Serei amado quando morrer

Orson Welles foi um dos pilares da minha dissertação de mestrado, defendida em 2003 na Escola de Belas Artes da UFMG. Dediquei um capítulo do texto à revolução narrativa de Cidadão Kane (1941), no qual o diretor faz um jogo interpretativo com o espectador da primeira à última cena. A seguir, a análise se pautou em Soberba (1942), filme mutilado pelos produtores na sala de montagem (pelo então montador Robert Wise) enquanto Welles estava no Brasil, tentando filmar É tudo verdade. Foi a primeira obra do gênio a sofrer com interferências dos executivos dos estúdios de Hollywood (outro crime aconteceu com A marca da maldade).

Era o começo da lenda difundida por executivos, críticos e membros da comunidade hollywoodiana de que Orson Welles não tinha interesse em terminar seus filmes. A filha do diretor refuta categoricamente, dizendo que basta prestar atenção na genialidade dos filmes terminados (e montados) pelo diretor. A afirmação está em um dos melhores documentários sobre o cinema de todos os tempos: Serei amado quando morrer (They’ll love me when I’m dead, EUA, 2018), de Morgan Neville, produzido pela Netflix.

O documentário reúne imagens do mais célebre filme inacabado de Orson Welles,  O outro lado do vento, cujas filmagens se iniciaram no início dos anos 70 e se estenderam durante toda a década. Orson Welles faleceu em 1985 sem montar o filme. A versão finalizada pela Netflix está disponível no serviço de streaming – a derradeira obra-prima de Welles.

Depoimentos de atores, diretores e técnicos que participaram da odisséia compõem um retrato da genialidade incompreendida daquele que é considerado por muitos como o maior diretor de todos os tempos. O diretor Peter Bogdanovich depõe sobre a sua participação como ator, revelando com emoção passagens importantes do relacionamento entre os dois.

No entanto, o primor do documentário está na própria participação de Welles, em inúmeras imagens de arquivo, depoimentos sinceros e emocionantes sobre o cinema, sobre Hollywood, sobre sua paixão irrestrita pela sétima arte. No final do documentário, após a morte de Orson Welles, o também diretor John Huston (protagonista de O outro lado do vento) tem acesso a um trecho de película no qual Welles ri espontaneamente para a câmera. O responsável pelas filmagens revela que, após assistir ao trecho, John Huston chorou ao ver o amigo gargalhando. Simplesmente chorou, virou as costas e foi embora.

A grande feira

A Grande Feira (Brasil, 1961) é o segundo longa-metragem de Roberto Pires, após Redenção (1959), considerado o primeiro longa-metragem produzido na Bahia. O filme reúne alguns expoentes do cinema novo ligados ao ciclo baiano, entre eles um jovem Glauber Rocha, responsável pela produção executiva.

O filme “é inspirado em uma revolta popular  detonada quando o governo do Estado pensou em acabar com a feira Água dos Meninos, onde trabalhavam mais de mil feirantes, para atender os interesses de grandes companhias imobiliárias que pretendiam construir no local.” – Fernão Ramos.

A trama traz princípios do cinema novo que buscava  revolução estética, narrativa e conceitual para o cinema brasileiro. A negra Maria, ladra e prostituta, transita pela Grande Feira e mora no andar de cima da boate de Zazá. O violento Chico Diabo, amante de Maria, logo no início do filme rouba uma joalheria e, na saida, mata um policial. O marinheiro Sueco chega na comunidade e vai mexer com o coração de Maria e da aristocrata Ely, esposa de um rico industrial. Ely sofre com o tédio, citando Camus e Carlos Drummond de Andrade enquanto busca aventuras na noite. Esses tipos marginais, que conta ainda com o receptador Ricardo, se cruzam nos becos, bares, quartos, boates em gradativa adrenalina de sensualidade e violência. Para salvar os feirantes, o plano de Chico Diabo é explodir os tanques da Esso, nos arredores da feira, provocando um incêndio de proporções monumentais.

Está no filme a visão rebelde – e a estética realista – do cinema novo que coloca nas mãos do povo a decisão de seu destino, mesmo que seja através da violência. Segundo ramos, em A Grande Feira, “a representação do universo burguês é caricata e a fala popular revolucionária  enunciada sem dramaticidade e com impostação.”

Roberto Pires usa a fotografia em preto e branco e câmera realista para compor o painel caótico dos feirantes nas cenas externas. Nas cenas internas,  o diretor não se furta a fotografar os corpos sensuais dos belos atores que compõem o triângulo amoroso. O louro sueco (Del Rey com cabelos tingidos) e a negra Maria emolduram a tela em uma sensual sequência no quarto, com direito a clichês como sapatos caindo ao chão. A fútil Ely se entrega também ao Sueco em fascinantes composições na praia e no cais.

