O fantasma da estrada

Prontos para ouvir uma história de fantasma? – meu irmão levantou as sobrancelhas, eu me recostei na cabeceira da cama, puxei a coberta até perto do queixo, deixando apenas o rosto e os olhos arregalados de fora.

O pai sentou-se no pé da cama. O quarto era pequeno. O espaço entre as duas camas era a conta da mesa de cabeceira onde meu irmão deixava o velho radinho de pilha ligado bem baixo. Era um quarto apertado de uma casa pequena, situada naqueles conjuntos populares que realizavam o sonho-casa-própria da classe média no milagre econômico dos anos 70..

– O pai tinha um sítio, distante cerca de três quilômetros da cidade. Lá para os lados de São Vicente do Grama. Era noite de lua cheia, dessas luas que deixam a gente com vontade de ficar deitado na grama olhando o céu. Era sábado, tinha festa na cidade. Com barraquinha, fogueira de São João e muita gente dando voltas na praça. Já contei pra vocês que na minha cidade os homens davam voltas na praça em sentido contrário às mulheres? – Meu irmão fez sim com a cabeça três vezes.

– Fazia muito frio. Vesti a minha calça Lee novinha em folha, camisa listrada e jaqueta jeans. Eu tinha uns 15 anos e costumava fazer o caminho da estrada no sábado à noite. Nessa noite, prestem bem atenção, a lua estava cheia, tomando conta do céu. O vento passava pelos bambuzais da beira da estrada num chiado sem fim, indo e voltando. Uhhhh… Uhhhh…. mais ou menos assim. Eu conhecia cada buraco, cada curva da estrada. Se fosse durante o dia, eu daria uns galopes para encurtar o tempo, mas, à noite, todo arrumado pra festa, não podia ficar suado, não é mesmo?

– Comecei a andar devagar, o pensamento solto… De repente, logo depois da primeira curva, quando a mata na beira da estrada ficou mais fechada, ouvi um barulho bem leve. Uma espécie de toc, toc. “Deve ser algum bicho na mata”, não me preocupei. Continuei andando, ainda ouvindo o barulho. Toc, toc, bem baixinho. Toc, toc. Parei durante alguns segundos, olhei para os lados, estiquei os ouvidos. Nada. Nem um pio, apenas o barulho do vento. – Eu me inquietei na cama. O pai fez uma pausa, respirou fundo.

– Voltei a andar. Toc, toc. Parei de novo e nada. Olhei para o céu, nuvens passavam na frente da lua. Comecei a andar mais rápido, não que eu estivesse com medo, vocês sabem, não tenho medo de fantasmas, bichos, essas coisas. O barulho aumentava junto com minhas passadas. Outra curva da estrada. Parei. O barulho também.

– “Tem alguém aí?” Gritei e só ouvi o eco da minha voz. Senti um calafrio de cima em baixo com aquela voz estranha batendo nos meus ouvidos. Olhei para os lados, pra frente, pra trás. Procurei no chão alguma pedra, achei um pedaço de pau. Voltei a andar segurando o porrete na mão. Os passos cada vez mais rápidos e o barulho perto de mim. – Meu irmão se mostrou mais interessado, chegou  a ensaiar uma pergunta, mas o pai fez um gesto com a mão como a dizer: espere.

– Pensem bem. A estrada deserta, mata fechada de um lado, do outro um grande descampado. A lua de vez em quando sumia atrás das nuvens e o escuro tomava conta. E aquele barulho. Não era um barulho distante, era ali, ao meu redor. De passos rápidos, passei a pequenos galopes. Toc, toc, toc, toc, toc….. O suor escorria pelo meu rosto. Parei em uma grande reta. Olhei de novo pra tudo quanto é lado. Nada. Ninguém. Nem uma vivalma. Barulho nenhum, até o vento agora se fora.

– Voltei a correr, agora uma corrida destrambelhada. Toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc. Tropecei, caí de bruços na terra. Fiquei alguns segundos com a cara encostada no chão pensando, é agora. Mas nada, só o silêncio. Respirei fundo, sentindo uma leve dor na mão. Tentei me levantar, minhas pernas não responderam.

