Sabonete líquido

Jaz em mim
seu cheiro de sabonete líquido
quando eu morrer
vou impregnar a cova
com cheiro de sabonete líquido.

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A jornalista

Ela gosta de curta-metragem
festivais de filme tailandês
tudo do Kieslowiski
Buñuel e Pasolini
mas seu coração bate mesmo
é com cena de beijo.

Ela estudou jornalismo
doutorado no exterior
vai a congressos
participa de bancas e tudo mais
mas perde a cabeça mesmo
é com sorriso de galã.

Ela lê Sartre, Calvino
Tchekhov e Dostoievski
sabe tudo de sociologia
se arrisca na psicologia
mas seu corpo treme mesmo
é com poeminha de amor.

Ela escolhe livros para mim
me empresta o ilustrissíma
fala de arte moderna
e do filme the square
mas se derrete mesmo
é quando digo I love you.

O aniversário da menina

Pensei que era apenas mais um namorado, até que ela anunciou-se grávida. Ela já dissera em conversas reservadas que se chegasse aos trinta solteira partiria para a produção independente.

A filha nasceu provocando uma revolução naquela mulher. De adolescente rebelde, jovem mais preocupada com festas, bares e noitadas, a mãe caseira, gastando todo o tempo que tinha depois do trabalho com sua pequena.

O jovem pai era intermitente. Era visto em aniversários, reuniões, depois, sumia. Falavam em casar, juntar, mas não passava disso. Uma noite, na casa da namorada, pediu o carro do futuro sogro emprestado. Saiu, quase madrugada, dizendo que voltaria dali a pouco. Desapareceu durante três dias. Outro pai entrou na história. Ele já conhecia o enredo do filho desde a adolescência e sabia onde encontrá-lo. Partiu para aqueles pontos obscuros que todos temem e muitos insistem em freqüentar. Encontrou o carro depenado, sem rodas, sem ferramentas, sem acessórios. Conseguiu resgatar tudo a custo da experiência em negociações que ganhara nesses casos. Devolveu o carro, pediu desculpas, levou o filho consigo para mais uma temporada em clínicas.

Revelou-se o segredo daquela luta silenciosa e permanente. O jovem desapareceu durante dois anos. As notícias vinham de seu pai: está no interior de São Paulo. Entre uma clínica e outra, notícias mais desanimadoras: roubou TV, som, até roupas, roubou tudo da casa dos pais. O pai, diziam alguns, entregara os pontos. Nas vezes em que era visto, tinha sempre os olhos tristes, semblante velho e cansado. Logo depois, sabia-se que estava acompanhando o filho, agora em uma fazenda no interior de Minas.

No aniversário de dois anos da menina, voltei a ver o jovem pai. Contou que estava trabalhando na fazenda e não pretendia voltar para Belo Horizonte. Parecia nervoso, inquieto, andando pela casa atrás da filha. Depois dos parabéns e fotos de costume, ele pediu que todos na festa se reunissem na sala.  Ficou algum tempo calado, depois se levantou  e falou abertamente.

– Acho que todos sabem do meu problema. Não me arrependo das coisas que fiz, é a minha vida. Arrependo-me do que não fiz, principalmente de não ter visto a minha filha crescer. Tirou as alianças do bolso e fez o pedido de noivado. O pai dele, encolhido no sofá, não tinha os olhos tristes. Pareceu-me muito mais um olhar atento e cuidadoso.

A menina brincava com sua mais nova boneca no chão da sala, estranhando aquele mundo de gente ao redor. De repente, ela tentou se levantar, tropeçou na boneca quase do seu tamanho e caiu, rosto no chão. Várias mãos acudiram ao mesmo tempo, mas as do jovem pai chegaram primeiro. Levantou a filha, apertou-a contra o peito, embalando-a carinhosamente. A menina ficou ali, no colo do pai, o choro acabando aos poucos.

Os convidados foram se retirando. O jovem pai foi embora. Foi a última vez que o vi.  

Jules et Jim

O amante da minha mulher deixou a cama e perguntou:

– Posso tomar um banho antes?

– À vontade – respondi. Fui até o barzinho e coloquei um copo de uísque puro, sem gelo. Coloquei um CD da Cássia Eller – minha mulher detesta Cássia Eller. Aumentei o volume. Tirei o paletó, a gravata. Pensei em trocar a camisa, colocar uma camiseta daquelas que a gente ganha em festas de final de ano, não teria problema se manchasse de sangue. Não, camisa de manga comprida, com os punhos dobrados, é mais cinematográfico.

Minutos depois os dois saíram do quarto. Ela, de roupão, ele, de calça jeans e camisa esporte, os cabelos despenteados. Sentaram-se no sofá.

– Quer tomar uísque, vodca? – perguntei ao invasor.

