Terra selvagem

As sequências de abertura determinam a desolação e dor que imperam na trama: adolescente corre sozinha pela planície gelada, texto poético acompanha seus passos, ela cai na neve; corta para coiote observando o rebanho de ovelhas até ser atingido por um tiro mortal.

As montanhas geladas do Wyoming são cenário para a história. O caçador Cory encontra o corpo de uma adolescente indígena. Ela foi estuprada e morreu correndo descalça na neve, asfixiada pelo frio que invade os pulmões até explodi-los. Jane, agente do FBI, é enviada para investigar.

O crime traz à tona o passado de Cory e coloca em relevo outros personagens também perdidos nesta paisagem desoladora: os habitante da reserva indígena. Terra sangrenta é escrito e dirigido por Taylor Sheridan, roteirista dos marcantes A qualquer custo e Sicario: terra de ninguém. O silêncio do filme no deserto gelado, pontuado pela trilha melancólica, evidencia a dor dos personagens, principalmente de Cory, que continua lutando na neve. Depois das perdas, resta a Cory a vingança e a Jane fechar os olhos para este mundo deserto e abandonado por todos, inclusive pelo governo.

Terra selvagem (Wind river, EUA/Canadá/Inglaterra, 2017), de Taylor Sheridan. Com Jeremy Renner (Cory), Elizabeth Olsen (Jane), Graham Greene (Ben).

O filho de Saul

Saul Ausländer está preso em um campo de concentração da Alemanha nazista. Como outros judeus, ele exerce a função de sonderkommando, responsável por ajudar os nazistas dentro das câmaras de gás. O ponto de vista escolhido pelo diretor é o grande mérito do filme. O espectador sente passo a passo o processo de execução, acompanhando o trabalho e o olhar de Saul dentro da câmara de gás. Saul e os outros sonderkommandos guiam os judeus na entrada, ajudam-nos a se despirem, os encaminham para o interior da câmara de gás. Depois, levam os corpos para o crematório.

Faltava uma película como O filho de Saul para jogar o espectador dentro do sofrimento inimaginável dos campos de concentração. Cada sequência é feita sem cortes, a câmera registra o olhar e o trabalho de Saul, como se cada um de nós participasse e ajudasse no processo de tentativa de extermínio dos judeus.

Em uma das externas, a câmera centrada em Saul, durante a noite, deixa o espectador vislumbrar nazistas executando a tiros os judeus e jogando os corpos na vala. A tensão, durante todo o filme, é estarrecedora. Obra-prima contemporânea, O filho de Saul revela a capacidade expressiva dos recursos de linguagem do cinema.

O filho de Saul (Saul Fia, Hungria, 2015), de László Nemes. Com Géza Rohrig (Saul Auslander),  Sándor Zsótér (Dr. Miklos), Levente Molnár (Abraham).

Taxi Teerã

Jafar Panahi em mais um filme que reflete sobre o ato de filmar, sobre o cinema, tendo sempre como ponto de partida sua impossibilidade de fazer filmes (o diretor está proibido de trabalhar com cinema pelo governo iraniano). Em Isto não é um filme (2011), Panahi burlou as proibições impostas por um documento, filmando seu cotidiano dentro de casa. Na prática, ele evitou tudo que não podia fazer, como escrever um roteiro.

Táxi Teerã, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, é mais um experimento do diretor. O próprio Panahi dirige um táxi pelas ruas da capital iraniana com a câmera acoplada ao para-brisa. À medida que os passageiros entram, confundindo o espectador sobre os limites entre ficção e realidade, diálogos metafóricos permeiam a viagem. Um vendedor de filmes piratas reconhece o diretor e diz que tudo aquilo é armado, que Panahi está fazendo um filme. A sobrinha do diretor sai da escola com um manifesto da professora sobre como fazer um filme “exibível”. Enquanto Panahi sai do táxi (a câmera nunca deixa o carro, apenas muda de posição para filmar o exterior vez ou outra), a menina tenta convencer um garoto de rua a praticar atos interessantes para que ela possa filmar com o celular.

O marido ferido dentro do carro, após um acidente, desesperado, no colo da mulher, pede a Panahi que grave com o celular o seu testamento, como um retrato destes tempos nos quais a câmera portátil registra, delata. Em diálogo com um comprador de filmes piratas, Panahi expressa a singularidade do cinema. O comprador pede sugestões sobre qual obra assistir. O diretor revela simplesmente: “Todo filme vale a pena ser assistido.” Principalmente este Táxi Teerã, obra-prima do que pode, novamente, não ser um filme.