– Contei até três e me levantei de supetão, saindo numa correria pela estrada. Toc, toc, toc, toc. Passei pela ponte que marca a entrada da cidade. Eu não aguentava mais, minhas pernas pareciam nem existir de tanto cansaço. O ar entrava e saía pela minha boca, pelo meu nariz.. – O pai parecia cansado mesmo. Ele respirou pausadamente e esperou um tempo antes de voltar à história, aumentando a nossa ansiedade.

– Atravessei a ponte e entrei em desabalada carreira pela rua principal. As luzes fraquinhas dos postes me tranquilizaram um pouco. Parei curvado debaixo de um poste, as mãos sobre os joelhos. Prestei atenção, não ouvi mais o barulho. Sentei-me na escada da porta de uma das casas. Aos poucos fui recuperando o fôlego, o cansaço diminuindo, só as gotas de suor não paravam de escorrer pelo meu rosto. Eu sentia as costas também empapadas de suor. Tirei a jaqueta jeans. Minhas mãos ardiam, esfoladas da queda na estrada. Olhei para minha calça Lee novinha. Estava suja de terra. Comecei a bater as mãos no tecido, tentando tirar a poeira. Comecei pelas coxas, as duas mãos espanando a poeira. Fui descendo até chegar nas canelas. A calça tinha bocas largas, quase cobrindo os sapatos. Comecei a bater nas barras. Toc, toc. Parei de bater. Voltei a bater. Toc, toc. Bati com mais força. Toc, toc, toc, toc. – O pai viu um sorriso no rosto do meu irmão.

– Levantei-me maldizendo a minha ignorância e voltei a caminhar em direção à praça da cidade. A jaqueta jogada no ombro. Toc, toc. Olhei para as pernas. As barras das calças batendo uma na outra. Toc, toc, toc…

Permaneci em silêncio, meu irmão comentava a história animado. Eu pensava naquela estrada longa, deserta e enluarada. Pensava no pai correndo, perseguido pelo fantasma. O pai parecia na dúvida, perguntou se eu entendera o final. Talvez tenha pensado: “quando ele crescer um pouco mais…”

Pouco importava. Era apenas mais um conto do meu pai. Com o tempo, aprendi que estas noites que o pai passava sentado ao pé da cama dos filhos ajudaram a definir a minha própria história.

O cavalo malhado

Naquele dia, as mãos do velho Antônio tremeram um pouco mais ao colocar a fita cassete no aparelho de som. Ele levou as mãos ao coração, respirou fundo. A tremedeira vinha aumentando, mas o médico o confortara: “idade, esforço de um ou outro dia mais agitado, você não pode mais trabalhar tanto no sítio”.

Antônio sentou-se na varanda como fazia todo final de tarde. Levantou a mão esquerda até a altura dos olhos. Ainda tremia. Culpou a emoção da hora, a voz de Frank Sinatra, talvez.

Aquela hora merecia trilha sonora. Elvis Presley, Nat King Cole, Frank Sinatra, Billie Holiday, vozes do entardecer. Antônio ficava na varanda sozinho com a música até o sol se esconder no morro em frente. Às vezes, um passante, morador como ele daquela pequena vila, o cumprimentava da estrada. “Boa tarde, seu Antônio.”. Ele respondia com aceno de mão, balançar da cabeça, sem dar muita conversa, temia que o vizinho se achegasse e perturbasse seu momento. Gostava de ficar sozinho com a música, olhando o entardecer.

No morro em frente, cerca de quatrocentos metros distantes da casa, ficavam as cocheiras dos cavalos da fazenda-laboratório especializada na produção de soro antiofídico. Da varanda de sua casa, Antônio podia ver os cochos onde os cavalos se reuniam no final da tarde para comer. Ele lamentava animais tão belos servindo como cobaias para veneno de cobra. Maldizia os cientistas, pensava no veneno circulando nos animais, depois a sangria, outra sangria, mais e mais sangue sendo retirado até o cavalo se extinguir. Ele imaginava o cavalo deitado na grama, as patas esticadas, a cara de lado na terra, a imensa força daquela vida deixando de existir.

