Herói da infância

Aprendi a nadar antes dos cinco anos de idade. Entrava em rios, piscinas, lagoas. Atravessava correnteza e distâncias com o pai atrás – ele era a segurança da chegada. Meu pai era pequeno, magro e deslizava na água. Cortava a piscina com uma elegância de causar inveja. Um de seus amigos da juventude, companheiro de cinema, sempre dizia quando o via nadando: “Lá vai o Johnny Weissmuller”. Os outros amigos não sabiam pronunciar o nome e passaram a chamá-lo de Tarzan.

Johnny Weissmuller (1904-1984), nascido na Romênia, ganhou cinco medalhas de ouro de natação nas olimpíadas de Paris – 1924 e Amsterdã – 1928. Foi o primeiro atleta a nadar 100 metros rasos em menos de um minuto. Durante a carreira, estabeleceu 67 recordes mundiais.

Forte e bonito, foi seduzido primeiro pela publicidade, posando como modelo para uma campanha de maiôs, e logo depois pelo cinema. Em 1932, vestiu a tanga de Tarzan,  personagem que o acompanharia pelo resto da vida. “Quando cheguei a Hollywood, o produtor disse que meu nome era longo demais para caber no letreiro.” – relata Weissmuller. O diretor W. S. Van Dyke (1889-1943) explicou ao produtor. “Você não sabe quem ele é? O maior nadador do mundo. – o produtor concordou em não mudar o nome e ainda sugeriu incluir algumas cenas de natação no filme.”

Tarzan, o Homem Macaco foi lançado em 1932. Além das cenas de natação, Johnny Weissmuller personificou o grito mais famoso da história do cinema. Ele interpretou Tarzan em 11 filmes. A partir de 1948, incorporou outro personagem, Jim da Selvas, em mais 16 filmes. Morreu pobre e esquecido no México, num hotel em Acapulco, em 1984.

Quanto ao outro Johnny Weissmuller, herói da minha infância, dividiu comigo algumas braçadas e muitas, muitas conversas sobre cinema. Meu pai me apresentou às pequenas felicidades do dia-a-dia: uma piscina, um jogo do Atlético Mineiro, uma sessão de cinema.

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Gotas de óleo

Um dia jogo óleo nos cabos desse elevador.

– Pensando na vida Seu Joaquim? – perguntou Dona Marta, depois de observar por alguns segundos o vizinho olhando para o teto do elevador.

Há quase quarenta anos morando naquele prédio, Joaquim tinha a impressão que cabos, roldanas, máquinas e portas daquele elevador nunca tinham visto lubrificação. Depois de acabar com a pequena fortuna que o avô lhe deixara, ele fora ganhar a vida consertando pequenas máquinas. Joaquim tinha prazer em esguichar óleo Singer nas junções, fazer a engrenagem funcionar lentamente até deixar de ouvir completamente o ruído de máquina contra máquina. Ele voltou os olhos para Dona Marta. Lembrou-se sem saudade de uma noite lá pelos anos cinqüenta. O marido viajando, os dois no mesmo elevador. A porta se abriu no andar onde ela morava. Marta ficou olhando para Joaquim, a porta voltou a se fechar e ela subiu para o apartamento dele.

– É a única coisa que a gente faz agora Dona Marta, pensar na vida  – respondeu Joaquim. O elevador parou no andar de Dona Marta. Ela saiu lentamente, sem mesmo se despedir.

Joaquim entrou no apartamento pensando na vergonhosa derrota daquela noite. Eu nunca deveria ter deixado o rei sem proteção. Rainhas foram feitas para isso, proteger os reis. Pensou em outros jogos, em noites no Cassino da Urca rodeado de fichas e dançarinas. Talvez fosse a sua sina, perder, perder e sair com uma garota pendurada em seu pescoço, cheirando a bebida, para uma noite qualquer em um quarto de hotel.

Preciso me concentrar. Amanhã pego de jeito aquele velhaco do Valdir. Abriu a janela da sala. Ouviu irritado o ranger de janela velha. Armou o tabuleiro de xadrez na mesa para pensar. Amanhã pego o Valdir de jeito.

