Livrinhos de faroeste

Era sábado, pouco depois do meio-dia. Peguei os chumbinhos, fui até o quintal, encostei no muro uma latinha, voltei para o lado oposto e armei a espingarda. Mirei devagar e aproveitei, por instantes, a sensação do pequeno Joe na clássica primeira seqüência de Shane (1953). Puxei o gatilho. O estampido seco ecoou na cozinha, nos ouvidos de minha mãe.

Ouvi o grito às minhas costas: “Menino, onde você arrumou essa coisa?”. “Presente do pai.” Ela olhava sem entender. O que se seguiu foi uma discussão entre pais que varou a tarde e me impediu de dar outros tiros. O pai dizia que avisou a ela sobre a tal espingarda de aniversário. A mãe jurava que  quando ouviu “espingardinha de chumbo” acreditou se tratar de um brinquedo, nunca imaginou que aquilo atirava de verdade.

Mas foi a própria mãe quem me apresentou ao fascinante mundo do western, inclusive me presenteando com revólveres de espoleta. Minha mãe amava filmes de faroeste. Spaghettis italianos então, nem se fala. “Gosto mesmo é quando o mocinho mata três ou quatro de uma vez num duelo”. E emenda dizendo da paixão por Burt Lancaster e Kirk Douglas, notórios galãs de fitas de mocinhos e bandidos.

Ela me passou essa paixão associada a outra grande herança: o gosto pela leitura. Pelo menos uma vez por semana, íamos a casa de seu irmão buscar livrinhos de faroeste para ler. O tio abria o guarda-roupa onde guardava pilhas e pilhas daquela literatura descartável, escrita em série por autores desconhecidos, a maioria assinando com pseudônimo. As tramas giram em torno do mesmo assunto: ladrões de gado, tenentes do exército e índios, vinganças familiares, assalto a bancos, cidades assoladas por bandoleiros e um pistoleiro solitário com sentimentos nobres para salvar a cidade.

Eu e a mãe líamos pelo menos uns dois por semana e voltávamos para buscar mais na casa do tio. Daí para as sessões da tarde que não se cansavam de reprisar sempre os mesmos westerns foi um salto. Assistíamos juntos, fascinados.

Com o tempo, a mãe se acostumou aos meus tiros em latinhas de conserva e tudo o mais inanimado que pudesse servir de tiro ao alvo. Às vezes, após um estrondo maior, eu ouvia um suspiro vindo de dentro da casa e a imaginava no gesto solene do sinal da cruz.

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