O tubarão de borracha

Pior que isso, o tubarão era ridículo. Nas palavras de Cohen: “Ele parecia um troço de borracha, completamente falso”. Tomou-se a decisão de sumir com o tubarão – na verdade, cortá-lo do filme, na montagem, adiando a primeira aparição do tubarão até o terceiro ato. Segundo Cohen, a ideia foi de Fields. “Verna foi a pessoa-chave em tudo o que aconteceu na finalização.” Ele diz que Spielberg ia tentar consertar o fracasso dos tubarões mecânicos usando cenas extraídas de documentários, intercalando-as com o material do filme. Mas “ela começou a perceber que aquilo que se imagina é pior do que o que se vê”. Cohen continua: “Ela meteu a tesoura no filme, arrancou tudo o que tinha tubarão e deixou só o resultado, as reações. Era muito mais elétrico.” Mas depois Spielberg alegou que já na filmagem ele percebera que precisaria fazer isso. “Os efeitos especiais não funcionavam, então eu tinha que pensar rápido e fazer um filme que não dependia de efeitos para contar a história”, ele diz. “Joguei fora a maior parte dos meus storyboards e apenas sugeri o tubarão.” Gottlieb concorda. “A decisão foi coletiva, com Spielberg na liderança. No início, um dos nossos modelos era O Monstro do Ártico, um grande filme de horror no qual você só vê o monstro no último rolo. Pensamos: ‘Vamos fazer isso’”.

O parágrafo acima, extraído do livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, de Peter Biskind, é exemplo das polêmicas que cercam a história de grandes sucessos do cinema a respeito da autoria. Um dos motivos do sucesso de Tubarão (Jaws,EUA, 1975) é a famosa música-tema de John Williams que anuncia a aparição do tubarão, criando um suspense estarrecedor. Na sequência final do filme, em algumas cenas do ataque ao barco, o tubarão aparece repentinamente, sem a música, quebrando a premissa já arraigada no espectador. O susto é inevitável.

Uma das versões no livro de Peter Biskind é de que a solução de não mostrar o tubarão é da montadora Verna Fields que cortou todas as cenas em que o monstro aparece devido a precariedade dos efeitos especiais. Nos extras do DVD, Spielberg declara que desde o momento em que resolveu fazer o filme já decidira que a aparição do tubarão seria apenas sugerida. A estratégia, segundo o diretor, ganhou conotação definitiva quando John Williams apresentou a música, pois as notas aceleram à medida que o tubarão se aproxima das vítimas, marcando o ritmo do suspense.

O que se sabe ao certo, pois neste ponto todos concordam, é que o tubarão-mecânico construído para o filme foi um verdadeiro desastre. Durante meses, diretor, produtores e elenco acompanhavam a luta da equipe de efeitos especiais para fazer a traquitana funcionar. Richard Dreyfuss diz que a frase que mais escutava era “tubarão não funciona, tubarão não funciona….”. Steven Spielberg pensou até mesmo em abandonar as filmagens.

Com relação aos atores, há ainda uma história interessante. Uma das cenas mais emocionantes do filme, o discurso de Quint (Robert Shaw) sobre o naufrágio do Indianápolis durante a Segunda Grande Guerra, foi reescrita pelo próprio ator. Grande parte do monólogo foi idéia de Shaw. E uma das frases famosas do cinema também foi idéia de ator. Na cena em que vê o tubarão pela primeira vez, Roy Scheider (que interpreta o chefe Martin Brody) improvisou a célebre frase “vamos precisar de um barco maior”.

Referência: Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood. Peter Biskind. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009

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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.
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