O silêncio do apartamento. Não consigo me concentrar. Música, música. Preciso de música. A voz de Frank Sinatra invadiu seus ouvidos. Há muitos e muitos anos, em que ano Joaquim? não me lembro mais, final de década de 30, sim, é isso, estava em Nova Iorque. Fui com amigos a um bar, final de noite, uma orquestra desconhecida cantando sabe-se Deus para quem. A plateia mais preocupada com o último uísque, homens e mulheres cheirando a álcool, fumo, extasiados da noite. No palco, um rapaz de uma magreza tímida e feia cantava. Alguém disse: É o Frank Sinatra. Esse menino vai longe.

Virou a capa do disco. “Para Joaquim, amor da minha vida. Da sua Eleonora”. A voz de Frank Sinatra tomou conta “And now, the end is near, and so I face, the final curtain / my friend, I’ll say it clear / I’ll state may case, of wich I’m certain / I’ve lived, a life that’s full / I’ve traveled each every highway / And more, much more than this / I did it my way.”

Quem é Eleonora? Não consigo me lembrar. Eleonora. É a Nora? Não. Nora tinha cabelos vermelhos, um jeito inesquecível de descer pelo meu corpo. Preciso me concentrar, pegar o Valdir de jeito amanhã. Vou dormir. Fechou a janela. Esse barulho.

Joaquim foi até a dispensa, pegou sua caixa de ferramentas. O velho tubo de óleo Singer. Derramou algumas gotas na janela, começou o lento movimento de vai e vem. Mais algumas gotas, vai e vem, o ruído sumindo aos poucos. Mais algumas gotas, mais, a janela agora desliza suave, sem barulho. Joaquim podia ouvir até mesmo a brisa solitária da noite.

O velho na porta do quarto

Abri os olhos na escuridão da madrugada. Em frente à porta, estas portas de duas bandas dos quartos de casas do interior, estava sentado um velho. Cabelos brancos cortados rentes, roupas cinzas, grossas, sujas, como se acabasse de voltar do trabalho da roça. Estava sentado em um tamborete, baforando um cachimbo negro, enchendo de fumaça e medo o quarto. A escuridão era total, mas o velho estava ali, na minha frente, como se iluminado por uma luz fraca, recortando-o do negrume do quarto.

Fechei os olhos, escondi a cabeça debaixo do cobertor. É um sonho, um resto de sonho. Impossível. Era tão real que eu poderia tocá-lo se tivesse coragem para me levantar. Mesmo debaixo do cobertor, que me sufocava cada vez mais, eu podia sentir o cheiro do cachimbo, da fumaça asfixiante entrando pelas frestas da cama. Esperei alguns minutos sem pensar em nada mais a não ser o velho na porta do quarto.

Coragem. Sou apenas um menino, é hora de mostrar coragem. Para quem? Estou sozinho nesse quarto escuro. Mãe!… Porque esses tios do interior colocam janelas e portas de madeira tão densas, tão perfeitas em seu fechamento que não permitem entrar sequer uma luz do poste da rua, tão fechadas em si mesmas que nem a lua cheia dessas noites de inverno consegue deixar um ponto de luz que seja no chão do quarto.

Coragem. Abaixei devagar o cobertor, tentei acostumar os olhos à densa escuridão olhando primeiro para o teto. Deixei o cobertor na altura do queixo, levantei a cabeça na direção da porta. Respirei fundo, pensei em coisas boas: beijo de mãe, brincar de tico-tico-fuzilado depois da chuva, pegar o boletim na escola com média azul em matemática, dar voltas na praça em sentido contrário à menina que eu tinha certeza amaria por toda a vida. Abri os olhos. A fumaça asfixiante, o velho calmo, bonito, agora vejo, bonito como um avô, continuava sentado na porta do quarto. Imóvel, olhos fixos em mim como se nada mais pudesse fazer. A beleza daquela visão não afastou o medo. Um medo cada vez maior. Vontade de gritar, chamar pela mãe dormindo no quarto ao lado, mas só consegui me enrolar todo debaixo do cobertor.

Não sei quanto tempo fiquei assim, quanto tempo suportei a falta de ar debaixo daquelas vestes grossas, pesadas, cheirando a guarda-roupa. Não sei se dormi e acordei, dormi e acordei; perdi aos poucos a noção do tempo, das coisas, dos pensamentos, desejava o amanhecer.

