Bacurau

O cenário é uma cidadezinha no meio do sertão nordestino. O tempo, futuro indefinido. Teresa está na boleia de um caminhão ao lado do motorista. Passam por caixões jogados na estrada, caídos de outro caminhão, por uma represa abandonada, chegam à Bacurau, onde acontece o funeral da velha Carmelita. Depois do enterro, dois motoqueiros chegam à cidade e partem em seguida. A partir daí, estranhos acontecimentos assolam os moradores: a cidade desaparece do mapa, drone em forma de disco voador sobrevoa a estrada, família de colonos é encontrada assassinada. 

A sinopse demonstra as influências da película do premiado diretor Kleber Mendonça Filho (O som ao redor, Aquarius), dessa vez contando com a co direção de Juliano Dornelles: o clássico gênero faroeste americano aliado ao faroeste do sertão recheado de ideologias de Glauber Rocha, além de filmes de futuros distópicos ao estilo Mad Max. Quando entra em cena o grupo de caçadores humanos liderados por Michael, pode-se enxergar também referências ao Predador. Nesse ambiente caótico, acontecem confrontos violentos, colocando os pistoleiros Lunga e Michael em planos opostos. A leitura ideológica coloca também em planos opostos classes distintas, a elite voraz e sanguinária mirando a gente pobre do sertão. Resta aos oprimidos a mesma violência, todos de armas em punho, destino eterno da sociedade que vive sempre à beira da guerra civil.  

Bacurau (Brasil, 2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Silvero Pereira. 

Hostis

A narrativa começa com clássica cena que representa a ideologia do gênero faroeste: família de rancheiros é massacrada por tribo indígena. Rosalie Quaid sobrevive após ver o marido e seus três filhos serem assassinados pelos índios. Corta para o Capitão Joseph Blocker assistindo com tranquilidade seus oficiais espancando alguns índios. Quando chega ao quartel, o Capitão recebe uma missão: levar o chefe Falcão Amarelo e sua família para reserva indígena. No caminho, Joseph encontra Rosalie. 

A jornada de militares, civis e índios pelo território selvagem representa os caminhos que a sociedade americana precisou empreender para sua formação. A jornada é marcada por confrontos violentos à mão armada, expondo a natureza preconceituosa, desumana e assassina dos caminhantes. Christian Bale compõe seu personagem com amargura, desilusão, depressão latente que se traduz em comportamentos ora carinhosos, ora violentos e assassinos. 

Hostis (Hostilis, EUA, 2017), de Scott Cooper. Com Christian Bale (Capitão Joseph Blocker), Rosamund Pike (Rosalie Quaid). Wes Studi (Chefe Falcão Amarelo), Jesse Plemons (Sargento Kidder).

Lino

A tecnologia digital provocou reviravolta na história da animação brasileira. Os curtas-metragens invadem as telas favorecidos pelo Anima Mundi. As crianças finalmente conseguem assistir a animações de longa-metragem com mais regularidade (até os anos oitenta foi produzido apenas um longa de animação no Brasil). O estúdio de animação Start Anima já lançou O grilo feliz (2001), O grilo feliz e os insetos gigantes (2009) e Lino, delicioso imbricamento entre o mundo humano e animal. 

Lino trabalha como animador de festas infantis, vestido de gato. No início da narrativa, relata em primeira pessoa sua inacreditável tendência ao azar. É o típico loser, sem esperança, sem perspectivas. Ele se envolve com um mago que o transforma em gato gigante. O sucesso é imediato, Lino passa de azarão a celebridade. 

Selton Mello empresta sua voz ao gato. As trapalhadas de Lino envolvem tentativa de voltar ao corpo humano, toques de romance e trama policial. Diversão garantida.  

Lino (Brasil, 2017), de Rafael Ribas.

Christopher Robin – Um reencontro inesquecível

Voltar ao universo infantil, tema recorrente em produções contemporâneas, ganha conotações impactantes no mundo atual, dominado por adultos envoltos em dilemas existenciais, profissionais, adotando atitudes castradoras com os filhos, teimando em não deixá-los se entregar à fantasia. Christopher Robin – Um reencontro inesquecível, baseado na obra de A. A. Milne e E. H. Shepard, trata disso com melancolia e tristeza. 

