culturas assimiladas é marca forte da narrativa, quando a família se reúne em volta da carinhosa e independente Nai Nai não sabem mais como lidar com a partida iminente. No final do filme, impossível não se entregar às imagens da China cosmopolita, moderna, vista pelos olhos de Billi de dentro do carro ao som da belíssima trilha sonora. 

Três verões

O primeiro verão acontece em 2016 (ano do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff), em pleno funcionamento da Operação Lava Jato. O cenário é uma luxuosa casa à beira-mar em Angra dos Reis. O empresário Edgar e sua mulher Marta recebem familiares e convidados para as festas de final de ano. Madalena, caseira do local, organiza tudo com dedicação e bom-humor. 

Os dois verões seguintes se passam no mesmo local, com reviravoltas que refletem a realidade brasileira da elite envolta em esquemas de corrupção e os trabalhadores da luxuosa mansão tentando sobreviver. Madalena é envolvida inconsequentemente pelas investigações da polícia, enquanto alimenta sonhos utópicos de simplesmente ter um quiosque de quitutes na beira da estrada.

Regina Casé, como sempre, conduz a narrativa com talento. Madalena busca alternativas para cuidar de todos os empregados da casa e de Seu Lira, pai de Otávio.  Destaque para a revelação de Madalena em frente à câmara, expondo com profunda tristeza a realidade de cidades como Angra dos Reis, dividida em ilhas paradisíacas, mansões e iates luxuosas, e os morros que abrigam a pobreza, onde moradores saem de casa sem saber o que vão encontrar na volta. 

Três verões (Brasil, 2019), de Sandra Kogut. Com Regina Casé (Madalena), Otávio Muller (Otávio), Gisele Fróes (Marta), Rogério Fróes (Seu Lira). 

A odisseia dos tontos

No início do filme, Fermin (Ricardo Darín) está com sua esposa e o amigo anarquista em frente à um galpão abandonado, localizado em pequena província de Buenos Aires. Fala sobre seu projeto: comprar o galpão e construir uma cooperativa que beneficie todos os moradores da cidade. Seu amigo pergunta se aquele é um bom momento, Firmin diz que é o melhor momento. Lettering indica: Argentina, 2001. 

É o ano de uma das maiores crises financeiras da história da Argentina, quando o governo apelou para o confisco do dinheiros dos cidadãos. Firmin parte em uma jornada pela cidade, arrecadando dinheiro entre os moradores interessados que raspam suas economias para investir no projeto. A primeira reviravolta acontece quando tudo o dinheiro é depositado em uma conta bancária, na véspera do confisco. 

Baseado no livro La noche de la usina, de Eduardo Sacheri, a trama provoca algumas reviravoltas, principalmente quando o grupo dos tontos descobre que foi ludibriado pelo gerente do banco e um inescrupuloso advogado. Buscando justiça, os tontos, liderados por Firmin, partem em uma série de atos para recuperar o dinheiro. Drama e humor mesclam a narrativa, pontuada pela crítica aos planos de governos (a exemplo do Brasil de Collor) que favoreceram a elite que, claro, são informadas antes das ações, e jogam as classes menos favorecidas no poço sem fundo. Ricardo Darín é a grande estrela do filme. 

A odisseia dos tontos (La odisea de los giles, Argentina, 2019), de Sebastián Borensztein. Com Ricardo Darín, Luis Brandoni, Verónica Llinás,Andrés Parra, Carlos Belloso, Chino Darín, Daniel Aráoz.

As cenas adicionais de Contatos imediatos do terceiro grau

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, EUA, 1977), de Steven Spielberg, é um dos filmes de maior bilheteria da história do cinema. Com enredo otimista, o filme é repleto de belos efeitos visuais, principalmente a seqüência final, quando a nave-mãe aparece. A seqüência em que o filho de Gil é levado pelos alienígenas é outro momento alto do filme. Mãe e filho, sozinhos em casa, se deparam com objetos, brinquedos e eletrodomésticos que ganham vida dentro da casa. A criança está deslumbrada, a mãe, assustada, conceito que Spielberg desenvolveria com ternura em E.T: só o olhar da criança consegue se sensibilizar com os alienígenas.

Contatos imediatos inaugura no cinema a ideia de relançar filmes com cenas adicionais. Steven Spielberg comenta, na edição especial lançada em DVD, que tentou convencer a Columbia a “me deixar terminar o filme como eu queria. Mas eles tinham problemas financeiros em 1977 e precisavam do filme no natal. A empresa estava em jogo e eles contavam com aquele filme”. Spielberg terminou o filme, mas ficou insatisfeito com determinadas cenas.

O sucesso nas bilheterias motivou Spielberg a procurar a produtora, cerca de um ano e meio depois. “Pedi que me deixassem terminar o filme, remontar certas cenas e filmar mais algumas seqüências. Eles disseram: ‘Nós damos o dinheiro, um milhão e meio de dólares, mas mostre a nave-mãe por dentro’. Queriam um gancho para a campanha”. – explica o cineasta.

Steven Spielberg concordou. Refez e incluiu as seguintes  cenas: o cargueiro Cotopaxi, achado no deserto; Roy Neary (Richard Dreyfuss) está sentado na banheira de sua casa, completamente vestido, deixando a água do chuveiro cair sobre ele; a sombra de uma espaçonave encobre a caminhonete de Roy.

Por fim, atendendo à exigência da Columbia, ele filmou cenas adicionais, mostrando Roy Neary no interior da espaçonave.

Com as cenas acrescentadas e o novo final, Contatos Imediatos abriu para o espectador a possibilidade de assistir, cerca de três anos depois, a um novo filme. No entanto, no depoimento que gravou para a edição lançada em DVD, Steven Spielberg reconhece o erro. “Eu cedi à Columbia e mostrei Richard Dreyfuss dentro da nave-mãe, o que eu nunca deveria ter feito. O interior devia ser um mistério.” A relação de desapontamento de Spielberg com o filme vai ainda mais longe.