“Old man river, that old man river …”. Antônio deixou a canção tomar conta, os olhos fixos no morro. Alguns cavalos pastavam, outros afundavam as cabeças nos cochos. De repente, um dos cavalos empinou, as patas dianteiras cortaram o ar, a cabeça fazendo movimentos circulares. O cavalo malhado ficou por alguns segundos suspenso no ar, as patas traseiras suportando todo o peso enquanto o relincho estridente ecoava no morro. Os cavalos pararam de comer, todas as cabeças se levantaram ao mesmo tempo, os que descansavam ficaram alertas, detrás das árvores surgiram dezenas de animais, a agitação tomou conta do morro. Em instantes, a tropa fez um círculo em volta do malhado que continuava no seu ritual de patas, cabeça e relincho.

Antônio não tirava os olhos da fazenda. O malhado saiu em disparada na direção do topo do morro. O que se viu foi quase um balé. Os cavalos abriram passagem para o malhado e saíram em sincronia perfeita atrás do líder, sem atropelos, sem confusão, primeiros os da frente, à medida que se abria espaço os outros seguiam até que todos estavam correndo na mesma direção, formando fila de três, quatro cavalos correndo lado a lado.

O velho Antônio não podia acreditar. Tentou imaginar quantos cavalos, cinquenta, cem, talvez mais, seguindo o malhado. Eles correram por cerca de dois quilômetros até o alto do morro, o barulho das patas batendo na terra, ecoando como um trovejar, o estouro de uma manada. No alto do morro, o malhado fez um movimento circular, inclinando bastante o corpo para não diminuir a velocidade, e desceu, a tropa seguindo seus passos, marcando uma trilha no meio do mato. Os cavalos desceram até perto das cocheiras, contornaram as edificações, cada um pisando na pegada do outro, sequer um atropelo, o malhado à frente. Numa carreira desabalada subiram novamente o morro até o ponto exato onde fizeram a primeira volta e refizeram todo o caminho.

Os cavalos repetiram o galope, subindo e descendo o morro três vezes. Em alguns momentos, quando passavam pela terra batida sem grama ou mato, a poeira cobria grande parte da tropa. Logo à frente, os cavalos emergiam da fumaça marrom como se tudo aquilo fosse meticulosamente planejado pelo mais talentoso dos coreógrafos.

Depois da terceira volta, o líder diminuiu as passadas perto dos cochos. O malhado resfolegava, trotando em passos largos, ditando o tom de descanso para a tropa. Ele parou no meio de uma clareira, as cocheiras ao fundo, uma fileira de árvores à sua frente. Os animais começaram a se dispersar. O sol desaparecera deixando a tarde com uma luz difusa. Antônio pode ver ainda o malhado com a cabeça erguida, contemplando sua tropa, imponente, orgulhoso.

Antônio não tirava os olhos do morro na esperança de ver uma vez mais o longo tropel dos cavalos, ver pela última vez aquela cena que nunca mais se repetiria em sua vida. Aquela cena que contou a filhos, netos, amigos e muitos, claro, duvidaram. Na confusão de luzes entre o entardecer e a noite, Antônio divisou poeira levantando na estrada logo abaixo do morro. Acompanhou com os olhos a poeira até enxergar o carro fazendo o contorno na estrada e se dirigindo em direção à sua casa.

Quando o carro do filho passou bem em frente à varanda, Antônio enxergou com toda clareza sua companheira há quase cinquenta anos sentada no banco de trás, brincando com os netos. Antônio levantou a mão esquerda, um aceno trêmulo, mais trêmulo agora. O tremor do velho homem diante do inesperado da vida.

O cinema e o silêncio

A máscara negra desceu sobre o rosto deformado de Anakin Skywalker. Certos closes tomam conta dos nossos olhos e do que eles escondem. No final de A Vingança dos Sith, a máscara de Darth Vader dominou o cinema através do mais completo silêncio.

Em 1980, entrei no cinema tentando dominar a ansiedade que me persegue desde a década de 70, antes de cada filme da série Star wars. Naquele ano, o filme ainda era chamado de Guerra nas estrelas e parecia a história de Luke Skywalker, guerreiro estelar, samurai, pistoleiro e piloto de combate. Dentro do cinema lotado, os adolescentes gritam e assobiam a cada batalha de O império contra-ataca. Impossível ficar indiferente diante do idealismo místico de Luke e do romantismo cínico de Hans Solo.

