O retorno de Mary Poppins

Vinte e cinco anos depois, Mary Poppins retorna à casa dos Irmãos Banks. Michael perdeu a esposa recentemente, luta para cuidar dos três filhos e preservar a casa da família. A irmã Jane tenta ajudá-lo enquanto convive com a solidão. O banqueiro Wilkins, vilão da história, dá prazo de dias para Michael quitar a hipoteca, do contrário perderá a casa. 

Os musicais têm capítulo à parte na história do cinema americano. O original Mary Poppins está entre os mais queridos desta história. A continuação preserva o charme, o olhar deslumbrado das crianças e dos adultos diante da babá que chega e vai embora voando com a sombrinha, não se sabe de onde, para onde. O espectador que ama musicais vai junto.  

O retorno de Mary Poppins (Mary Poppins returns, EUA, 2018), de Rob Marshall. Com Emily Blunt (Mary Poppins), Colin Firth (William Wilkins), Ben Whishaw (Michael Banks), Emily Mortimer (Jane Banks), Meryl Streep (Cousin Topsey), Lin-Manuel Miranda (Jack).

Colette

Keira Knightley encarna a escritora Colette que revolucionou a literatura erótica no final do século XX a partir da publicação do livro Claudine na escola. No entanto, o livro é assinado pelo marido, Willy, famoso editor da época. Com o sucesso do livro, Willy força Colette a escrever série baseada nas aventuras sexuais de Claudine. O estilo de vida do casal combina com as narrativas, os dois enveredam por jogos sexuais com diversos parceiros. 

O filme aborda um problema comum nas conservadores sociedades da época: mulheres que abdicam da autoria de obras artísticas para viverem à sombra dos maridos. A libertação de Colette acontece enquanto ela se reconhece nas aventuras amorosas até que se apaixona por uma jovem que assume identidade masculina na aristocrática elite francesa. 

Colette (Inglaterra, 2018), de Wash Westmoreland. Com Keira Knightley, Dominic West, Eleanor Tomlinson, Denise Gouch.

Chacrinha: o velho guerreiro

A história do popular e histriônico Abelardo Barbosa se confunde com a história do rádio e da TV no Brasil. Adaptado do espetáculo Chacrinha, o Musical, também dirigido por Andrucha Waddington e interpretado por Stepan Nercessian, o filme começa com o jovem Abelardo Barbosa em um navio, rumo à Europa. O navio é forçado a aportar no Rio de Janeiro devido a conflitos da Segunda Grande Guerra. 

Fascinado pela cidade maravilhosa, Abelardo, natural do Recife, decide ficar. Arruma emprego como animador de porta de loja e logo depois em uma rádio, onde assume a alcunha de Chacrinha. O resto é história. Do rádio para a TV, criando o personagem que arrematou multidões com sua irreverência e seus bordões. Hoje, com certeza, Chacrinha seria execrado por suas atitudes politicamente incorretas. Nos tempos áureos da TV ao vivo, era sinônimo de Ibope. 

Eduardo Sterblitch e Stepan Nercessian brilham na caracterização das fases do velho guerreiro. Os bastidores da TV, da política brasileira nos anos de chumbo da censura, ícones do mundo artístico que passaram pelos palcos do programa; tudo confere ao filme ar nostálgico e enriquecedor de nossa cultura popular. 

Chacrinha: o velho guerreiro (Brasil, 2018), de Andrucha Waddington. Com Stepan Nercessian, Eduardo Sterblitch, Gianne Albertoni, Laila Garin, Carla Ribas, Rodrigo Pandolfo.

O beijo no asfalto

O clássico texto de Nelson Rodrigues é conhecido: homem sofre acidente na rua e, pouco antes de morrer, pede um beijo na boca ao homem que tenta socorrê-lo. O pedido é atendido à vista de todos, inclusive um repórter que cobre casos policiais. Com ousadia, o ator Murilo Benício, em seu primeiro trabalho como diretor, transforma a peça em interação entre teatro e cinema, fotografada na bela estética noir, em preto e branco. 

Reunidos à mesa, no teatro, os atores ensaiam o texto, orientados pelo dramaturgo Amir Haddad. Montagem paralela intercala os diálogos com cenas do filme pronto. Lázaro Ramos, Débora Falabella e Stênio Garcia interpretam o trio de protagonistas. Otávio Muller é o jornalista inescrupuloso que manipula os fatos relacionados ao beijo para vender jornal. O beijo no asfalto é importante e atual em tempos das fake news. 

O beijo no asfalto (Brasil, 2017), de Murilo Benício. Com Fernanda Montenegro, Débora Falabella, Lázaro Ramos, Stênio Garcia, Otavio Muller, Augusto Madeira.

Cartas para um ladrão de livros

O documentário aborda a trajetória de Laéssio Rodrigues, ladrão de livros raros e gravuras valiosas do acervo de instituições públicas. A compulsão de Laéssio pela prática começa com a paixão por Carmem Miranda – para incrementar sua coleção de imagens, ele rouba fotos, artigos, revistas, tudo relacionado à cantora. Descobre a fragilidade das instituições com os acervos e passa a roubar livros raros, revendendo-os no mercado negro, acumulando dinheiro e bens materiais.

Os documentaristas partem de cartas trocadas com Laéssio na prisão. Grande parte da narração é feita pelo próprio ladrão de livros, entre os intervalos que sai do cárcere. O tom da narrativa é pessoal: Laércio reflete sobre seus atos, consequências e arrependimentos; as leituras das cartas revelam dúvidas dos diretores sobre o próprio documentário; depoimentos de arquivistas escancaram a revolta com o desaparecimentos de acervos valiosos. 