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau é uma odisséia idealista e meiga sobre um homem que larga tudo para perseguir seus sonhos ou obsessões. Em 1997, eu jamais faria o filme como o fiz em 1977, pois agora tenho uma família que eu nunca abandonaria. Nunca os expulsaria para fazer uma montanha na sala de estar, muito menos entraria numa nave para nunca mais voltar. Esse é só um privilégio da juventude. Esse é um filme que me data no qual posso olhar para trás e ver como eu era há 20 anos e me comparar com o que sou agora.”

Steven Spielberg ajudou a definir a política dos estúdios com relação à indústria do entretenimento. A partir dos anos 80, com a revolução da indústria caseira de cinema (VHS, DVD, Blu-ray, streaming…) relançar filmes com cenas adicionais, novos finais, cenas excluídas, making-off , virou lugar comum. Em casa, o espectador tem em mãos, muitas vezes, um novo filme. No entanto, nada substitui o fascínio da primeira sessão no cinema, aquela sensação do olhar deslumbrado em naves espaciais colorindo o céu e a imaginação dos amantes da sétima arte.

REFERÊNCIA

Extras do DVD. Columbia Pictures. 

Salve-se quem puder (a vida)

Com sugestões autobiográficas, Salve-se quem puder apresenta Paul Godard, diretor de cinema às voltas com a realização de um filme e o relacionamento com sua namorada, Denise, que resolve se mudar para o campo. Entre os dois, surge a prostituta Isabelle, que teve Paul como antigo cliente. A narrativa é dividida em três partes, cada uma centrada em um personagem: O imaginárioO medo e O comércio.

O tom anárquico, criticamente sem escrúpulos sobre a sociedade, está presente em imagens perturbadoras. Em uma sequência, Isabelle atende a um empresário em seu escritório que a faz participar de orgia comandada por ele como quem dirige seus trabalhadores na linha de montagem. O cinema também não escapa ao olhar mordaz de Godard, a reflexão se interpõe durante a narrativa, abordando a indústria e os próprios caminhos do cineasta. 

“Salve-se quem puder é um filme sobre escolhas, mas também sobre a dificuldade de ser livre por meio delas (‘Ninguém no mundo é independente. Apenas os bancos são independentes. Mas os bancos são assassinos’). É, ao mesmo tempo, um filme sobre o isolamento e sobre a necessidade do outro, num mundo tomado pela lógica absurda do capitalismo. À sua maneira contemplativa e quase naturalista, a fotografia de W. Lubtchansky e R. Berta constrói o retrato melancólico desse novo mundo. O espectador pode sentir assim a emoção contraditória desse pessimismo, dessa falta de perspectiva em torno das coisas, que reina à espera de que algo novo comece, ou de que um resto de beleza apareça.” – João Dumans

Salve-se quem puder (a vida) (Sauve qui peut (La vie), França, 1979), de Jean-Luc Godard. Com Jacques Dutronc (Paul Godard), Isabelle Huppert (Isabelle), Nathalie Baye (Denise Rimbaud).

Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo da mostra sobre Godard – Cine Humberto Mauro: Belo Horizonte, realizada em 2015/2016. 

Natalie Wood – Aquilo que persiste

Em 1981, a atriz Natalie Wood morreu afogada próximo a Ilha Catalina, costa da Califórnia. Estavam com ela no barco seu marido, o ator Robert Wagner, o também ator Christopher Walken e o cuidador do barco. 

A primeira parte do documentário, feito por Natasha Gregson Wagner, filha da atriz, relembra a trajetória de Natalie Wood, com destaque para o primeiro casamento com o ator Robert Wagner. Os dois se separaram poucos anos depois e na década de 70 reataram o matrimônio. Os relatos, que incluem depoimentos de amigos como Robert Redford e Mia Farrow, de familiares, de integrantes do sistema hollywoodiano apresentam uma Natalie Wood dedicada à carreira desde os cinco anos de idade. Trechos de entrevistas da própria atriz ajudam a entender os conflitos entre os lados profissional e pessoal de Natalie Wood.

A segunda parte é dramática, pois reconstitui os incidentes que culminaram na trágica morte por afogamento. O destaque é a longa entrevista concedida por Robert Wagner à Natasha Gregson Wagner, relatando passo a passo os dias anteriores e a noite do “acidente”. O propósito da entrevistadora é claro: dirimir todas as dúvidas a respeito da morte da mãe, tentando inocentar Robert Wagner das suspeitas. O caso foi reaberto em 2011, a pedido da irmã da atriz, que sempre suspeitou de assassinato, afirmando que Natalie Wood foi asfixiada e depois jogada na água. Robert Wagner nega essa versão e Christopher Walken sempre se recusa a tocar no assunto. 

Tudo indica que é um caso sem solução, portanto, o melhor de Natalie Woode – Aquilo que persiste, são as cenas de trechos de filmes nos quais a atriz trabalhou, principalmente O milagre da Rua 34Juventude transviadaClamor do sexo e West side story. Cenas dos filmes e depoimentos de profissionais mostram a história de uma das atrizes mais belas, talentosas e polêmicas de Hollywood que lutou contra o sistema de estúdios, se rendeu à álcool e remédios, se envolveu em inúmeros casos amorosos que alimentaram os tablóides de fofocas e sucumbiu em uma noite chuvosa, misteriosa, envolta em segredos que ninguém ousa revelar. 

Natalie Wood – Aquilo que persiste (Natalie Wood: what remains behind, EUA, 2020), de Laurent Bouzereaut.