O menino Christopher Robin brinca no Bosque dos cem acres com seus amigos de pelúcia (recriados digitalmente), entre eles Tigrão, Leitão, Bisonho e o comilão preguiçoso Ursinho Pooh. O lema é não fazer nada. O menino é enviado pelos pais para um internato. Corta para Christopher Robin na meia idade, envolto com crise profissional: a fábrica de malas onde trabalha precisa cortar custos, a saída imediata é demissão de funcionários. 

Christopher dedica todo seu tempo ao trabalho (deixou de lado há muito o lema e a lúdica infância ao lado de seus bichinhos), não tem tempo para a esposa e muito menos para a filha Madeline. Nesse turbilhão, o Ursinho Pooh aparece de novo em sua vida, arrastando Christopher para uma jornada em busca dos antigos amigos de pelúcia. 

O fascínio do filme está em remeter adultos a essa jornada em busca da infância, não para ser novamente criança, mas para entender como os princípios que regem o universo lúdico, fantasioso, mágico de meninos e meninas são importantes para relações pessoais melhores. Ninguém tem dúvidas de que o mundo viveria em paz e harmonia se todos o vissem com o olhar das crianças. 

Christopher Robin – Um reencontro inesquecível (Christopher Robin, EUA, 2018), de Marc Forster. Com Ewan McGregor (Christopher Robin), Hayley Atwell (Evelyn), Mark Gatts (Keith Winslow).

Diamantino

A sátira futebolística inspirada em Cristiano Ronaldo (dentro e fora das telas) consegue, através da trama beirando o absurdo, debater importantes questões do mundo contemporâneo, principalmente do continente europeu, assolado por questões de xenofobia e separatistas. 

Diamantino é o craque da seleção portuguesa de futebol, espécie de Deus dos gramados, comparado pelo pai  a Michelangelo. Em campo, as jogadas geniais do atleta acontecem quando ele tem visões de fofos cachorros gigantes (efeitos especiais a serviço do surrealismo). Na final da Copa do Mundo contra a Suécia, o craque perde pênalti aos 45 minutos do segundo tempo e cai em desgraça.

O infantilizado Diamantino, dominado pelas cruéis irmãs gêmeas, resolve dar guinada na vida quando se depara, de seu suntuoso iate, com bote de refugiados africanos. Adota um refugiado, na verdade uma agente especial que se disfarça para investigar possíveis transações financeiras ilegais do ídolo português. 

A trama ganha toques nonsenses passo a passo, Diamantino se vê envolvido com casal de lésbicas investigadoras, seu corpo serve de protótipo para experiência envolvendo clonagens, ingenuamente participa de campanhas publicitárias a favor da separação de Portugal da Comunidade Européia. Tudo sobre o controle quase macabro das gêmeas. A película ganhou o prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes.

Diamantino (Portugal/Brasil, 2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Com Carloto Cotta (Diamantino Matamouros), Cleo Tavares (Aisha), Anabela Moreira (Sônia Matamouros), Margarida Moreira (Natasha Matamouros).

David Lynch: a vida de um artista

A ousadia conceitual e estilística de David Lynch despontou logo no primeiro filme, Eraserhead (1977). Seguiram-se obras impactantes, com a marca surreal, beirando o escatológico: O homem elefante (1980), Duna (1984), Veludo azul (1986), Coração selvagem (1990), Cidade dos sonhos (2001), a revolucionária série Twin peaks – os últimos dias de Laura Palmer (1992). 

O documentário David Lynch: a vida de um artista traça um retrato do lado menos conhecido do cineasta: suas incursões pela pintura. David Lynch conversa com a câmera em seu atelier nas colinas de Hollywood Hills, em Los Angeles, refletindo sobre seu processo criativo. Imagens de filmes caseiros reconstituem as origens de sua relação com a arte e depoimento instigante revela como as artes plásticas impulsionaram sua carreira de roteirista e diretor de cinema. Documentário imperdível para amantes do cinema, revelação das relações entre as pinceladas de Lynch e seu onírico mundo nas telas. 

David Lynch: a vida de um artista (David Lynch: the art life, EUA/Dinamarca, 2016), de Jon Nguyen.