Luke Skywalker finalmente se encontra com Darth Vader. Eles duelam pelos corredores da Cidade das Nuvens. A cena é famosa. Um dos vilões mais lembrados do cinema decepa a mão do herói, o jovem cavaleiro jedi procura fugir mas tem abaixo o abismo. Luke agarra-se como pode, a dor estampada no rosto. Darth Vader estende a mão para ele e numa frase revela o segredo da saga.

Não sei quantas pessoas cabiam naquele velho e grandioso cinema que guardava o glamour da sétima arte: tapetes vermelhos, dois andares, escada em caracol, tela de 70 mm. Quando a câmara deu close em Darth Vader e a voz impiedosa de James Earl Jones invadiu o cinema, nada mais se ouviu. Nem um som, nem um suspiro. O fascínio da revelação se traduziu em completo silêncio.

A vingança dos Sith encerra uma história de seis filmes. História que perdeu muito da magia e ganhou efeitos visuais espetaculares, que trocou o glamour por uma franquia milionária, a marca Star wars. A vingança dos Sith invadiu metade dos cinemas no mundo inteiro, domina jornais, revistas, programas de TV e a sempre inquietante Internet, que acabou com a sensação de ser surpreendido por uma frase tão banal quanto “Eu sou seu pai”.

Mas dentro do cinema, quando a máscara de Darth Vader tomou conta da tela, o silêncio era o mesmo de 1980.

O bosque das ilusões perdidas

Quando Luiz Augusto desceu para o escritório, às três horas da madrugada, a casa estava silenciosa, livre da agitada reunião à mesa, cerca de seis horas atrás. Os filhos vieram de visita naquele final de semana. Durante o jantar, os netos corriam em volta da mesa, gritando, trombando uns com os outros, diante dos olhares condescendentes dos pais. A cada grito, Luis Augusto tremia por dentro em uma série de impropérios silenciosos. Respirava e voltava para o prato de massas e o copo de vinho.

Luiz Augusto cresceu em uma família de oito irmãos, em pequena cidade do interior de Minas Gerais. A família morava em casa de três quartos, os filhos amontoados nos cômodos, a balbúrdia tomando conta da casa até quase meia-noite. Quando todos dormiam, Luiz Augusto abria os olhos e aproveitava o silêncio da noite. Caminhava até o canto da cozinha, atrás da enorme dispensa de madeira, acendia a vela e abria o livro.

O menino descobrira os livros influenciado pelo tio metido a escritor que o levava à biblioteca e, antes de emprestar um exemplar, discorria sobre as histórias. O Capitão Ahab em sua luta contra a baleia branca. Luis Augusto não entendia o que fazia um homem vagar pelos mares à procura de um peixe. “Baleia é mamífero.” – corrigia o tio. “Bem, se vive no mar, deve ser peixe. E o Capitão é um idiota em perder seu tempo olhando para o mar durante dias e dias à espera de Moby Dick. Afinal, já tinha perdido a perna…” – refletia o jovem leitor.

De quem Luiz Augusto gostava mesmo era de Sancho Pança. Lendo as histórias do desventurado Quixote e seu fiel criado, o menino gargalhava sem parar. Foi desvendando moinhos de vento que Luiz Augusto descobriu que letras são as verdadeiras asas da imaginação. Pegou gosto e nunca mais largou dos livros.

No final da adolescência, se mudou para a capital. Na faculdade de direito, lia tudo o exigido e muito mais. Filosofia, sociologia, compêndios legais, história, literatura, poesia. Sozinho, no quarto da pensão onde morava, no centro de Belo Horizonte, devorava todos os livros que precisava para sua formação acadêmica. Terminava a noite com um clássico da literatura jogado no peito, vencido pelo cansaço. Zola, Balzac, Tolstói, Dostoievski, Dickens, Flaubert, Proust, todos passavam pela sua cabeceira e depois eram devolvidos à biblioteca.