Ouvi o barulho das pesadas janelas de madeira se abrindo. A mãe puxou o cobertor, estranhando aquele exagero todo. “Fez frio essa noite, heim!”. Sim. Frio, medo. Depois o calor debaixo da coberta, o cheiro do fumo, do suor daquele velho nojento, aquele velho feio sentado ali na porta. As portas do quarto estavam abertas, cada banda encostada em uma parede. A mãe dobrou cuidadosamente a roupa de cama. As janelas deixavam entrar a luz do sol. Toda janela agora tem que estar aberta, entro por ambientes abrindo cortinas, persianas, janelas, abrindo janelas.

Nunca mais vi o velho da porta do quarto. Às vezes, vejo coisas tenebrosas em meus sonhos e quando abro os olhos o resto me envolve. Fecho os olhos e espero que a imagem desapareça até ficar apenas o medo do que foi, do que pode vir dessas noites incompreensíveis.

Algum lugar do passado

Venha ver a vista do final de tarde. Os carros cruzam as ruas, alguns com faróis acesos, outros insistem na última luz do dia. Um bando de pássaros voa em sincronia logo abaixo da janela.

Lembro-me de nossa vista do quarto de hotel. O calor daquelas tardes de abril nos deixava sonolentos, entregues ao prazer do ar condicionado, da cama despretensiosa, do roçar de pernas sem desejo. O cheiro gostoso do seu corpo recendendo a sol. Entregues à tarde, ao nada, à sensação de nos deixarmos. No final da tarde, sentados na varanda do quarto. O sol escondido atrás do hotel refletia uma luz morna nas águas do mar, a maré alta batendo no arrimo de concreto, quase ao alcance dos nossos pés. Nossos olhos entregues.

Os pássaros não voam mais. Devem estar no ninho. Existem três grandes árvores frondosas no lote vizinho. Decerto estão ali, penas encolhidas, asas protegendo o corpo como um abraço próprio, se preparando para a noite longa, incerta.

Você gosta de caminhar entre árvores no final da tarde. Entre pés de fruta. Entre roseiras. Os pés com vontade de pisar descalços na grama, mas receosos de pequenas picadas. Às vezes, você estica um pouco o pescoço, chega o nariz perto dos ramos da vegetação. Dama da noite. Tardes no sítio. O pai acorda da sesta. As mãos cruzadas nas costas, anda calmo pelo quintal, a vistoriar laranjas, mangas, flores de jabuticabeiras, folhas de alface na horta. Os cachorros andam ao lado, despencam em uma correria por nada. É hora de dar milho às galinhas. Ele conversa com elas, a cada uma um nome.

Depois, bem à tardinha, o sol se escondendo no morro, ele pega o equipamento de matar formigas. Vai caçar a praga que destrói folhas, flores, devorando num ritmo eterno o trabalho do dia. Você vai atrás, indica a entrada dos formigueiros. O pai coloca o tubo no buraco, bombeia formicida dentro. Mais à frente, outro buraco, mais outro, a noite derrama sua luz fraca. Os olhos do pai desistem da busca, já não enxergam. Talvez uma lanterna, você sugere. Vamos deixar para amanhã, tenho todo o tempo, as formigas também. Diz o pai e senta-se ao meu lado na varanda. A mãe já está sentada, esperando a novela das seis. Entre uma conversa e outra, entre um silêncio e outro, a noite chega com o misterioso som dos noturnos. A mãe repete a frase de todos os dias, é tão gostoso dormir com o barulho dos sapos, acordar com o galo cantando. Os olhos descansam em um ponto qualquer da escuridão.

Todos os carros já estão com faróis acesos. Não podem mais com a penumbra, com as sombras da noite que levam meus olhos para algum lugar do passado.

Frente fria

Pela segunda noite seguida, Iracema não consegue dormir. A frente fria chegara a Belo Horizonte na véspera. “O inverno nessa cidade não é mais confiável”, dizia seu marido, sempre que as noites se apresentavam serenas e no dia seguinte o sol castigava as paredes do prédio onde moravam. Mas não era o inverno que a incomodava. Do frio, do aconchego das roupas e do cobertor ela gostava. Era o vento.

O vento passava pelo 18º andar num uivo desenfreado. Um lamento sem fim, como o gemido de um batalhão atingido por morteiros, granadas.  Ouviu a história de um amigo italiano de seu pai. Na primeira grande guerra, os homens saíam a campo às centenas, tentando conquistar alguns poucos metros de terreno. Os que restavam, voltavam exaustos para as trincheiras, deixando para trás companheiros. À noite, o vento trazia o gemido dos feridos abandonados. Os soldados se encolhiam nas trincheiras, as mãos nos ouvidos tentando interromper aquele sofrimento que entrava por todo o corpo.

