Cine-estacionamento

“Tchau, pai.”

“Tchau.” Habituado a esse sentimento de proteção, esperei a filha entrar no Shopping 5ª Avenida e só então arranquei o carro. Segui pela Rua Alagoas. Quase na esquina com Av. Cristóvão Colombo, vi a placa indicando “Estacionamento”. Não me lembrava de um estacionamento naquele local.

Parei o carro perto do guichê. O estacionamento tinha uma área descoberta à esquerda. À minha frente, a entrada para um pavilhão coberto. Estranhei a arquitetura do local, pensei ser antiga casa improvisada para aproveitar e lucrar com o enorme fluxo de carros na Savassi.

Passei pela entrada do pavilhão, uma abertura retangular na parede, e desci pela pequena rampa. Era mesmo uma casa, pensei. Vi, do outro lado, outra abertura retangular, menor, no canto esquerdo da parede. O restante estava encoberto por um tapume. Provavelmente a saída para a Av. Cristóvão Colombo.

Posicionei o carro no meio do estacionamento, a traseira virada para a parede, direcionada entre as duas marcas no chão indicando a vaga. Engatei ré, aproximando o carro da parede. O braço direito apoiado no banco, o ombro ligeiramente virado para trás, percebi que a parede atrás de mim subia em curva.

Desci do carro e contemplei a estrutura. A parede e o texto se encontravam em formato côncavo. A estrutura sem divisões ou emendas entre paredes laterais e teto, criando espaço vazio sem vigas ou pilares no meio. Nas extremidades opostas, onde estavam as duas aberturas para passagem dos carros, viam-se os arcos formados pela curvatura. Eu conheço esse lugar. Contemplei atentamente a parede por onde eu entrara. Era ali que ficava a tela.

O Cine Pathé, construído em 1948, tinha fachada simples. A marquise avançava protegendo a entrada. A bilheteria ficava no lado esquerdo, pequena abertura na parede dando para a calçada.

Tudo no Cine Pathé era pequeno. No saguão de entrada mal cabiam três poltronas de espera. No canto esquerdo, uma minúscula bombonière, a vendedora apertada entre a máquina de Coca-Cola, bombons e balas Halls. Três ou quatro cartazes de filmes decoravam as paredes. Separando o saguão do interior da sala de projeção, as antigas cortinas negras. Era chegar atrasado e ficar alguns segundos, as mãos percorrendo toda a extensão das cortinas na tentativa de achar a abertura.

No interior da sala de exibição, duas fileiras de cadeiras, separadas pelo pequeno corredor. As cadeiras tinham estofado verde e encosto de madeira fino. Frequentador de cinema tem seus hábitos, eu me sentava sempre na segunda ou terceira fileira a esquerda, a partir da entrada, na cadeira encostada à parede, mais longe da tela. A parede subia em curva, por isso a cadeira ficava ligeiramente afastada. Era um cinema pequeno, charmoso e carregava o estigma de cinema de intelectuais.

Eu era apenas um adolescente e sempre que convidava meus amigos para ir ao Pathé, ouvia:

“Ah, não! Esse cinema só passa filme chato.”

“Pelo amor de Deus! Filme europeu, ninguém entende nada.”

Habituei-me a ir ao Pathé sozinho, ver filmes europeus, de arte, alternativos, cults, designações que foram mudando com o tempo para classificar filmes que só o Pathé exibia em sessões quase vazias. Sentava-me na minha cadeira, recostava a nuca na madeira fina, os joelhos batendo na cadeira em frente. O lanterninha fechava as cortinas, demorava um pouco para os olhos se acostumarem com a escuridão. A tela acendia, hora de me deixar levar pelas imagens.

Eu gostava de me sentar ali, no canto esquerdo, na fileira mais afastada da tela, perto da parede. Naquele lugar onde meu carro está estacionado. Agora, sob a luz do dia, meus olhos afetados pela claridade estranha que entra pelas duas aberturas, esse espaço não me parece tão pequeno, nunca imaginei que o teto fosse tão alto e a tela, quer dizer, a parede onde ficava a tela tão distante. O estacionamento está repleto de carros de todos as marcas e tamanhos e ainda assim vê-se um grande espaço vago. O imenso vazio deixado por estes cinemas que desapareceram.

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