Táxi Teerã (Taxi, Irã, 2015), de Jafar Panahi.

Operação Skyfall

Em uma cena do filme Hitchcock (EUA, 2012), o produtor informa ao famoso diretor que estão querendo contratá-lo para dirigir Cassino Royale, baseado em livro de Ian Fleming. Hitchcock responde que já dirigiu um filme assim, se referindo a Intriga Internacional (1959).

Com Intriga internacional, Hitchcock praticamente lançou o estilo de filmes modernos de ação, influência direta para a série 007. Ainda no recente filme sobre o mestre do suspense, Hitchcock se depara com críticas considerando exagerado o final de Intriga internacional. Locações em várias cidades, um protagonista charmoso, perseguições mirabolantes e ações exageradas estão no filme de Hitchcock assim como em toda película de James Bond.

Operação skyfall (Skyfall, EUA, 2012), de Sam Mendes. segue a risca os clichês que fazem de James Bond um dos personagens mais cultuados do cinema. Mas há um aspecto que me incomoda desde Cassino Royale (2006): a seriedade carrancuda que Daniel Craig impôs ao personagem. A crítica saúda este estilo como a humanização de Bond. O agente agora está entregue à fragilidade diante de questões contemporâneas como terrorismo e tortura. Ele sofre física e psicologicamente como qualquer um de nós. Gosto mais do James Bond de Sean Connery e Roger Moore: irreverente, despretensioso, irresistivelmente charmoso, irretocável e não ligando a mínima para sofrimento ou a possibilidade da morte.

Parte desta crítica também elegeu Skyfall como o melhor filme de toda a série, exagero. O filme tem uma sequência final das mais belas, estética fascinante das terras geladas da Escócia combinada com ação envolvente. Mas de resto, é normal e despretensioso como qualquer outro Bond, com o agravante de uma solução comum de roteiro: o bandido que se deixa prender para entrar no QG do inimigo e depois empreender fuga espetacular.

A tecnologia cada vez mais avançada e as infinitas possibilidades de manipulação da imagem e dos efeitos fazem com que determinados filmes deste tempo se sobressaiam no quesito cenas espetaculares. A tendência é James Bond ficar mais e mais empolgante, mas isto não transforma os filmes recentes em melhores da série. O fato de um personagem mais humano muito menos, pois James Bond não é personagem comum.

Termino com a difícil lista dos meus filmes favoritos de 007, colocando, é claro, Intriga internacional de Hitchcock como hors concours.

007 contra a chantagem atômica (Thunderball, 1965) Terence Young

007 contra Goldfinger (Goldfinger, 1964) Guy Hamilton

007 contra o satânico Dr. No (Dr. No, 1962) Terence Young

007 o espião que me amava (The spy who loved me, 1977) Marvin Hamlisch

007 os diamantes são eternos (Diamonds are forever, 1971) Guy Hamilton

007 somente para seus olhos (For your eyes only, 1981) John Glenn

007 a serviço secreto de sua majestade (On her majesty’s  secret service, 1969) Peter Hunt

A restauração de um clássico

A minha dissertação no mestrado de cinema tratou dos cortes impostos pelos produtores nos filmes. Escrevi sobre filmes que tiveram finais modificados após serem submetidos a sessões de pré-testes. Assunto inesgotável, basta ver em alguns bons extras de DVD. A indústria do DVD trouxe duas vantagens ao cinema: a restauração de filmes antigos, alguns praticamente deteriorados, e a inclusão de depoimentos, entrevistas, comentários – histórias que ajudam cinéfilos a conhecer mais sobre cinema.

Ludwig (Itália/Alemanha/França, 1972), de Luchino Visconti, sofreu com a prática imposta por produtores de cortar o filme objetivando aceitação comercial. Após a montagem final, Visconti entregou Ludwig aos produtores com cerca de 4h10 de duração. Uma história grandiosa, passando pelos 25 anos de reinado do Rei Ludwig da Baviera.

O Rei Ludwig ficou famoso pela excentricidade, alguns classificaram de loucura. O rei foi um mecenas das artes, financiou grandes obras do compositor alemão Richard Wagner, chegando a construir um teatro especialmente para o músico. Era um soberano solitário, em conflito com sua sexualidade, cena do filme mostra Ludwig (Helmut Berger) fascinado e perturbado ao ver um de seus serviçais nadando nu no lago. Pouco depois, ele demite o empregado sem explicações e pede a mão da princesa Sophie, da Áustria, em casamento (o noivado foi rompido mais tarde e o rei nunca se casou).