Luiz Augusto se formou primeiro da classe. O esforço rendeu ao advogado brilhante carreira na área criminalista. Trabalhava entre doze e quatorze horas por dia, acumulou considerável fortuna com os casos famosos que defendeu, se casou com a filha de um médico famoso.

A carreira cobrou um preço caro: júris abarrotados de gente, profusão de microfones nas saídas dos tribunais, salões apinhados de signatários da alta sociedade se empanturrando de conversa fiada, vinho e quitutes. A cada tormento diário, o advogado só pensava em chegar em casa, se trancar no seu escritório, acender a luz do abajur da mesa, abrir um romance e se deixar, à meia-luz, em seu frágil momento de solidão.

Vieram os filhos, quatro, com eles a algazarra, a irritante necessidade de gritar enquanto correm no quintal, ao redor de mesa ou em qualquer outro cômodo da casa, até mesmo no escritório do pai. Luis Augusto já não podia mais trancar a porta, pois vez por outra bateria uma bola, uma boneca, um pedaço de pau, a cabeça de um dos filhos arremessada pelo irmão, e, pior de tudo, os punhos da mulher exigindo que o pai tomasse uma atitude contra aqueles delinquentes infantis. O jeito então foi passar a ler de madrugada. Acordava às três horas e caminhava na surdina para seu escritório.

O custo novamente foi alto: um enfarte aos 55 anos. Como não podia diminuir o trabalho e as altas rodas da sociedade, que, no caso, estão relacionados, eliminou o restante que preenchia sua vida. O escritório passou a ficar fechado por fora.

Até que um dia, visitando um cliente em um condomínio na Serra do Cipó, se encantou pela solidão da vista das montanhas. O advogado tinha 60 anos quando comprou a casa na Serra, escondido de todos, até mesma da mulher. Adotou a casa como seu refúgio. Durante um dia no meio da semana, acordava cedo e dirigia por quase cem quilômetros até sua casa na montanha. Passava o dia entre seus livros.

Quando se aposentou, saiu de casa em uma madrugada de segunda-feira. Deixou bilhete de despedida para a mulher. Na subida da serra, em uma das curvas da estrada, parou o carro, desceu para olhar a vista. O sol amarelo nascia atrás das montanhas. Nuvens esparsas recortavam o céu. Teve um desejo repentino de explodir a estrada, fechar a passagem do desfiladeiro, se houvesse. Diante da impossibilidade, se sentou à sombra da árvore e abriu o livro. O dia já ia pelo meio quando Luiz Augusto terminou de ler O bosque das ilusões perdidas.

Todas as canções de amor

Maria Gadú assina a bela trilha sonora, grande trunfo do filme. Anna e Chico, recém-casados, se mudam para um apartamento. Anna descobre um som 3×1 guardado em um cômodo, junto com uma fita cassete escrita “Todas as canções de amor.” À medida que escuta as músicas, se interessa e passa a escrever a história de Clarisse, autora da seleção de músicas, presente para seu marido Daniel. 

São duas histórias permeadas pelos conflitos de casais, narradas pelo ponto de vista feminino. Anna tenta entender o casamento, o amor, a fita de Clarisse a faz retomar o desejo pela literatura, pela escrita. Nos anos 90, Clarisse luta contra a desilusão do casamento, da relação a dois, sofrendo pela incompreensão de Daniel, músico que nunca tocou uma canção de amor para ela. A trilha sonora eclética traz, entre outras canções, Não aprendi a dizer adeus, Drão, Codinome Beija-Flor, I will survive, Chorando se foi. 

Todas as canções de amor (Brasil, 2018), de Joana Mariani. Com Marina Ruy Barbosa (Anna), Bruno Gagliasso (Chico), Luíza Mariani (Clarisse), Júlio Andrade (Daniel). 

O aniversário da menina

Pensei que era apenas mais um namorado, até que ela anunciou-se grávida. Ela já dissera em conversas reservadas que se chegasse aos trinta solteira partiria para a produção independente.

A filha nasceu provocando uma revolução naquela mulher. De adolescente rebelde, jovem mais preocupada com festas, bares e noitadas, a mãe caseira, gastando todo o tempo que tinha depois do trabalho com sua pequena.

