Sicário: dia do soldado

Em Sicário: terra de ninguém a trama colocou em debate os limites éticos na luta contra o crime organizado. Enquanto a policial vivida por Emily Blunt combate movida por princípios da lei e justiça, o personagem de Josh Brolin, Matt Grover, usa de atos escusos para atingir os objetivos. Já Alejandro, sicário interpretado por Benicio Del Toro, encontra motivações na mais violenta vingança. 

A continuação coloca novamente Matt Graver e Alejandro em ação na fronteira do México. A missão de Alejandro é sequestrar a filha do líder de cartel de drogas mexicanos, colocar a culpa na gangue rival, explodindo uma guerra entre as facções. O plano dá errado, Alejandra se vê sozinho com a menina no deserto mexicano e Matt recebe ordens de eliminar o sicário. 

A violência pontua a ação (com direito a impressionante execução perpetrada por adolescentes em uma arena), deixando espaço para a complexidade das relações entre Alejandro e Isabel, sequestrador e refém. O final abre as janelas para a conclusão da história em novo filme, possivelmente com novo sicário. 

Sicário: dia do soldado (Sicario: day of the soldado, EUA/Itália, 2018), de Stefano Sollima. Com Benicio Del Toro (Alejandro), Josh Brolin (Matt Graver), Isabela Moner (Isabel Reyes). 

Mulheres alteradas

Os quadrinhos da argentina Maitena foram adaptados primeiro para o teatro no Brasil, depois para as telas. A narrativa acompanha os conflitos cotidianos de quatro jovens mulheres. Keka está em crise no casamento e pede férias no trabalho para viajar com o marido e tentar salvar o casamento. Leandra está cansada das baladas e tira uma noite para cuidar dos filhos de sua irmã Sônia, que por sua vez aproveita para se esbaldar em uma boate sem o marido, com direito a experiências sexuais. A workaholic Marinatti precisa agarrar a oportunidade de um grande caso no escritório de advocacia em que trabalha para subir na carreira. Tudo dá errado quando conhece um pretendente na noite. 

A comédia escrachada tem como ponto forte as protagonistas femininas. Estão no filme importantes debates por trás das situações hilárias, associados aos conflitos entre trabalho, família, relacionamentos. Alessandra Negrini domina a película.  

Mulheres alteradas (Brasil, 2018), de Luís Pinheiro. Com Deborah Secco (Keika), Alessandra Negrini (Marinatti), Monica Iozzi (Sônia), Maria Casadevall (Leandra), Daniel Boaventura (Christian), Sergio Guizé (Dudu).

Lembranças de um verão

Quando Charles Foster Kane soltou da mão a redoma de vidro e pronunciou a palavra “rosebud”, uma revolução se anunciou na história do cinema. As extravagâncias técnicas que o diretor Orson Welles e o diretor de fotografia Gregg Toland imprimiram em Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941) assombraram o mundo cinematográfico. Em termos narrativos, camadas de flashbacks também inovaram na busca do jornalista pelo significado da palavra que Kane pronuncia antes de morrer. No entanto, a trama parte de recurso tão antigo quanto contar histórias: a volta à infância motivada por um objeto simbólico. 

Corta para 2001. O fotógrafo Bobby Garfield está em seu estúdio, fotografando uma redoma de vidro. Toca a campainha, ele recebe encomenda pelo correio. Abre a caixa e se depara com uma surrada luva de beisebol. Junto, recorte de jornal informa sobre a morte de um herói militar. Pensamentos de Bobby anunciam: “O passado pode chegar derrubando a sua porta. E você nunca sabe para onde ele vai te levar. Você só pode esperar que seja um lugar para onde você queira ir.” Bobby pega a foto de uma menina, coloca na carteira e sai em busca de seu passado. 

Segundo o roteirista Michel Chion, acessórios cenográficos podem ter papel revelador ou mesmo simbólico: “É o caso de objetos cuja posse é disputada e que representam o poder, a riqueza, o saber ou ainda a infelicidade, a lembrança, a infância (o trenó de Citizen Kane, que representa o objeto perdido).” Esses clichês narrativos são caros ao cinema clássico americano.  

