A estrela cadente

Greta Garbo (1905/1990) abandonou o cinema em 1941, com apenas 32 anos e no auge da carreira. Ela nunca revelou os motivos da decisão, embora especulações apontem depressão devido a Segunda Guerra Mundial, ressentimento com os críticos que a elogiavam apenas como um dos mais belos rostos do cinema e ausência de projetos que a interessassem. Após o adeus às telas, Greta Garbo viveu praticamente reclusa em seu apartamento em Nova Iorque, evitando qualquer tipo de contato com a imprensa e limitando seu círculo de relacionamento a poucos amigos e familiares. Seus filmes mais importantes, que ajudaram a criar o mito da mulher bela, misteriosa e fria (Garbo nunca ri, diziam): Mata Hari (1931), Grande Hotel (1932), Rainha Cristina (1933), Anna Karenina (1935), A dama das camélias (1936) e Ninotchka (1939).

O trecho abaixo é do texto A estrela cadente, de François Mauriac (ensaio ficcional sobre os motivos do abandono de Greta Garbo).

“Compreenda-me, senhor… do fundo de um camarote em Nova York, em Chicago, em Viena, em Berlim, em Paris, vi frequentemente, numa semi-escuridão enevoada, essa multidão enorme, fascinada pelo meu rosto; parecia-me sempre em toda parte a mesma multidão, o mesmo monstro domado de onde subia, em direção à minha face, o incenso de milhares e milhares de cigarros. Não, é claro, em direção à minha face tal como ela é, em direção ao meu pobre rosto contundido, com traços de lágrimas, com a marca de beijos, com ligeiras rugas que a menor das dores imprime num rosto mortal, seja ele o mais belo e o mais querido dos rostos vivos.”

“Porque o meu verdadeiro rosto, eles não conhecem; e eu mesma o esqueci: para oferecer aos homens essa maravilha intemporal, esses esplendor de meus traços tal como, na tela, eles adoram, fui obrigada a alterar o rosto de criança que Deus me deu… Quem sabe se já desloquei minhas sobrancelhas… e não são, talvez, meus verdadeiros cílios que sombreiam os meus olhares. A carne jovem não produz mais calor, não irradia mais através da maquiagem, das roupas, das pastas. Eu fui destruída, fui sacrificada à imagem de uma beleza que pôde saciar esses milhões de desejos enganados, de esperas vãs. Eu sou o que esse adolescente não encontrará jamais e o que durante meio século esse velhinho procurará em vão, e o que essa mulher teria querido ser, para prender aquele que a traiu. O senhor compreende por que eu me escondo? É por pena deles e porque não quero que eles saibam que eu não existo.”

“Assim falava Greta Garbo.”

Referência:  O espectador noturno. Os escritores e o cinema. Jérôme Prieur. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.
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