O jovem pai era intermitente. Era visto em aniversários, reuniões, depois, sumia. Falavam em casar, juntar, mas não passava disso. Uma noite, na casa da namorada, pediu o carro do futuro sogro emprestado. Saiu, quase madrugada, dizendo que voltaria dali a pouco. Desapareceu durante três dias. Outro pai entrou na história. Ele já conhecia o enredo do filho desde a adolescência e sabia onde encontrá-lo. Partiu para aqueles pontos obscuros que todos temem e muitos insistem em freqüentar. Encontrou o carro depenado, sem rodas, sem ferramentas, sem acessórios. Conseguiu resgatar tudo a custo da experiência em negociações que ganhara nesses casos. Devolveu o carro, pediu desculpas, levou o filho consigo para mais uma temporada em clínicas.

Revelou-se o segredo daquela luta silenciosa e permanente. O jovem desapareceu durante dois anos. As notícias vinham de seu pai: está no interior de São Paulo. Entre uma clínica e outra, notícias mais desanimadoras: tirou TV, som, até roupas, tirou tudo da casa dos pais. O pai, diziam alguns, entregara os pontos. Nas vezes em que era visto, tinha sempre os olhos tristes, semblante cansado. Logo depois, sabia-se que estava acompanhando o filho, agora em uma fazenda no interior de Minas.

No aniversário de dois anos da menina, voltei a ver o jovem pai. Contou que estava trabalhando na fazenda e não pretendia voltar para Belo Horizonte. Parecia nervoso, inquieto, andando pela casa atrás da filha. Depois dos parabéns e fotos de costume, ele pediu que todos na festa se reunissem na sala.  Ficou algum tempo calado, depois se levantou  e falou abertamente.

– Acho que todos sabem do meu problema. Não me arrependo das coisas que fiz, é a minha vida. Arrependo-me do que não fiz, principalmente de não ter visto a minha filha crescer. Tirou as alianças do bolso e fez o pedido de noivado. O pai dele, encolhido no sofá, não tinha os olhos tristes. Pareceu-me muito mais um olhar atento e cuidadoso.

A menina brincava com sua mais nova boneca no chão da sala, estranhando aquele mundo de gente ao redor. De repente, ela tentou se levantar, tropeçou na boneca quase do seu tamanho e caiu, rosto no chão. Várias mãos acudiram ao mesmo tempo, mas as do jovem pai chegaram primeiro. Levantou a filha, apertou-a contra o peito, embalando-a carinhosamente. A menina ficou ali, no colo do pai, o choro acabando aos poucos.

Os convidados foram se retirando. O jovem pai foi embora. Foi a última vez que o vi.

Natália

O velho homem acordou com o grito: “Natália”. Abriu os olhos e tentou virar a cabeça para um lado, para o outro, percorrer o quarto em busca de alguém. Alguma coisa prendia seu pescoço, ele podia sentir os tubos enfiados em sua boca e só conseguiu olhar para o alto. Revirou os olhos e vislumbrou as cortinas, mesmo com a visão embaçada pode perceber a cor encardida e gasta do tecido branco.

– Bom dia Seu Cláudio. Como está passando hoje Seu Tarcísio. É só uma picadinha Seu Antônio… – ouvindo a enfermeira, compreendeu onde estava. De olhos abertos, fitando o teto, esperou ouvir uma voz conhecida, a mão amiga apertar sua mão num gesto de consolo e tristeza. Mas a única presença foi da enfermeira. Ela desembrulhou alguns equipamentos e remédios, disse algumas palavras de carinho enquanto media a pressão, regulava o soro, aplicava injeção, o ritual lento e doloroso de tentar infundir-lhe esperança. Ele voltou a adormecer.

O frio da tarde do litoral paulista afastou todas as pessoas da orla naquele dia. O dia amanhecera claro, iluminado, depois de três dias de chuva fina e fria. No entanto, o mar estava naquela incompreensível revolta. A ressaca levava as ondas até a parede do calçadão, a água batendo com fúria, espirrando nos poucos curiosos que venciam o medo para ver este espetáculo da natureza, o perigo rondando a explosão de água e espuma, como se mais hora menos hora o mar fosse tomar conta da rua.

