Diário

Juntei os pedaços
eram apenas papéis
cartas da vida inteira
vestígios de alguém
que agora junta palavras
no quarto abandonado. 

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Despedida

Digo sem amargura
calma irrefletida
pode ser cansaço
vontade de ir embora
ver o tempo tomar conta
digo sem amargura
como quem foi despedido
do emprego que não queria
nós já não somos dois.

É hora de respirar futebol

A minha juventude foi marcada por dois tristes dias. O primeiro, em 1978. Atlético e São Paulo decidiram no Mineirão o Campeonato Brasileiro de Futebol. A decisão por pênaltis decretou algo inacreditável no futebol: o Atlético se tornou o único vice-campeão brasileiro invicto. Lembro-me da mãe tentando me consolar, “é apenas um jogo de futebol”, enquanto eu entrava noite adentro às lágrimas.

O segundo triste dia, em 1982. O inacreditável novamente dominou o mundo do futebol quando Paolo Rossi fez o terceiro gol para a Itália. Lembro-me de levar a namorada em casa após o jogo. O vazio das ruas, das praças, dos bares, era o retrato de um país desolado. O time de Telê Santana voltou para casa sem o título, mas deixou o mundo fascinado com uma seleção que jogava como artistas, buscando a beleza.

Dias tristes são superados por dias alegres. Em 1994, o Brasil foi campeão Mundial de Futebol. Em 2013, o Atlético campeão da Libertadores da América.  Não consigo me lembrar da sensação que senti nestes momentos, o coração tem reações imprevisíveis, sei apenas que ele me levou ao indescritível quando terminaram aquelas disputas de pênaltis. Em 2002, o coração voltou a acelerar em uma manhã de domingo, como fazia entre os anos 80 e 90 quando Nelson Piquet ou Ayrton Senna cruzavam a linha de chegada em primeiro nos circuitos mundiais de Fórmula 1. Ah, este mundo do esporte…

Agora, é hora de respirar futebol. Lembrar ao coração do conselho da mãe, “é apenas um jogo de futebol”. Ele retruca: “É mais do que um jogo, é Copa do Mundo.”

Noite de lua cheia

Eduardo acordou e, em poucos segundos, rememorou a noite. Sempre ficava inquieto, cismava, quando ela dizia “é noite de lua cheia”. Com o tempo, descobriu que Marina, em noites destas, anda por outros mundos.

Ele acorda cedo. Ela, nem tanto. Libertou-se da coberta, notou as manchas de suor no lençol. Lua cheia. Dez minutos de água morna, depois a cozinha, o cheiro de café fresco…

Ouviu barulho. Foi até o quarto, Marina troca os lençóis, joga a roupa suja de lado. Ela nunca se importou com casa em ordem, coisas jogadas pelo chão. Enquanto ela penteia os cabelos, Eduardo deita na cama apenas para sentir o cheiro de cama e travesseiros novos.

Sentam-se juntos à mesa da manhã. Café com leite, um bolo de véspera, queijo derretido no pão. Caminham de mãos dadas até a banca. Compram a Folha de São Paulo, uma revista de decoração, outra de cinema.  Jornais e revistas de domingo. Caderno de esportes, cultura, política, um rápido olhar pela economia, fotos de casas, de gente bonita do cinema, manhã que passa despretensiosa.

À tarde, depois do sono leve, um filme. Compram os ingressos, andam pelo shopping, minutos antes da sessão começar, entram. Depois, a praça de alimentação. Eduardo toma um chopp, Marina um suco de laranja. Percorrem sem rumo algumas ruas da cidade, o carro em marcha lenta, faróis baixos iluminando um ou outro casal de namorados dizendo adeus na porta de casa. Lá pelas nove, estão em casa.

Ele coloca música, ela prepara algumas bobagens para comer. A pequena cachorra esparramada na sala, jornais desarrumados na mesa, pensamentos indefinidos. Marina está na cadeira de frente para Eduardo. Pega a revista, ajeita os cabelos atrás da orelha, de vez em quando levanta os olhos para o marido com um pequeno sorriso. A paixão pelo cinema invade a casa. Tudo na vida poderia ser como filme: música de fundo, um casal apaixonado trocando olhares, o close demorado, desses que ficam na memória, no belo rosto de Marina.

Eduardo e Marina ficam se olhando sem saber, o domingo adormecendo, a lua cheia despontando na janela.

Livrinhos de faroeste

Era sábado, pouco depois do meio-dia. Peguei os chumbinhos, fui até o quintal, encostei no muro uma latinha, voltei para o lado oposto e armei a espingarda. Mirei devagar e aproveitei, por instantes, a sensação do pequeno Joe na clássica primeira seqüência de Shane (1953). Puxei o gatilho. O estampido seco ecoou na cozinha, nos ouvidos de minha mãe.

Ouvi o grito às minhas costas: “Menino, onde você arrumou essa coisa?”. “Presente do pai.” Ela olhava sem entender. O que se seguiu foi uma discussão entre pais que varou a tarde e me impediu de dar outros tiros. O pai dizia que avisou a ela sobre a tal espingarda de aniversário. A mãe jurava que  quando ouviu “espingardinha de chumbo” acreditou se tratar de um brinquedo, nunca imaginou que aquilo atirava de verdade.

Mas foi a própria mãe quem me apresentou ao fascinante mundo do western, inclusive me presenteando com revólveres de espoleta. Minha mãe amava filmes de faroeste. Spaghettis italianos então, nem se fala. “Gosto mesmo é quando o mocinho mata três ou quatro de uma vez num duelo”. E emenda dizendo da paixão por Burt Lancaster e Kirk Douglas, notórios galãs de fitas de mocinhos e bandidos.

Ela me passou essa paixão associada a outra grande herança: o gosto pela leitura. Pelo menos uma vez por semana, íamos a casa de seu irmão buscar livrinhos de faroeste para ler. O tio abria o guarda-roupa onde guardava pilhas e pilhas daquela literatura descartável, escrita em série por autores desconhecidos, a maioria assinando com pseudônimo. As tramas giram em torno do mesmo assunto: ladrões de gado, tenentes do exército e índios, vinganças familiares, assalto a bancos, cidades assoladas por bandoleiros e um pistoleiro solitário com sentimentos nobres para salvar a cidade.

Eu e a mãe líamos pelo menos uns dois por semana e voltávamos para buscar mais na casa do tio. Daí para as sessões da tarde que não se cansavam de reprisar sempre os mesmos westerns foi um salto. Assistíamos juntos, fascinados.

Com o tempo, a mãe se acostumou aos meus tiros em latinhas de conserva e tudo o mais inanimado que pudesse servir de tiro ao alvo. Às vezes, após um estrondo maior, eu ouvia um suspiro vindo de dentro da casa e a imaginava no gesto solene do sinal da cruz.