– Obrigado, só tomo cerveja.

– Pega uma pra ele na geladeira. – minha mulher trouxe uma lata de Skol. Ficamos os três sentados, mudos. Minha mulher tentou dizer algo, mas desistiu diante da indiferença.

– Aqui, ou lá na rua? – perguntei depois que ele acabou de tomar a cerveja. Ele olhou em volta, talvez medindo o espaço.

– Não sei. Os móveis, podem quebrar. Lá na rua, os vizinhos…

– Todo mundo já deve saber mesmo. Quanto aos móveis, compram-se outros. O que é que você acha meu bem? – ela olhou de relance para os seus móveis queridos.

– Aqui, aqui é melhor, mas você tem certeza?

A briga durou cerca de um minuto. Imaginava algo como Charlton Heston e Gregory Peck em  Da terra nascem os homens: socos elegantes, respeito mútuo. Mas depois de alguns pontapés desajeitados, mais ao estilo da degradante refrega em Rashomon, terminamos os dois engalfinhados no tapete da sala. Até mordida teve.

Quando nos separamos, cada um se arrastou para um canto da sala, ofegante. Olhei em volta, descobri surpreso que nada havia se quebrado. Apenas algumas manchas de sangue, quase imperceptíveis, no tapete da sala. Senti um gosto de sangue na boca. Meu olho doía e não conseguia levantar os braços sem uma pequena pontada no ombro. Percebi que minha mulher não chorava mais. Seu rosto estava sereno, uma expressão desconhecida. Olhava para mim, depois para ele. Ela foi até a cozinha e voltou com um pano molhado. Debruçou-se à minha frente e começou a limpar o sangue da minha boca. Senti no seu hálito um cheiro há muito esquecido. Seus olhos pararam algumas vezes nos meus. A princípio, reticentes, se desviavam. Depois, atrevidos, o pano esquecido em suas mãos.

Ela levantou-se e caminhou para o outro lado da sala. Sentou-se ao lado do amante e repetiu o ritual. Passou o mesmo pano, já sujo do meu sangue, pelo rosto dele. Calma, medindo os gestos. Ela estava de costas para mim, mas senti os mesmos olhos que me fitaram se revelando também para ele.

O bosque das ilusões perdidas

Quando Luiz Augusto desceu para o escritório, às três horas da madrugada, a casa estava silenciosa, livre da agitada reunião à mesa, cerca de seis horas atrás. Os filhos vieram de visita naquele final de semana. Durante o jantar, os netos corriam em volta da mesa, gritando, trombando uns com os outros, diante dos olhares condescendentes dos pais. A cada grito, Luis Augusto tremia por dentro em uma série de impropérios silenciosos. Respirava e voltava para o prato de massas e o copo de vinho.

Luiz Augusto cresceu em uma família de oito irmãos, em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. A família morava em casa de três quartos, os filhos amontoados nos cômodos, a balbúrdia tomando conta da casa até quase meia-noite. Quando todos dormiam, Luiz Augusto abria os olhos e aproveitava o silêncio da noite. Caminhava até o canto da cozinha, atrás da enorme dispensa de madeira, acendia uma vela e abria o livro.

O menino descobrira os livros influenciado pelo tio metido a escritor que o levava à biblioteca e, antes de emprestar um exemplar, discorria sobre as histórias. O Capitão Ahab em sua luta contra a baleia branca. Luis Augusto não entendia o que fazia um homem vagar pelos mares à procura de um peixe. “Baleia é mamífero.” – corrigia o tio. “Bem, se vive no mar, deve ser peixe. E o Capitão é um idiota em perder seu tempo olhando para o mar durante dias e dias à espera de Moby Dick. Afinal, já tinha perdido a perna…” – refletia o jovem leitor.

De quem Luiz Augusto gostava mesmo era de Sancho Pança. Lendo as histórias do desventurado Quixote e seu fiel criado, o menino gargalhava sem parar. Foi desvendando moinhos de vento que Luiz Augusto descobriu que letras são as verdadeiras asas da imaginação. Pegou gosto e nunca mais largou dos livros.

No final da adolescência, se mudou para a capital. Na faculdade de direito, lia tudo o exigido e muito mais. Filosofia, sociologia, compêndios legais, história, literatura, poesia. Sozinho, no quarto da pensão onde morava, no centro de Belo Horizonte, devorava todos os livros que precisava para sua formação acadêmica. Terminava a noite com um clássico da literatura jogado no peito, vencido pelo cansaço. Zola, Balzac, Tolstói, Dostoievski, Dickens, Flaubert, Proust, todos passavam pela sua cabeceira e depois eram devolvidos à biblioteca.