Cartas para um ladrão de livros (Brasil, 2018), de Carlos Juliano Barroso e Caio Cavechini.

Missão impossível – Efeito Fallout

Ethan Hunt está em arriscada missão envolvendo três ogivas de plutônio. Ele aborta os procedimentos quando vê sua equipe em risco e os artefatos caem nas mães de um grupo terrorista que passa a exigir a libertação do megaterrorista Solomon Lane. 

O sexto filme da série arrecadou cerca de 800 milhões de dólares nas bilheterias, se consagrando como o maior sucesso da franquia. Ação frenética e reviravoltas seguram a trama do início ao fim, com destaque para duas sequências de tirar o fôlego: a perseguição de veículos nas ruas de Paris e a impressionante sequência final do duelo dos helicópteros. Ethan Hunt/Tom Cruise provam que estão em forma e garantem vida longa a Missão impossível.

Missão impossível – Efeito Fallout (Mission: Impossibile – Fallout, EUA, 2018), de Christopher McQuarrie. Com Tom Cruise (Ethan Hunt), Henry Cavill (August Walker), Rebecca Ferguson (ilsa Faust), Simon Pegg (Benji Dunn). Ving Rhames (Luther), Sean Harris (Solomon Lane).

Homem-Aranha no Aranhaverso

A animação comprova que é possível ser original no clicherizado universo dos filmes de super heróis. A trama reúne seis versões do Homem-Aranha vindos de outras dimensões. O protagonista é Miles, garoto negro que vive em conflito com o pai policial e idolatra o tio grafiteiro. Durante uma incursão aos metrôs com o tio para grafitar, Miles é picado por aranha radioativa. Um portal é aberto e juntam-se a Miles as outras encarnações do Aranha: um Peter Parker barrigudo e desiludido, separado da mulher; a Mulher-Aranha Gwen Stacy, o Homem-Aranha noir, um incrível Porco-Aranha e Peni Parker, Garota-Aranha. 

Bom humor e reviravoltas dominam a trama. Os aracnídeos combatem o Rei do Crime e devem resolver o problema do portal para que cada um volte à sua dimensão de origem. Além de diversão garantida, a animação toca em questões filosóficas e existenciais envolvendo os personagens da infância à maturidade. 

Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: into the spider verse, EUA, 2018), de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothmann.

Caminhos ásperos

A trama narra o encontro entre o pistoleiro Hondo Lane, a fazendeira Angie Lowe e seu filho Johnny. Os três se conhecem na fazenda de Angie, o marido está ausente. É território apache em tempos de trégua, mas a paz está ameaçada pois os índios se preparam para a guerra e a cavalaria americana se posiciona na região. 

Caminhos ásperos segue a estrutura básica do gênero clássico: pistoleiro solitário chega a uma pequena fazenda, se apaixona pela mulher enquanto a ameaça indígena ronda. A virada acontece quando Hondo encontra o marido de Angie. O chefe apache Vittorio é destaque do filme: suas ações guerreiras são pontuadas por atitudes nobres. No final, uma frase define esses combates, glorificados pelo cinema americano, que massacraram a raça indígena: “É o fim de um modo de vida.”

Caminhos ásperos (Hondo, EUA, 1953), de John Farrow. Com John Wayne (Hondo Lane) e Geraldine Page (Angie Lowe), Lee Aaker (Johnny), Michael Patte (Vittorio). 

Os incríveis 2

A família Pêra está lutando nas ruas da cidade contra o poderoso Escavador. A destruição é generalizada e no final da batalha os super heróis são proibidos por lei de usar seus poderes e ficam enclausurados em casa. Entra em cena o milionário Winston Deavor e sua irmã Evelyn com uma proposta: Helena Pêra se juntar a ele e seus artefatos tecnológicos em batalha contra o crime. A ideia é resgatar a legião de super heróis. O problema é que, no primeiro momento, Roberto não pode participar das ações. Ele fica em casa cuidando dos filhos enquanto a mulher se transforma em celebridade, heroína no combate aos criminosos. 

A animação continua com o tom ácido de crítica ao universo dos super heróis. A novidade é o controle nas mãos de Helena, enquanto Roberto sofre com as agruras do trabalho no lar. O ponto forte acontece quando o bebê Zezé revela também ser dotado de poderes e protagoniza situações hilárias. Ação frenética e bom humor, receita garantida no universo da animação digital.  

Os incríveis 2 (Incredibles 2, EUA, 2018), de Brad Bird. 

Cafarnaum

Cafarnaum é de verter lágrimas em diversas cenas. Começa com Zain, garoto de 12 anos, preso por esfaquear um homem. Flashbacks narram a saga do garoto, morador de uma favela de Beirute. Ele tem relação protetora com a irmã mais nova e se revolta quando ela é oferecida a um comerciante para casamento. Ele foge de casa, empreende jornada miserável pelas ruas da cidade até ser abrigado por uma refugiada da Etiópia. 

A câmera realista acompanha a luta de Zain por sobrevivência em meio ao caos da capital libanesa. A humanidade e coragem do garoto são motivadores, como a dizer que resta sempre esperança na miséria; que é preciso combater com toda vontade a crueldade dos adultos que exploram até a morte homens, mulheres e crianças. 

Cafarnaum (Capharnaum, Líbano, 2018), de Nadine Labaki. Com Zain Al Raffea, Yordanos Shiferaw.