Iracema rola na cama, anda pela casa, reza o terço. Às vezes, uma forte rajada de vento estremece as janelas como se fosse arrancar vidros, persianas, como se fosse arrancar ela mesma daquele tormento solitário. Quando criança, na pequena cidade do interior de Minas, onde o frio chegava com raiva, impiedoso, a mãe reunia Iracema e os irmãos na cozinha. Eles se apertavam próximos ao fogão à lenha, a mãe sempre avivando o fogo, silenciosa, sem lamentar a escassez de roupas e cobertores para os filhos.

Sentavam-se todos no chão, a palha do milho espalhada pela cozinha, forrando os colchões. Dormiam, acordavam, dormiam de novo, a mãe ali, de vigília. Nada dizia, não sabia ler nem escrever, o rádio estava sempre com o marido, ligado em jogos e notícias do Botafogo do Rio. Seu caminho diário era da casa para a igreja. Era uma mulher sem histórias para contar. De vez em quando, cantarolava uma canção, as crianças sem entender a letra, apenas um murmúrio acompanhado pelo vento lá fora. Quando o frio castigava tanto que o fogo mal dava conta, a mãe juntava os filhos em volta, apertando-os com seus longos braços.

Iracema apertou os braços sobre os seios, ouvindo o vento bater forte na janela do quarto, revoltado com a impossibilidade de entrar e testar de vez a resistência daquela velha mulher que enfrentou tempestades, mas em noites de vento se encolhe no canto do quarto. Ela pensou na ausência do marido, enterrado cinco anos atrás em uma tarde de verão. Na filha, morando no Canadá, no filho cada dia mais distante, com mil afazeres e mulher para cuidar. Em noites assim, o filho chegava de mansinho, parava na porta do quarto, o travesseiro nas mãos, esperando autorização. Bastava um sorriso, um aceno de cabeça e ele se  enfiava debaixo do cobertor. Sentia o calor do corpo do pai, os braços da mãe enlaçando-o todo.

Agora Iracema sente o frio da cama vazia. Adormece, o vento amainando, os primeiros raios de sol refletindo na vidraça. Um sono bom, reconfortante, sonhos se confundindo com lembranças. Acorda às oito da manhã, descansada. Antes de abrir os olhos, um último vestígio do sonho: enxerga a mãe ao lado do fogão à lenha, o bule de café deixando escapar um pequeno vapor.

Levanta-se devagar como em todas as manhãs. Ouve um leve barulho de vento, um pequeno batido no vidro. Abre completamente a janela do quarto e deixa o vento bater forte em seu rosto, olhos fechados.

Os filmes do meu pai

Lembro-me de minha mãe perguntando quando eu era criança, “quando você crescer, vai ser o que?” Eu respondia seco e direto, “escritor”. A mãe sorria. Lembro-me de meu pai perguntando, “o que você mais gosta de fazer?” Meus pensamentos conflitavam durante alguns segundos antes da resposta, “futebol e cinema”. O pai sorria.

Quem acompanha com paciência esse blog intermitente percebe que aqui se juntou escrever com cinema. Percebe também, escrever sobre cinema acabou se tornando um reencontro. Um reencontro com domingos de manhã, quando o pai me deixava na porta do Cine Progresso para uma sessão da Disney. Um reencontro com noites de sábado quando, já adulto e casado, eu passava na casa do pai e nossas conversas terminavam no cinema – geralmente depois de esgotar todos os comentários sobre o Atlético.

– Pai, esse final de semana assisti Viva Zapata!

– Com Marlon Brando e Anthony Quinn.

– E o diretor?

– Elia Kazan. – respondia o pai, sorriso no rosto, orgulho de cinéfilo que lembra nomes de atores, atrizes, diretores, filmes com a exatidão de uma prece.

Meu pai falava do Cine Brasil como um templo. Os fiéis de terno e gravata enfileirados na porta, esperando para ver deuses como Ava Gardner, Ingrid Bergman, James Stewart, John Wayne, Greta Garbo, Burt Lancaster, Humphrey Bogart, Marlon Brando, Montgomery Clift, Sofia Loren ….