Ludwig se afastou progressivamente do governo de seu reino para se dedicar a obras suntuosas, construindo grandes castelos na Baviera, dos mais belos da Europa, imponentes projetos arquitetônicos. Devido a essas excentricidades, Ludwig ficou conhecido como o “rei dos contos de fadas”, ou “rei lunar”. Era adorado por seu povo.

Acabou afastado do reinado, acusado de não ter condições psicológicas de governar. Após longo processo investigativo, o  gabinete de governo de Ludwig atestou, com apoio dos médicos da corte: o rei está louco. O fato tem repercussões políticas mais abrangentes. É o período de consolidação do poder de Bismarck, primeiro-ministro da Prússia e comandante da unificação da Alemanha. Pouco depois de seu afastamento, Ludwig foi encontrado morto em um lago, junto com seu médico particular, em circunstâncias nunca esclarecidas. Tinha 40 anos de idade.

O filme conta essa história com a beleza, a suntuosidade, a primorosa reconstituição de época, características do diretor Luchino Visconti. Ludwig é interpretado por Helmut Berger, companheiro do diretor na época. Romy Schneider volta ao papel que a consagrou no cinema, interpretando a Imperatriz Sissi, da Áustria. Está bela no papel de uma Sissi madura, sedutora, deprimida, consciente do papel que representa na história de conflitos de poder. Ela diz a Ludwig, “nós só seremos lembrados se formos assassinados.” Sissi foi assassinada por um fanático, em 1898, em Genebra.

Quando terminou a montagem de Ludwig, Luchino Visconti sofreu uma trombose. Os produtores, inconformados com as mais de quatro horas de duração do filme, aproveitaram o afastamento do diretor e promoveram uma série de cortes na película. Chegaram à montagem final com cerca de três horas de duração. Para tornar o filme mais “comercial”, cortaram mais de uma hora da história.

O filme foi lançado e críticos afirmaram que a história era incompreensível. Ludwig foi retumbante fracasso de público e crítica. Suso Cecchi D’Amico, grande amiga de Visconti, conta que o diretor, já perto da morte, a convidou para assistirem juntos a todos os filmes que fizera. Suso trabalhou em vários filmes de Visconti como roteirista. Segundo a roteirista, Luchino Visconti se recusou a assistir Ludwig.

A restauração

A história da restauração tem o toque dos apaixonados por cinema. Suso Cecchi leu anúncio em jornal informando que a produtora estava em processo de falência e iria leiloar Ludwig. A roteirista foi aos arquivos da Technicolor e descobriu os negativos cortados pelos produtores, já bem deteriorados. De posse dos negativos, Suso reuniu um grupo de colaboradores de Visconti, entre eles Enrico Medioli, também roteirista do filme, e os convenceu a participar do leilão, com o objetivo de comprar e  restaurar o filme. Visconti já havia morrido, em 1976.

Durante o leilão, o grupo descobriu que o valor era muito alto. Havia um milionário italiano presente, colecionador de filmes. O leiloeiro, ciente da intenção do grupo de amigos, interrompeu os lances, reuniu todos os participantes e propôs um acordo: eles comprariam o filme em conjunto e promoveriam a restauração. A proposta foi aceita pelos demais participantes.

Em 1978, o filme foi relançado com quase 4 horas de duração, cerca de 15 minutos a menos da versão de Visconti. Os roteiristas e o montador do filme participaram de todo o processo, respeitando as marcações originais do diretor. Como os atores de Ludwig são de várias nacionalidades, foi preciso dublar novamente o material anteriormente cortado.

O resultado da restauração é um filme magnífico. História que trata de sonhadores num mundo em transformação. O resultado é um filme de Luchino Visconti.

Referência: LUDWIG. Luchino Visconti, Itália/Alemanha/França, 1972. Versátil Home Video. Extras do DVD.

O leão no inverno

No final de O Leão no inverno (The lion in winter, Inglaterra, 1968), a rainha Eleanor (Katharine Hepburn) se entrega ao desespero, dizendo “Quero morrer, quero morrer”. O rei Henry (Peter O’Toole) a consola: “Você vai morrer algum dia, sabia disso? Espere mais um pouco e acontecerá”. Ela sorri.