A viagem leva Bobby ao funeral do amigo de infância Sully, dono da luva. Durante a solenidade, outro recurso narrativo comum é usado: flashbacks revelam os meninos Bobby e Sully e a menina Carol brincando no bosque.  

Lembranças de um verão é adaptação de texto de Stephen King, autor especialista no gênero literário que desperta emoções há tempos imemoriais. Um princípio de textos do autor é a volta à infância em um período determinado que demarca a passagem. Em toda boa narrativa de gênero como as do mestre Stephen King, o passado esconde mistérios. 

Personagens centrais para a elucidação do mistério escondido em um verão da década de 50, quando Bobby acaba de completar 11 anos, entram em cena quando o flashback toma conta da narrativa. A mãe do garoto, o pai ausente e Ted Brautigan, inquilino que chega para morar no andar de cima da casa de Bobby. 

Jacqueline Nacache indica que a forma mais segura de identificar o gênero consiste na análise do início do filme, quando elementos simbólicos e personagens são apresentados ao espectador. Não pretendo analisar passo a passo o filme. Concentro-me nos minutos iniciais para dizer do fascínio que sinto por narrativas que, de forma clássica, me permitem descobertas de mistérios envoltos aos personagens e me remetem a recantos insondáveis da memória. 

Lembranças de um verão trabalha com temas fundamentais na formação de todos nós: atitudes lúdicas da infância, bullying, amizade, o primeiro beijo, pacto entre amigos, a incompreensão do universo dos pais, assédio, o fascínio por um adulto que pode determinar como vamos enxergar o mundo (no caso de Bobby, aprender com Teddy a olhar o futuro). A guerra fria também demarca a narrativa, “homens ordinários” perseguem Teddy e algo que ele tem para uso em fins políticos.. 

O filme acontece com a simplicidade visual e técnica das narrativas clássicas, pontuada por frases de efeito e trilha sonora encantadora. Ao final do filme, fica da simplicidade o que todos nós buscamos por mais complexo que seja: “Aquele foi o último verão da minha infância.” 

Lembranças de um verão (Hearts in Atlantis, EUA, 2001), de Scott Hicks. Com Anthony Hopkins (Ted Brautigan), Anton Yelchin (Bobby Garfield), Hope Davis (Liz Garfield), Mika Boorem (Carol Gerber), David Morse (Bobby Garfield adulto).  

Referências:

O roteiro de cinema. Michel Chion. São Paulo: Martins Fonte, 1989

O cinema clássico de Hollywood. Jacqueline Nacache. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2005

Quando as luzes das marquises se apagam

O documentário começou como trabalho de conclusão do curso do diretor Renato Brandão quando estudava Cinema e Audiovisual na Escola de Comunicação e Artes da USP. As pesquisas abordaram o apogeu dos cinemas de rua em São Paulo, situados em torno das Avenidas Ipiranga e São João. As diversas salas na mesma região ficaram conhecidas como Cinelândia Paulista. 

Depoimentos relembram os tempos áureos dos cines Broadway, Ópera, Regina, Saci, Avenida, Marrocos, Jussara, República, Ritz, entre outros. Participam do documentário personagens como Ignácio de Loyola Brandão, José Moreira, Inimá Santos, Paula Freire Santoro, Máximo Barro, Carlos Augusto Calil e o empreendedor do ramo de cinemas Francisco José Luccas Netto.  

Como em outras metrópoles, as salas da Cinelândia Paulista deram lugar a cinemas eróticos, estacionamentos, igrejas, lojas de varejo. A resistência fica por conta do Marabá, única sala que permanece funcionando no circuito comercial. 

Quando as luzes das marquises se apagam – A história da Cinelândia Paulista (Brasil, 2018), de Renato Brandão. 

Com amor, Simon

O jovem Simon abre o filme apresentando sua família, sua vida normal de classe média e avisa: eu tenho um segredo. A narrativa segue o cotidiano de Simon em casa, no Colégio com os amigos e sua correspondência via e-mail com Blue, que também esconde a homossexualidade. A virada acontece quando Martin, colega de escola, descobre a correspondência e chantageia Simon, ameaçando divulgar as cartas. 

