A dama do lago: o filme sob o olhar do detetive

Certos filmes têm um interesse experimental, funcionam como um balão de ensaio, nos quais o diretor testa novos procedimentos técnicas ou de linguagem. Em Napoleão (1927), Abel Gance ousou ao inventar o tríptico para dividir a tela e mostrar ações simultâneas ainda no cinema mudo. Festim diabólico (1948) e a Arca russa (2002): Alfred Hitchcock e Aleksandr Sokurov, respectivamente, experimentaram o filme em um único plano-sequência (Hitchcock enganou o espectador, o filme tem oito cortes mascarados, pois a câmera só comportava rolo de película de dez minutos. Sokurov se apropriou da tecnologia digital e fez o primeiro filme da história do cinema sem cortes). Christopher Nolan inverte a narrativa em Amnésia (2002), contando a história literalmente de trás para a frente.

A característica de A dama do lago (Lady in the lake, EUA, 1947), de Robert Montgomery é extrapolar no uso da câmera subjetiva, um antigo recurso de linguagem. Análise de Marcel Martin: “Muito cedo, portanto, a câmera deixou de ser apenas a testemunha passiva, o registro objetivo dos acontecimentos, para tornar-se ativa e atriz. Será preciso aguardar, porém, A dama do lago/Lady in the lake (Montgomery) para se ver nas telas um filme que utiliza de ponta a ponta a câmera ‘subjetiva’, isto, é, cujo olho se identifica com o do espectador por intermédio do olhar do herói.”

O filme começa na melhor tradição do cinema noir. O detetive Philip Marlowe (Robert Montgomery) está limpando sua arma, se volta para a câmera e conversa com o espectador. Marlowe é o célebre detetive criado pelo escritor Raymond Chandler. “Um homem sensível e inteligente como Philip Marlowe nunca seria um detetive na vida real”, diria o escritor.  A câmera continua fixa em Marlowe, enquanto ele explica ao espectador questões de sua profissão, como ganhar 10 dólares por dia para encontrar uma mulher. Ele passa então a contar sobre as manchetes de jornal daquele dia que relatam a busca de um assassino conhecido como “O caso da dama do lago.” Marlow diz que a verdade não é a que está nos jornais e relata suas investigações, começadas três dias antes.

A partir daí, a história recua em um longo flashback, narrada na primeira pessoa pelo detetive, técnica emprestada da literatura, basta lembrar da antológica primeira frase do romance Moby Dick: “Chamai-me Ismael”. O diretor Robert Montgomery usa a câmera subjetiva para simular a primeira pessoa no cinema. “Você vai ver como eu vi”, diz Marlowe.

“Em 1939, Orson Welles pensou em filmar Heart of darkness (baseado na novela de Joseph Conrad) usando sistematicamente esse procedimento, mas os produtores recuaram, assustados com sua ousadia. Em 1947, finalmente, realizando um projeto que acalentava desde 1938, Robert Montgomery rodou A dama do lago, filme interessante por sua concepção original, mas que resultou num fracasso.”

Marcel Martin atribui este fracasso à impossibilidade de identificação do espectador com o detetive. Aparentemente, a câmera mostra todas as cenas pelos olhos de Marlowe, portanto, seria um recurso intimista. Mas o recurso resulta em frieza.

“Por causa de sua vocação realista, o cinema nos faz conhecer dos homens sobretudo aquilo que em linguagem existencialista, se poderia chamar de sua maneira de estar no mundo… O que há de paradoxal em A dama do lago é que nos sentimos muito menos ‘com o herói’ do que se o víssemos na tela à maneira usual. O filme, ao buscar uma impossível assimilação perceptiva, impede precisamente a identificação simbólica.”

A falsidade é identificada em momentos preciosos do cinema tradicional, como na relação emotiva e física entre os personagens principais. Adrienne (Audrey Totter), secretária de um importante editor de livros, contrata os serviços de Marlowe para desvendar o “caso da dama do lago.” Os dois se envolvem amorosamente e são nestas cenas que o recurso da câmera subjetiva demonstra superficialidade.

Adrienne vai aos poucos se revelando, mas suas frases e olhares apaixonados não encontram correspondência, pois na verdade ela está diante da câmera de cinema. Sob o ponto de vista de Marcel Martin, a correspondência seria a troca de olhares, os famosos planos e contraplanos, o close no olhar, o primeiro plano de perfil no momento da aproximação dos rostos. Quando Adrienne beija Marlowe, o espectador tem certeza da impossibilidade do ato, a aproximação de seus lábios resulta em um fade artificial no momento do contato com a câmera.

“A dama do lago exagera no uso de um único recurso de linguagem. A magia do cinema consiste na variação da linguagem cinematográfica, provocando no espectador o efeito subjetivo. Um certo número de fatores cria e condiciona a expressividade da imagem. Esses fatores são, numa ordem que vai do estático ao dinâmico: os enquadramentos, os diversos tipos de planos, os ângulos de filmagem, os movimentos de câmera.

Referência: A linguagem cinematográfica. Marcel Martin. São Paulo: Brasiliense, 2007

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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.
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