Pouco depois, ao se despedirem, Henry grita para Eleanor que se afasta em um barco, “Sabe, espero nunca morrermos.” “Eu também”. Henry então grita, expressão de espanto, “Acha que isso é possível?” e começa a gargalhar, abre os braços e ri sem parar. Eleanor também ri abertamente no barco, um dos braços estendidos.

O leão no inverno segue a tradição cinematográfica da Inglaterra de adaptar grandes textos teatrais da língua inglesa. O filme se passa quase inteiramente no interior do castelo, gira em torno dos conflitos para a sucessão do rei Henry que deve escolher entre seus três filhos. Escolha que leva a degradação e disputas fratricidas.

É um filme lento como muitos filmes que seguem a estrutura teatral. Sua força está no texto e nas interpretações de dois atores consagrados que incorporam essa iminente aproximação da morte. O embate entre Katharine Hepburn e Peter O’Toole remete ao desperdício da vida e à falta de esperanças.

O filme, dirigido por Anthony Harvey, foi indicado a sete oscars e ganhou três, incluindo a terceira estatueta de melhor atriz para Hepburn (ela ainda ganharia mais uma, até hoje a recordista nesta categoria). É um filme que se deve assistir duas, três vezes, prestando atenção nas frases, anotando, se deixando levar pela desilusão serena destes dois grandes personagens (atores) “Nós dois estamos vivos. E pelo que eu entendo, isto é esperança.” – diz Henry olhando para o vazio.

O justiceiro

A população de uma cidade do estado de Connecticut (mas poderia ser qualquer outra, como anuncia o narrador) está revoltada contra o assassinato de um querido pastor. O assassinato do reverendo é frio e brutal: tiro disparado em sua nuca, à queima-roupa, no início da noite, em movimentada rua da cidade. Seis testemunhas dizem ter presenciado o crime, mas a única evidência do autor é que ele usava chapéu preto e sobretudo também escuro. Como milhares de outros americanos.

Elia Kazan faz sua incursão pelo cinema noir quase em estilo documental, respeitando os cânones do gênero: fotografia noturna em preto e branco, gravação em interiores, o narrador, um crime, policiais que transitam sem rumo pelo submundo. Pressionada pelo poder público, a polícia prende um suspeito e O justiceiro ganha os rumos de filme no tribunal.

Dana Andrews está perfeito como o promotor em dúvida sobre a culpa do acusado, sua performance no tribunal, reconstituindo o crime como investigador perspicaz é perfeita. Revela as falhas da polícia, das testemunhas sugestionáveis, do sistema em busca de sustentação política, mesmo que para isto seja preciso condenar um inocente. Um filme para pensar sobre a justiça.

O justiceiro (Boomerang, EUA, 1947), de Elia Kazan. Com Dana Andrews, Jane Wyatt, Lee J. Cobb.

O gabinete do Dr. Caligari

O Dr. Caligari chega a Holstenwall, pequena cidade do interior da Alemanha, para apresentar sua atração na feira: o sonâmbulo Cesare acorda ao comando do Doutor e faz previsões assustadoras. Ao mesmo tempo, assassinatos começam a acontecer na cidade e a polícia elege Cesare o principal suspeito.

Esta narrativa mesclando policial e suspense se transformou no filme precursor do expressionismo alemão. O filme introduz as principais características estéticas que passam a dominar o gênero terror. A fotografia é estilizada, sombras assustadoras se projetam na parede. Rostos pálidos, recortados no negro, traduzem o medo. O clima gótico sobressai, recriando a noite tenebrosa das cidades. Os personagens são caricaturais, com interpretações teatrais. Por fim, o cenário é deturpado: casas amontoadas, janelas triangulares, móveis de dimensões desproporcionais, paredes sujas, quartos cubiculares, tudo remete ao mundo da arte expressionista.

