O lutador

O lutador (The wrestler, EUA, 2008), de Darren Aronofsky, é um filme mediano, destes produtos típicos do cinema contemporâneo, celebrado mais pela estratégia de marketing do que pelo valor da obra. Refiro-me à escolha de Mickey Rourke como protagonista. A indústria usou os paralelos entre a vida do ator e do personagem que interpreta para divulgar histórias de redenção individual. Rourke interpreta Randy “Carneiro” Robinson, envelhecido praticante de luta livre que é obrigado a abandonar os ringues devido a problemas de saúde. Ele busca a redenção pessoal, tentando se reconciliar com a filha, e profissional, preparando uma suicida volta aos combates.

Mickey Rourke concorreu ao Oscar de  melhor ator pelo filme o que valeu para a indústria de cinema também uma boa história de redenção, dessas que bem utilizadas pelo marketing rendem bilheterias e críticas. Rourke trabalhou em três grandes filmes na década de 80: Corpos ardentes (1981), O selvagem da motocicleta (1983) e Coração satânico (1987). Depois se perdeu em produções apelativas como 9 ½ semanas de amor (1986) e Orquídea selvagem (1989).

Começa então sua conturbada história pessoal, motivada principalmente pela decisão de abandonar a carreira para se dedicar ao boxe, atividade que deformou seu rosto. Viveu no ostracismo cinematográfico, se envolvendo em polêmicas e escândalos, até que voltou às manchetes do cinema em Sin City (2005), com uma atuação supervalorizada. O filme é mais uma experimentação gráfica do que performance de qualquer ator em cena.

Em O lutador, ele parece ter amadurecido como ator, caracterizando seu personagem com contida amargura. A grande discussão do filme é a amargura dos que vivem do passado. Há uma sequência do filme que reflete esse conflito, com perfeito uso da linguagem do cinema, especificamente do som.

Randy “Carneiro” Robinson sofre enfarte após uma luta e é forçado pelo médico a abandonar os ringues. Para sobreviver, ele consegue emprego como atendente no setor de frios de um supermercado. Randy está no banheiro do supermercado, se preparando para seu primeiro dia de trabalho. Ele anda pelo ambiente, se olha no espelho, sai pela porta. A câmera o acompanha em travelling, filmando-o de costas enquanto ele caminha pelos corredores internos do supermercado. As paredes bem próximas, ambientação escura, como em passagens subterrâneas de estádios. Ele passa pela sala, respira fundo, desce os degraus da escada, passa por funcionários empilhando caixas. Neste momento, ouve-se som ritmado de torcida cantando, como se aguardasse a entrada do astro, do ídolo. A câmera ainda foca Randy de costas. Ele para em frente à cortina de tiras de plásticos, respira fundo, como uma espécie de ritual no momento de entrar no ringue. O som dos torcedores pontua a cena. Randy abre as cortinas e, exatamente quando passa pelo umbral, o som da torcida termina. Ele está agora em seu local de trabalho. Vai passar o dia cortando presuntos, servindo maioneses, pesando mussarelas. O momento de glória de Randy terminou, vai ficar na memória, como canções entoadas por fãs martelando em seu cérebro.

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