Meu pai amava Os brutos também amam e Casablanca. Meu pai amava o Atlético Mineiro. Meu pai nadava com a elegância de Johnny Weissmuller. Meu pai era um homem quieto e silencioso. Meu pai foi confundido há muitos e muitos anos com um ator de cinema americano, pois estava de chapéu e capote debaixo de uma marquise numa noite de chuva e foi assim que minha mãe se apaixonou. Meu pai sentava-se a meu lado todas as noites de segunda-feira na distante década de 70 para ver Jornada nas Estrelas. Meu pai amava filmes de faroeste, John Ford e Alfred Hitchcock. Meu pai adorava Frank Sinatra, Elvis Presley e Nat King Cole.

Escrevo sobre meu pai agora no passado. Mas sei que tudo dele está em mim. Daqui a alguns dias, quando a dor se acomodar em algum lugar do coração, vou voltar a assistir os filmes que tanto amávamos. E com saudade vou sentir vontade de dizer.

– Pai, assisti a Johnny Guitar. Com Joan Crawford, Sterling Hayden e Mercedes McCambridge. O diretor é Nicholas Ray.

Entre ferramentas, parafusos e engrenagens

O motorista do guincho abriu o capô do carro, mexeu em pontos incompreensíveis para mim e deu aquele suspiro de entendido.

– É o cabo. Tá solto, coisa simples…  acho que não precisa rebocar, é só apertar, assim…. apertar bem…. vamos ver se pega, vai lá, liga o carro.

– O carburador tá sujo. Carros de dupla carburação são mais complicados. Tem que andar tudo reguladinho, tem que tá sempre conferindo, desregula um, depois o outro. – debruçado no motor, o pai levantava a cabeça de vez em quando para explicar. As mãos sujas de óleo, o suor escorrendo pelo rosto.

Eu podia ouvir a conversa dos meninos na rua. Era início de noite, depois do jantar iam chegando aos poucos, a aglomeração acontecia sempre na porta de minha casa. A rampa da garagem era um bom lugar para sentar, a casa ficava no centro do quarteirão, local estratégico.

– Liga o carro, vai lá, vamos ver se aprende. – o pai me ajudou a sentar no banco, meus pés quase não chegavam aos pedais.

– Senta mais na beirada, isso. Agora vira a chave devagar até ouvir o barulho da ignição, assim, assim…. não, solta, solta a chave. – olhei assustado para o pai, certo de ter feito alguma coisa errada. Ele passou a mão pela minha cabeça.

– De novo, quando você ouvir o barulho do motor dá uma pequena acelerada, isso, com calma, é fácil, tá vendo? é simples, isso…. – ouvi maravilhado o carro funcionando. O pai deixou que eu ficasse um tempo, com a ponta dos pés apertei o acelerador, o barulho aumentou, aumentou, invadiu a garagem.

– Agora vem cá, deixa o carro ligado. – voltamos para a traseira do carro, o motor trepidando. – Tá vendo aqui, olha só, você mexe e o carro acelera. Como são dois carburadores… . – ele continuava a explicar, esquecido do tempo. Quando seu rosto quase sumia perto do motor, meus olhos se desviavam para o portão da garagem. Meus ouvidos divididos entre o barulho do motor e a algazarra dos meninos.

– Tá vendo este cabo?, ele costuma soltar, se algum dia o carro morrer com você na rua, dá uma olhada, costuma ser muito simples, só apertar um pouco… pega aquela chave pra mim.  – ele esperou alguns segundo, percebeu que eu não tinha ouvido, descobriu meus olhos na rua. O pai limpou as mãos em um pedaço de estopa, passou um pano pelo suor do rosto. Abriu o portão da garagem e fez um gesto com as mãos.

Saí para a rua, o ar livre da noite, os meninos já organizados para brincadeiras. O pai ficou um tempo parado, sorriso nos lábios, depois fechou o portão e voltou para seu motor, sozinho, perdido entre ferramentas, parafusos e engrenagens.

Sentado no banco, ouvi o barulho do motor funcionando. Apertei o acelerador devagar, depois um pouco mais fundo, mais fundo, o barulho aumentando. O motorista do guincho levantou a cabeça e fez um gesto como a pedir calma, como quem diz, já está bom. Ele fechou o capô do carro. Passava da meia-noite, o celular tocou, minha mulher perguntando se já resolvera.

– Já. Coisa simples, só um cabo que soltou.