Farrapo humano

A abertura do filme é antológica, define o primor visual de Billy Wilder, mestre em deixar a imagem traduzir: visão geral de prédios de Nova York, lenta panorâmica permite ao espectador vislumbrar o fascínio da cidade fotografada por John F. Seitz; câmera passeia pela parede de um prédio, a primeira janela aberta, a segunda com vaso de flor na beirada, a terceira, para surpresa de todos, tem uma garrafa de uísque amarrada pendurada por uma corda. Câmera se aproxima da janela e mostra Don Birman (Ray Milland, oscar de melhor ator pelo filme) arrumando a mala dentro do quarto. Ele olha para fora, seu irmão entra em cena e começam a conversar sobre o final de semana que vão passar fora da cidade.

Alfred Hitchcock também usou janelas de forma clássica na abertura de Janela indiscreta e Psicose. Nos três filmes, a placidez do movimento técnico, conhecido como panorâmica, elucida visualmente os rumos da narrativa. Farrapo humano trata do alcoolismo, de cara o espectador é apresentado à doença de Don Birman que esconde a garrafa do irmão. É o primeiro filme hollywoodiano a tratar com seriedade o vício.

“Com exceção dos filmes ambientados nos anos 1920, nos quais a lei seca aparece vinculada ao crime, a bebedeira tinha sempre conotação cômica, derivada da confusão sensorial e física provocada pelo álcool. Wilder achou que era hora de corrigir essa imagem, representando o vício como algo que consome o indivíduo, levando-o a perder a razão. A escolha de Ray Milland como protagonista, ator até então associada a papéis de galã e sedutor, foi parte da estratégia de provocar empatia entre o público e o personagem.” – Cássio Starling Carlos.

Billy Wilder escolhe outra imagem que se tornou clássica para simbolizar o vício do personagem, associando a ela o talento para escrever, junto com Charles Brackett, grandes diálogos. Don está no balcão do bar, conversando com Nat, o barman. Tem um pequeno copo de uísque à sua frente. Ele pega o copo e o leva com desespero à boca. Quando Nat, no gesto característico do barman, tira a toalha do ombro e faz menção de limpar o círculo que o copo deixa à mesa, Don o impede: “Não limpe Nat. Deixe eu ter meu círculo vicioso. Você sabe, o círculo é a figura geométrica perfeita. Sem final, sem começo.” Eles continuam conversando. Entra em cena outra personagem marginal deste filme que centrou as lentes nos marginais: Gloria, garota de programa. “Nat, me dê outra.” Pede Don, expressando descontração. Depois de um longo devaneio sobre escritores, (o protagonista é escritor frustrado), Don levanta o copo do balcão, câmera foca em dois círculos separados e, ao lado, quatro círculos perfeitos entrelaçados.

Eu poderia me estender por várias outras cenas, como o reflexo da luz que revela onde a garrafa está escondida ou o delírio expressionista de Don consumido pelo álcool. Sim, Wilder usa referências de seu início de carreira durante o movimento que mudou a estética cinematográfica na Alemanha. A fotografia expressionista de John F. Seitz e a música de Miklós Rózsa intensificam a caminhada de Don Birman rumo à degradação física, psicológica, humana.

Farrapo humano impactou tanto que a Paramount chegou a receber proposta milionária, feita supostamente por chefe da máfia envolvido com a indústria de bebidas para vender os negativos e cancelar o lançamento do filme. Com a verve irônica que se estende por seus roteiros, Billy Wilder teria dito: “ainda bem que não me ofereceram, talvez eu aceitasse.” Ainda hoje, fica o agradecimento aos produtores pela recusa e a Billy Wilder e equipe por estampar visualmente e através de diálogos primorosos as consequências da doença que é estimulada pela indústria, pela própria sociedade.

Farrapo humano (The lost weekend, EUA, 1946), de Billy Wilder. Com Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard da Silva, Frank Faylen, Doris Dowling.

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