O lobisomem

A Londres do cinema é enigmática, sombria, beira o realismo fantástico. As ruas mal iluminadas pelas precárias lamparinas a gás. A neblina saindo do chão, envolvendo personagens cobertos por sobretudos e chapéus escuros que escondem as faces e as intenções de assassinos e psicopatas. Pontes soturnas sobre o Rio Tâmisa, inspirando um ou outro suicida. Bares em obscuros porões onde o submundo espera a noite para se mostrar aos habitantes. Cientistas desfigurados atrás de frascos de experimentos ou cadáveres insepultos. Prédios medievais cujas janelas podem ser estilhaçadas por criaturas da noite no momento em que uma nuvem atravessa a lua ou um raio de tempestade irrompe. Vielas sujas por onde transitam miseráveis,  bandidos, crianças perdidas, jovens ingênuas e prostitutas prestes a se deparar com estripadores.

O lobisomem não é personagem característico das ruas londrinas, está associado aos campos tenebrosos da Inglaterra, formado por árvores seculares que suscitam as mais diversas fantasmagorias na imaginação do espectador, bem como aos pântanos sorrateiros e assassinos. O uivo lancinante do lobisomem com a lua cheia tomando conta da tela parece ecoar por toda a Inglaterra e pelo imaginário dos amantes do cinema.

Tudo isto está no lobisomem interpretado por Benicio Del Toro. É desses clichês a que nos acostumamos e, quando bem revisitados, enchem a alma do espectador de premonições, de sonhos incompreensíveis. Após a sessão, é comum acordar sobressaltado do sono, mesmo que você já seja conhecedor destas cenas, dessa essência do gênero terror.

A sequência mais impressionante do filme acontece em Londres, quando a criatura é perseguida pelos prédios e ruas da cidade. Ela salta pelos prédios com a agilidade inconstante de sua natureza, misto de humano, lobo e monstro. O instinto faz o lobisomem dilacerar rostos e vísceras pelo caminho. Rompe o cerco pelas ruas com fúria monstruosa.

O filme é digno representante deste cinema sobrenatural que se torna a cada refilmagem mais realista e impressionante nas cenas de transformação e de ataques da criatura. Cinema remodelado através das infinitas possibilidades digitais, com cenas impressionantes, mas consciente do verdadeiro terror que está na gênese do lobisomem: o que não se mostra, o que não se vê, é que deixa nitidamente a imagem no espectador.

O lobisomem (The wolfman, EUA, 2010), de Joe Johnston.

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