Luiz Augusto se formou primeiro da classe. O esforço rendeu ao advogado uma brilhante carreira na área criminalista. Trabalhava entre doze e quatorze horas por dia, acumulou considerável fortuna com os casos famosos que defendeu, se casou com a filha de um médico famoso.

A carreira cobrou um preço caro: júris abarrotados de gente, uma profusão de microfones nas saídas dos tribunais, salões apinhados de signatários da alta sociedade se empanturrando de conversa fiada, vinho e quitutes. A cada tormento diário, o advogado só pensava em chegar em casa, se trancar no seu escritório, acender a luz do abajur da mesa, abrir um romance e se deixar, à meia-luz, em seu frágil momento de solidão.

Vieram os filhos, quatro, com eles a algazarra, a irritante necessidade de gritar enquanto correm no quintal, ao redor de mesa ou em qualquer outro cômodo da casa, até mesmo no escritório do pai. Luis Augusto já não podia mais trancar a porta, pois vez por outra bateria uma bola, uma boneca, um pedaço de pau, a cabeça de um dos filhos arremessada pelo irmão, e, pior de tudo, os punhos da mulher exigindo que o pai tomasse uma atitude contra aqueles delinquentes infantis. O jeito então foi passar a ler de madrugada. Acordava às três horas e caminhava na surdina para seu escritório.

O custo novamente foi alto: um enfarte aos 55 anos. Como não podia diminuir o trabalho e as altas rodas da sociedade, que, no caso, estão relacionados, eliminou o restante que preenchia sua vida. O escritório passou a ficar fechado por fora.

Até que um dia, visitando um cliente em um condomínio na Serra do Cipó, se encantou pela solidão da vista das montanhas. O advogado tinha 60 anos quando comprou a casa na Serra, escondido de todos, até mesma da mulher. Adotou a casa como seu refúgio. Durante um dia no meio da semana, acordava cedo e dirigia por quase cem quilômetros até sua casa na montanha. Passava o dia entre seus livros.

Quando se aposentou, saiu de casa em uma madrugada de segunda-feira. Deixou um bilhete de despedida para a mulher. Na subida da serra, em uma das curvas da estrada, parou o carro, desceu para olhar a vista. O sol amarelo nascia atrás das montanhas. Nuvens esparsas recortavam o céu. Teve um desejo repentino de explodir a estrada, fechar a passagem do desfiladeiro, se houvesse. Diante da impossibilidade, se sentou à sombra de uma árvore e abriu o livro. O dia já ia pelo meio quando Luiz Augusto terminou de ler O bosque das ilusões perdidas.

O cinema e o silêncio

A máscara negra desceu sobre o rosto deformado de Anakin Skywalker. Certos closes tomam conta dos nossos olhos e do que eles escondem. No final de A Vingança dos Sith, a máscara de Darth Vader dominou o cinema através do mais completo silêncio.

Em 1980, entrei no cinema tentando dominar a ansiedade que me persegue desde a década de 70, antes de cada filme da série Star wars. Naquele ano, o filme ainda era chamado de Guerra nas estrelas e parecia a história de Luke Skywalker, guerreiro estelar, samurai, pistoleiro e piloto de combate. Dentro do cinema lotado, os adolescentes gritam e assobiam a cada batalha de O império contra-ataca. Impossível ficar indiferente diante do idealismo místico de Luke e do romantismo cínico de Hans Solo.

Luke Skywalker finalmente se encontra com Darth Vader. Eles duelam pelos corredores da Cidade das Nuvens. A cena é famosa. Um dos vilões mais lembrados do cinema decepa a mão do herói, o jovem cavaleiro jedi procura fugir mas tem abaixo o abismo. Luke agarra-se como pode, a dor estampada no rosto. Darth Vader estende a mão para ele e numa frase revela o segredo da saga.

Não sei quantas pessoas cabiam naquele velho e grandioso cinema que guardava o glamour da sétima arte: tapetes vermelhos, dois andares, escada em caracol, tela de 70 mm. Quando a câmara deu um close em Darth Vader e a voz impiedosa de James Earl Jones invadiu o cinema, nada mais se ouviu. Nem um som, nem um suspiro. O fascínio da revelação se traduziu em um completo silêncio.

A vingança dos Sith encerra uma história de seis filmes. História que perdeu muito da magia e ganhou efeitos visuais espetaculares, que trocou o glamour por uma franquia milionária, a marca Star wars. A vingança dos Sith invadiu metade dos cinemas no mundo inteiro, domina jornais, revistas, programas de TV e a sempre inquietante Internet, que acabou com a sensação de ser surpreendido por uma frase tão banal quanto “Eu sou seu pai”.

Mas dentro do cinema, quando a máscara de Darth Vader tomou conta da tela, o silêncio era o mesmo de 1980.