Em contrapartida, Robert Wiene comanda o filme de forma conservadora, quase como se filmasse uma peça de teatro. “Surpreendentemente, Wiene, menos inovador do que a maioria dos seus colaboradores, faz pouco uso da técnica cinematográfica. (…) O filme se baseia completamente em recursos teatrais, com a câmera fixa no centro, mostrando o cenário e deixando os atores (especialmente Veidt) encarregados de todo movimento e impacto.” – 1001 filmes para ver antes de morrer

O gabinete do Dr. Caligari é um manifesto artístico nestes anos de construção da narrativa e da estética do cinema. A partir de Caligari, fotografia, iluminação, maquiagem e cenário alcançaram o status da arte nas telas do cinema. “O jogo dos atores integra-se à decoração, integrada à maquilagem e ao vestuário, integrados, por sua vez, à iluminação e aos cenários, num conjunto plástico e deformado, como se uma pintura expressionista tomasse vida e se movesse. Esta estilização de todos os elementos dramáticos do filme será designada, desde então, por caligarismo – expressionismo cinematográfico levado às últimas conseqüências.” – As sombras móveis: atualidade do cinema mudo.

O gabinete do Dr. Caligari (Das kabinett des Doktor Caligari, Alemanha, 1919), de Robert Wiene. Com Werner Krauss (Dr. Caligari), Conrad Veidt (Cesare), Friedrich Feher (Francis), Dagover Hans.

Referências:

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

As sombras móveis: atualidades do cinema mudo. Luiz Nazário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999

Ivan, o Terrível

Ivan, o Terrível é mais uma brilhante edição da Versátil, lançada na Coleção Folha Grandes Biografias do Cinema. A obra inacabada do diretor está dividida em duas partes, a terceira não foi filmada, pois Eisenstein faleceu de ataque cardíaco. O diretor foi encontrado morto em sua mesa de trabalho junto com anotações sobre as experimentações que estava fazendo com o uso da cor no filme.

A narrativa versa sobre o reinado do primeiro tsar da Rússia, Ivan Vassílievitch (1530/1584), conhecido como Ivan, o Terrível.

“Historiadores já assinalaram que tal epíteto foi produto do romantismo posterior, não do século 16, que ele não foi adotado nem pelos mais encarniçados adversários do monarca e que, na língua russa da época a palavra grozny (que hoje traduzimos por terrível) queria dizer ‘assombroso’, e até carregava conotações positivas. O fato é que, ao fim de seu longo e marcante reinado, a Rússia se afirma como Estado centralizado e poder imperial em franca expansão.” – Irineu Franco Perpetuo.

Eisenstein faz uma opção teatral na representação da história. Grande parte das três horas de duração do filme se passa em ambiente fechado, ora em espaços restritos, como quartos e corredores, ora em espaçosas dependências, como salas de reuniões e de jantares. A representação caricatural dos atores se afirma em vários momentos, com discursos e expressões próximas do grande palco. No entanto, a força do filme está nos ângulos de câmera e composições visuais próximas do expressionismo alemão. São recorrentes os grandes closes nos rostos de personagens em situações de espreita, de maquinações políticas, de assombro ou terror. Sombras projetadas nas paredes evidenciam o tom opressivo, quase fantasmagórico da trama (a exemplo do Macbeth, de Orson Welles).

“Esta extravagância em duas partes de Eisenstein sobre os males da tirania é, obviamente, uma obra magnífica, e impõe seu estilo ao espectador, mas tão despida de dimensões humanas que a vemos com uma espécie de indignação. Claro, cada fotograma é sensacional – uma brilhante coletânea de fotos de cena -, mas como filme é estático, grandioso, e frequentemente ridículo, com uma fotografia elaboradamente angulada, supercomposta, e atores supertensos, rolando os olhos, a deslizar pelas paredes, as sombras se arrastando atrás. (…) O filme é operístico – e ópera sem cantores é uma coisa esquisita. Algo de monumental parece estar para nos ser comunicado em cada grande composição estática. Arrasador em estilo, o filme é como um gigantesco mural expressionista. As figuras assemelham-se a aranhas e roedores gigantes: como na ficção científica, parece ter havido mutações. (…) Sob certos aspectos, o filme está perto do gênero de horror. É tão misterioso para os olhos e a mente americanos como o teatro kabuki, a que tem sido muitas vezes comparado.” – Pauline Kael

Ivan, o Terrível (Ivan Groznyy, URSS, 1945 e 1958), de Sergei Eisenstein. Com Nikolai Cherkasov (Ivan), Lyudmila Tselikovskaya (Anastácia), Serafima Birman (Efrosina), Mikhail Nazvanov (Andrei Kúrbski).

Referência: Ivan, o Terrível: um filme inspirado na vida de Ivan, o Terrível. Coleção Folha Grandes Biografias no Cinema. Cassio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Irineu Franco Perpetuo. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2016.

