Realismo e poesia no cinema italiano

As temáticas do neo-realismo italiano têm vertentes. A trilogia da guerra de Roberto Rossellini aproxima-se do documentário, mostrando a realidade do conflito,  já que o diretor utilizou cenas reais captadas durante a segunda guerra mundial: Roma, cidade aberta (1945), Paisà (1946) e Alemanha ano zero (1947). Outros diretores enveredaram pelo drama social. Ladrões de bicicleta (1948) e Umberto D (1952), de Vittorio De Sica são os exemplos mais concretos. Já Luchino Visconti, que deu origem a este movimento com Obsessão (1942), assumiu o melodrama em seus filmes da fase neo-realista.

Luchino Visconti – um diretor de outro mundo, de Claudio M. Valentinetti, tem uma estrutura interessante: cada capítulo analisa uma fase do diretor, envolvendo suas incursões pelo teatro, ópera e cinema. E termina sempre com depoimentos de Visconti. Em alguns trechos, Visconti fala sobre o neo-realismo:

“O neo-realismo, como experiência e como poética, vale ainda hoje. O importante é se pôr naquela mesma atitude em que nos púnhamos então, mas com relação, repito, aos casos e aos problemas habituais. Volta-se sempre aqui a falar de problemas. Parece uma banalidade, mas não o é, porque falar de problemas ainda apavora muitas pessoas. De qualquer maneira, essa é a única inspiração do neo-realismo. Na realidade eu falo mais de realismo do que de neo-realismo. Nós precisamos encarar com uma atitude moral os acontecimentos, a vida: com uma atitude, afinal, que nos permita ver com olhar límpido, crítico, a sociedade como ela é hoje, e contar fatos que dessa sociedade fazem parte. Neo-realismo foi uma palavra inventada naquele momento, porque saíamos daquele cinema que sabemos, e precisávamos de novidades. Mas enfrentamos o tema que nos era permitido enfrentar daquele ângulo visual que foi sempre típico de um artista realista. Nosso realismo foi principalmente uma reação ao naturalismo, ao ‘verismo’, que nos chegava da França, e que tínhamos parcialmente aceito. Agora nós, através de experiências humanas e experiências sociais, como a guerra, a Resistência, de um lado nos soltamos daquelas escórias, do outro nos encontramos quase involuntariamente olhando os fatos com aquela atitude moral que dizia, que nos permitiu fotografá-los com verdade absoluta. E verdade não quer dizer ‘verismo’.”

As lembranças do diretor das filmagens de A terra treme (La terra trema, Itália, 1948) ajudam a entender a poética deste cinema, mesmo trabalhando com conceitos próximos da realidade. Revelam também um pouco da beleza do cinema de Luchino Visconti, certamente um dos maiores da sétima arte.

“Utilizar atores não-profissionais não é, de jeito nenhum, uma condição indispensável no neo-realismo. Claro, é possível escolher na rua as pessoas “verdadeiras” que aderem perfeitamente ao personagem, mas depois é preciso muito trabalho para transformá-las em atores. Passei horas e horas com os meus pescadores de ‘A terra treme’ para fazê-los repetir uma pequena frase.”

O segundo filme de Luchino Visconti segue à risca os preceitos do neo-realismo. A história é rodada em locações, uma pequena cidade de pescadores na Sicília. Os atores são os próprios pescadores. A equipe de produção é reduzida ao mínimo. Os equipamentos são apenas os essenciais.  A trama tem o tom de denúncia social. Além disso, Visconti escrevia o roteiro durante as filmagens. Depoimento de Visconti:

“O filme é realizado, todo, não só com personagens verdadeiros, mas sobre situações que se criam de repente, enquanto eu vou seguindo um leve argumento que, por força das coisas, é pouco a pouco modificado. Os diálogos eu escrevo na hora, com a ajuda dos mesmos intérpretes, isto é, perguntando para eles como instintivamente exprimiriam um determinado sentimento, e quais palavras eles utilizariam. O diálogo nascia então dessa forma: eu dava só o esboço, eles acrescentavam idéias, imagens, etc. Depois eu os mandava repetir o texto, às vezes por três ou quatro horas, assim como se faz com os atores. Mas eu não mudava as palavras. Tinham ficado fixas; como se fossem escritas. E, entretanto, não eram escritas, mas inventadas pelos pescadores. Quando Brancati que é um ótimo autor siciliano, ouviu esses diálogos, exclamou: ‘São os diálogos mais lindos do mundo! Ninguém teria podido escrever nada parecido!’ É verdade; esses diálogos são lindos porque são justos. São como uma parte daquela gente; até nos momentos dramáticos eles se expressam assim.” 

Outra ousadia do diretor foi usar o dialeto dos pescadores da Sicília, escolha que provocou revolta de parte da crítica. “A língua, depois: de toda parte chegam, contra Visconti, violentas acusações de esnobismo intelectual por ter utilizado o dialeto siciliano e por ter colocado na boca dos pescadores de Aci Trezza uns textos que, afinal, são de Verga, o que significa que não são propriamente populares e espontâneos.” 