Ele não podia perder. Passou o dia andando pela cidade, indo de uma praia a outra. No fim da praia central, a rua subia por uma colina, local dos apartamentos dos mais ricos. A vista dos últimos andares deve ser esplendorosa, pensou enquanto andava em direção ao topo da colina, onde a rua fazia a curva e começava a descer em direção à outra praia. Na curva, moradores e turistas se reuniam para a vista do mar, quase sempre no final de tarde. Outros armavam suas varas de pescar, equipadas com grandes molinetes capazes de arremessar a linha além das ondas.

Neste dia, a colina estava vazia. Sozinho, ele esperava o mar bater com violência no penhasco. Chegava então o pescoço sobre a amurada e olhava para baixo a tempo de ver as águas escorregando rochas abaixo, deixando as pedras cor de musgo. Segundos depois, o mar voltava violento, batia no paredão de pedra, respingando em seu rosto assustado que rapidamente recuava.

No final da tarde, o mar se acalmou, voltou ao seu leito normal, deixando à vista a imensa faixa de areia molhada. O sol frio incentivara alguns poucos moradores e turistas a passear pelo calçadão. Antônio sentou-se no banco da praia central, de frente para o mar.

Uma menina corria pela areia como se a praia fosse inteiramente dela. A menina sentou-se na praia deserta, pouco se importando com a umidade em sua bunda, em suas pernas. Ela passou a revirar a areia molhada, tentando moldar alguma coisa que ele não conseguia enxergar. Ajoelhada, a menina dava voltas no monte que subia aos poucos, as mãos repetindo o gesto de descer do topo até a base, alisando a areia. Depois, começou a cavar pequenos orifícios dos lados, totalmente curvada, quase beijando o pequeno monumento. Ele imaginou a areia molhada entrando nas unhas da menina, deixando pingos em seu rosto, o vento embaraçando seus longos cabelos.

A menina ficou uns quinze minutos nessa desajeitada brincadeira. Por fim, se levantou, esticou os braços para o alto, bateu as mãos no peito, nos braços, na bunda, nas pernas, tentando se limpar da areia. Passou a andar por uma pequena extensão da praia, a cabeça baixa, chutando areia com os pés. Às vezes, se abaixava, pegava alguma coisa, olhava atenciosa para a palma da mão, jogava o objeto no chão e voltava a caminhar. Andava até um certo ponto, se virava na direção do mar, caminhava mais alguns metros e voltava na mesma direção, para perto da construção de areia que fizera, percorrendo outra faixa da praia. Assim foi fazendo espécies de retângulos, descendo lentamente em direção ao mar.

Um casal de idosos parou perto de Antônio. Estavam bem agasalhados, a senhora com o braço enfiado no braço do senhor. Ficaram alguns segundos olhando a menina na praia. A senhora disse alguma coisa bem baixo, ambos sorriram e voltaram a caminhar.

De repente, a menina começou a correr em direção ao mar. “Natália”, “Natália”. O grito ecoou nos ouvidos de Antônio e só então ele percebeu a jovem mulher sentada em outro banco, poucos metros adiante. Ela se pôs rapidamente de pé, chegou até perto da grade que separava o calçadão da praia, as mãos em concha na boca. “Natália”.

Antônio fez gesto de se levantar, pensando em correr para a praia, mas a menina parou quase na divisa com as águas e voltou. Ele pode ver, mesmo à distância, a beleza dos olhos infantis procurando a mãe. A menina começou a caminhar lentamente de volta e parou perto da escultura de areia. Começou a chutá-la, espalhando areia para a frente, para os lados, pisou em cima com força, deu alguns pulos, socando a areia. No fim, quase exausta, olhou com um sorriso vitorioso para a mãe. Ela observava preocupada a menina. Os olhos de Antônio ficaram entre a mãe e a menina, que agora estava bem perto da escada do calçadão.

Antônio levantou-se e começou a andar, um sentimento repentino de solidão. Parou e se voltou a tempo de ver mãe e filha caminhando de mãos dadas, de costas, em sentido contrário a ele. Teve uma vontade incompreensível de gritar “Natália”.

Esse grito que agora bate em sua mente e o faz despertar na solidão fria e sem vida da enfermaria.