O iluminado

“Johnny está aqui.”

Este grito de Jack Torrance (Jack Nicholson) com o rosto no buraco da porta é das cenas ícones do cinema. Traduz o enlouquecimento completo do pacato e amável pai de família, acometido pela síndrome do isolamento, tema central do filme O iluminado (The shining, EUA, 1980), de Stanley Kubrick.

Jack Torrance, escritor frustrado, é contratado como zelador de um hotel nas montanhas do Colorado durante o inverno. Ele, a mulher (Shelley Duvall) e o filho (Danny Lloyd) vão ficar durante seis meses sozinhos, isolados pela neve. Aos poucos, os membros da família sofrem de alucinações e Jack começa a enlouquecer, assombrado por estranhos personagens do passado do hotel.

O filme é das mais perfeitas combinações de técnicas cinematográficas – som, fotografia, montagem – com interpretação de atores para evidenciar no espectador o sentimento perturbador que nos acompanha por toda a vida: o medo.

As sequências do menino Danny andando de velotrol pelos corredores do hotel são exemplares no uso do travelling e do som. O barulho das rodas, estridente quando passa pelo piso e macio quando em cima dos tapetes, se assemelha à respiração tensa e descompassada, às vezes calma, logo em seguida ansiosa diante da expectativa do que o menino vai encontrar após a próxima curva.

A câmera baixa acompanha o andar do brinquedo, filmando o garoto por trás. À frente, as dependências do hotel e os longos corredores ganham sentido gigantesco, assustador. Aos olhos do menino, que vê tudo do chão, as coisas ganham essa dimensão ao mesmo tempo fascinante e incompreensível, como se apesar do medo tudo tivesse que ser explorado.

Desde o início do filme, Danny vê imagens de duas meninas de mãos dadas, paradas à frente. Inserts que duram segundos na tela, como fragmentos de imagens de sonhos. Ao abrir dos olhos, nos deparamos com a imagem estampada na parede, na porta do quarto, no corredor da casa. Este medo real, possível, torna diversas sequências do filme grandes momentos do suspense no cinema.

As inserções aguçam a sensibilidade do espectador. As irmãs de mãos dadas. A câmera parada na porta do hotel. O líquido vermelho entrando repentinamente pelas laterais – o vermelho e o branco da neve compõem grande parte da estética do filme, simbologia assustadora e ao mesmo tempo bela. Os olhos de Jack Nicholson. Tudo prepara o espectador para as sequências finais do enlouquecimento do personagem – não é preciso falar da interpretação de Jack Nicholson, basta uma imagem e você sabe que está diante das mais impressionantes transformações de ator.

A sequência de abertura de O iluminado faz parte de minhas lembranças de um filme no cinema. O lento travelling da câmera aérea, acompanhando o carro pela estrada sinuosa, emoldurada por lagos, florestas, descampados, montanhas nevadas, túnel, até terminar no grande plano do hotel que se confunde com a própria paisagem.  A música define que estamos diante de um filme tenso. Tenso e belo.

Essa lentidão domina grande parte do filme.  Duas características que o cinema moderno perdeu: belas aberturas enquanto os créditos passam pela tela e a proposital lentidão em filmes de suspense para preparar o espectador, criar tensão e ansiedade aos poucos. Hoje, a maioria das obras de suspense e terror começam abruptamente, já com cenas impactantes.

Stanley Kubrick (1928-1999) trabalhou no início da carreira como fotógrafo da revista Look. Isso ajuda a entender o cuidado estético que tinha com cada cena. Perfeccionista, beirando a obsessão, seus filmes demoravam em média cinco anos entre a concepção e finalização. Ele dirigiu apenas 13 longa-metragens, entre eles o maior clássico da ficção científica: 2001 – uma odisséia no espaço (1968).

O iluminado é adaptado do livro homônimo de Stephen King, um dos grandes marcos da literatura sobrenatural. Kubrick usou a ideia central do livro e recriou a história com concepções cinematográficas. Stephen King não gostou da adaptação e produziu anos depois um novo filme, seguindo passo a passo o enredo do livro.

A obra de Kubrick está além de todas essas discussões sobre quem é o maior responsável pelo sucesso do filme. A interpretação de Jack Nicholson? A história de Stephen King? A direção de Stanley Kubrick? Ou o espectador, sentado na cadeira do cinema diante do medo puro e simples das imprevisíveis oscilações da mente humana?