É uma história real, uma contundente denúncia contra as condições de trabalhos dos pescadores. Os pescadores de Aci Trezza são explorados pelos atacadistas, trabalhando em péssimas condições, colocando a vida em risco no mar e vendendo o peixe a preço mínimo, apenas para sobreviverem. Os atacadistas enriquecem com a situação, até que Ntoni Valastro se rebela e passa a vender seu próprio peixe. A família consegue capital para investir no negócio, mas uma tempestade coloca tudo a perder. Os atacadistas, então, se vingam de Ntoni, provocando a degradação da família Valastro: eles perdem a casa, Ntoni se entrega à bebida, o irmão vai embora da cidade e se envolve com atividades ilícitas, a irmã é desonrada por um policial, os irmãos menores vão dormir todas as noites reclamando da fome.

O melodrama é o tom do filme, como vários outros de Visconti. A degradação da família toca fundo no espectador, com sequências de uma triste beleza: as mulheres olhando para o mar, ansiosas pela volta de maridos e filhos em dias de tempestade; os pescadores remando com esperança e determinação, os barcos lado a lado como a nascer uma consciência coletiva. A terra treme é um filme para se assistir com os olhos e o coração abertos.

Alberto Lattuada (1914/2005), outro importante autor do neo-realismo disserta sobre a poesia presente no movimento. Artigo de Mariarosaria Fabris sobre o neo-realismo italiano traz dois depoimentos de Alberto Lattuada que ajudam a entender, ou pelo menos fazem pensar um pouco mais, sobre a sensibilidade dos cineastas italianos desse período, sobre o  modo de enxergar o mundo de maneiras diferentes, buscando em situações cotidianas, em detalhes, a poesia que escapa da maioria dos passantes.

Primeiro, Lattuada fala sobre sua percepção ao fotografar.

“Ao fotografar, procurei manter sempre viva a relação do homem com as coisas. A presença do homem é contínua; e mesmo lá onde são representados objetos materiais, o ponto de vista não é o da pura forma, do jogo de luz e sombra, mas é o da memória assídua de nossa vida e das marcas que o cansaço de viver deixa nos objetos que são nossos companheiros.”

“Calçamento de tranquilas pracinhas, casas possuídas e abandonadas, velhos muros, morrinhos urbanos sufocados pelas pedras, homens nas ruas, homens trabalhando, homens suspensos pela voz da poesia, homens derrotados e, em todo lugar, em qualquer condição, a firme vontade de viver e a necessidade de amar e de esperar.”

Esses versos do cotidiano encontram no cinema seu reduto ideal. As situações descritas por Lattuada fazem parte do nosso dia-a-dia, mas a poesia só aparece naquele momento eternizado pelo olhar do diretor que capta o instante: um gesto, um olhar, a expressão facial, um objeto caído no chão compondo o cenário, a folha caindo lentamente, seixos rolando em uma paisagem deserta.

No segundo depoimento, Alberto Lattuada descreve os motivos que o levaram ao cinema.

“Levou-me ao cinema sobretudo o empenho de narrar histórias de homens vivos; de homens vivos entre as coisas, não as coisas em si.  O cinema que me interessa é um cinema antropomórfico [..]. A experiência me ensinou sobretudo que o peso do ser humano, a sua presença, é a única “coisa” que verdadeiramente preenche o fotograma; que o ambiente é criado pela sua presença viva e que, a partir das paixões que o agitam, isto adquire verdade e relevo, ao passo que até mesmo a sua momentânea ausência do retângulo luminoso reconduzirá cada coisa a um aspecto de natureza não animada.”

“O mais humilde gesto do homem, o seu andar, as suas hesitações e os seus impulsos sozinhos geram poesia e vibrações nas coisas que os circundam e nas quais se enquadram. Toda solução diferente do problema me parecerá sempre um atentado à realidade como ela se desenrola diante dos nossos olhos: feita pelos homens e por eles modificada continuamente.”

Alguns grandes filmes do neo-realismo italiano se aproximaram desse “mais humilde gesto do homem” gerando poesia. Ladrões de Bicicleta (1948), indiscutivelmente, em quase todas as cenas de pai e filho perambulando pelas ruas de Roma atrás da bicicleta roubada. Mas as cenas mais poéticas dos filmes neo-realistas estão em A Terra Treme (1948), de Luchino Visconti. O filme expõe a dura vida de pescadores de uma pequena cidade da Sicília. As cenas dos pescadores no mar, das mulheres olhando para o horizonte à espera de seus homens, da tempestade, expressam essa poesia que se manifesta diariamente nas relações entre o homem e a natureza. Poesia que grandes diretores, como Visconti, insistiram em manifestar, mesmo em um movimento que se definia como realista.

Referências:

Luchino Visconti. Um diretor do outro mundo. Claudio M. Valentinetti. Brasília: M. Farani Editora, 2006

Neo-Realismo Italiano. Mariarosaria Fabris. Artigo publicado no livro História do Cinema Mundial. Organização de Fernando Mascarello. São Paulo: Papirus, 2006

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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.
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