O final do filme é um primor estético e conceitual: cena vista do alto mostra o cais após a despedida de Ely e Sueco. O marido de Ely abre a porta. O espectador vê, à distância, a mulher diminuta, frustrada, entregue ao seu destino, entrar no carro. “Apesar do respeito pelo povo e seus costumes há, no entanto, sempre uma ponta de desprezo (caso de BARRAVENTO, A GRANDE FEIRA e TOCAIA NO ASFALTO) pela apatia e pela incapacidade popular em perceber sua situação e reagir de forma radical.” – Fernão Ramos.

A Grande Feira (Brasil, 1961), de Roberto Pires. Com Geraldo Del Rey (Ronny/Sueco), Helena Ignez (Ely), Luiza Maranhão (Maria), Antonio Pitanga (Chico Diabo), Milton Gaúcho (Ricardo).

Referência: História do Cinema Brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

Estrelas de cinema nunca morrem

Gloria Grahame (1923/1981) foi das atrizes mais promissoras do cinema clássico americano. Trabalhou com grandes diretores como Frank Capra, Vincente Minnelli, Nicholas Ray (com quem foi casada). Em 1952, conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme Assim estava escrito, uma das melhores produções sobre o sistema de estúdio hollywoodiano. Logo depois, sua carreira entrou em declínio devido a escândalos relacionados a assédio sexual. A atriz foi casada quatro vezes, uma delas com seu ex-enteado, Anthony Ray, filho de Nicholas Ray. O diretor acusou Gloria de ter começado o relacionamento com Anthony quando ele tinha apenas 13 anos. Nos anos 70, a atriz trabalhou basicamente com teatro nos EUA e na Inglaterra.

Estrelas de cinema nunca morrem aborda os últimos três anos de vida de Gloria Grahame, quando ela conheceu e se apaixonou pelo jovem ator Peter Turner, de Liverpool. O filme, baseado no livro de Peter, retrata uma atriz vaidosa e obcecada por seu trabalho, o que poderia, inclusive, ter contribuído para sua morte aos 57 anos. Gloria foi diagnosticada com câncer, mas se recusou a fazer quimioterapia pois perderia seus cabelos, em consequência ela não conseguiria mais atuar.

O título original é bela homenagem à relação da cidade de Liverpool com o cinema, representada pela família de Peter Turner. O destaque da película é a abordagem da vida de uma estrela de Hollywood, sofrendo com as imposições dos estúdios mas lutando para se entregar às paixões fora das telas.    

Estrelas de cinema nunca morrem (Film stars don’t die in Liverpool, EUA, 2017), de Paul McGuigan. Com Annette Bening (Gloria Grahame), Jamie Bell (Peter Turner), Julie Walter (Bella Turner). 

A mula

Clint Eastwood é o mais longevo e produtivo diretor americano. Perto de completar 90 anos, entrega pelo menos um filme por ano, apesar de atuar cada vez menos. Em A mula, Eastwod dirige e protagoniza. Ele é Earl Stone, senhor de 90 anos obcecado pelo cultivo de orquídeas. Está em conflito com a ex-mulher e a filha que o acusam de ter abandonado a família. Stone trabalhou a vida inteira como motorista nas estradas e se vangloria de jamais ter ganhado uma multa. Desempregado e sem dinheiro, ele é despejado de sua casa e acaba se envolvendo com cartel de drogas do México, transportando drogas em sua picape. 

O filme é baseado na vida de Leo Sharp que ficou conhecido como a “mula de 90 anos”. Clint Eastwood se baseou em reportagem do The New York Times para contar essa inusitada história. Earl Stone transporta as drogas como se viajasse a passeio pelas estradas do meio-oeste americano: para em lanchonetes, conversa cordialmente com todos, ajuda uma família a trocar pneus na estrada, ouve música e canta descontraidamente enquanto dirige. Impossível suspeitar de uma mula assim e Stone acaba caindo nas graças do chefe do cartel. 

Como em outras películas, Clint Eastwood tece críticas sobre temas controversos: o sistema político e econômico americano, a estrutura familiar, a acelerada entrega dos jovens à tecnologia, o tráfico de drogas, a emigração, preconceito racial. O velho Earl Stone transita por tudo isso nas estradas, na sua vida cotidiana, um retrato dos EUA. 

A mula (The mule, EUA, 2018), de Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper, Michael Pena, Alison Eastwood, Diane Wiest.