Com amor, Simon é singela e bela história de descoberta e revelação, com tocante sequência final no parque de diversões, metáfora da passagem da adolescência para a fase adulta. 

Com amor, Simon (Love, Simon, EUA, 2018), de Greg Berlanti. Com Nick Robinson (Simon Spier), Josh Duhamel (Jack Spier), Jennifer Garner (Emily Spier), Katherine Langford (Leah Burke), Alexandra Shipp (Abby Suso), Logan Miller (Martins Addison), Jorge Lendeborg Jr. (Nick Eisner), Keiynan Lonsdale (Bram Greenfild), Talitha Bateman (Nora Spier). 

O animal cordial

Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes. 

Yonlu

Yonlu, Ferrugem e Torquato Neto – Todas as horas do fim compõem filmes do cinema contemporâneo brasileiro que colocam tema tabu em discussão: o suicídio entre jovens. Enquanto Ferrugem é puramente ficcional, Torquato Neto documenta a carreira do poeta/letrista que participou da tropicália. Yonlu parte de um caso real: em 2006, Vinícius Gageiro Marques, 16 anos, se matou em sua casa, em Porto Alegre. O jovem fazia parte de grupos virtuais de jovens que sofriam com a depressão. Ele filmou e transmitiu on-line seu ato final.

O diretor Hique Montanari faz escolhas estéticas ousadas para recriar os problemas enfrentados pelo jovem. Vinícius era músico, poeta, artista promissor que depois da morte teve várias músicas gravadas. A narrativa usa as músicas para compor o perfil psicológico de Yonlu, provoca interações da animação e do grafismo em momentos de devaneio e coloca atores mascarados em cena com Yonlu para recriar fisicamente o mundo virtual do qual fazem parte os personagens. Um psicólogo, em entrevista a jornalista, explica didaticamente os problemas enfrentados por Vinícius e jovens no mesmo estado. O filme toca em tema polêmico com ousadia e sensibilidade.  

Yonlu (Brasil, 2017), de Hique Montanari. Com Thalles Cabral, Nelson Diniz, Lorena Lorenzo, Leonardo Machado, Liane Venturella. 

Histórias que nosso cinema (não) contava

Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

A morte de Stalin

A trama apresenta sucessão de situações cômicas, bem ao estilo comédia de erros, envolvendo os fatos reais que antecederam e sucederam à morte do ditador russo. Personagens reais se envolvem em tramas ficcionais, principalmente quando entra em cena uma pianista que seria a responsável pelo envenenamento de Stalin. O filme é baseado em revista em quadrinhos francesa e foi proibido pouco antes da estreia na Rússia (as associações com o atual momento soviético, comandado pelo longevo poder de Vladimir Putin são visíveis). Steve Buscemi, no papel de Nikita Kruschev, é o grande nome da película, comandando as intrigas para assumir o comando do partido comunista após a morte de Stalin. 

A morte de Stalin (The death of Stalin, Inglaterra, 2018), de Armando Iannucci. Com Steve Buscemi, Jeffrey Tambor, Jason Isaacs, Svetlana Stalina.  

Arranha céu – Coragem sem limite

O filme segue a estrutura clássica de superação. No início, o policial Will Sawyer não consegue impedir um atentado contra reféns. A consequência é a morte de inocentes e de alguns de seus colegas. Corta para dez anos depois, ele perdeu parte da perna no atentado, está casado com a médica que o atendeu, tem dois filhos. Will está fora da polícia, agora trabalha como consultor de segurança. Precisa aprovar o projeto de mega tecnológico prédio em Hong Kong. Terroristas invadem o prédio onde estão sua mulher e filhos.

O melhor de Arranha céu – Coragem sem limite são as referências a Duro de matar (1988), filme que catapultou a carreira de Bruce Willis no cinema e a reconstituição da clássica sequência final de A dama de Shanghai (1948), de Orson Welles. De resto, é comum filme de ação com sequências espetaculares de efeitos visuais.  

Arranha céu – Coragem sem limite (Skyscraper, EUA, 2018), de Rawson Marshall Thurber. Com Dwayne Johnson (Will Sawyer), Neve Campbell (Sarah Sawyer), Chin Han (Zhao Long Zhi), Roland Moller (Kores Botha).