Cortejo de amigos

Foi a madrugada mais fria do ano. Perto de 15 graus, edredons e cobertores saíram dos armários. A cama ficou mais aconchegante pela manhã. Cai uma chuva fina, o tempo incerto entre o outono e o inverno.

Gosto de lentidão pela manhã. Tomar banho quente pensando em coisas por fazer, outras já feitas. Nos meus tempos de agência de propaganda, gastava água e conta de luz em busca de idéias debaixo do chuveiro – cantores de terceira, poetas e redatores publicitários são uma ameaça ecológica. É bom preparar o café, me sentar à mesa com a xícara fumegante, sem pressa, tomando goles folheando uma revista, o jornal do dia. Às vezes, essa lentidão da manhã fria traz lembranças.

No rádio toca O Rancho da Goiabada, de Aldir Blanc e João Bosco. Pela segunda vez, presto atenção quase religiosa nesta música. A primeira foi no final da década de 70, no enterro de Zé Carlos, amigo de infância.

Ele morreu afogado em Guarapari, antes de completar 20 anos. As lembranças dele são esparsas: moreno, um pequeno bigode teimando em não crescer, cabelos bem curtos, gosto refinado por samba. Era daqueles que puxavam a canção em rodas de violão, de bem com a vida, a voz desafinada sobressaindo.

Nossa turma ia chegando aos poucos no começo da noite, saindo do trabalho, da escola.  O ponto era o bar da rua, mesas na calçada. As conversas, comuns: futebol, estudos, trabalho, mulheres, até a bebida começar os efeitos e alguém aparecer com o violão. Zé Carlos sempre dava jeito de puxar a música do João Bosco e Aldir Blanc. Ele começava cantando baixinho, acompanhando o ritmo do violão, olhos baixos, bebericando a cerveja nos intervalos, esperando a hora para soltar a voz: “e a sobremesa é goiabada cascão, com muito queijo depois café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor ou DAGMAR….” Pelo tom de voz, a alegria represada, quase um grito, fiquei com a impressão de alguma Dagmar na vida do amigo. Talvez uma mulher casada, sonho de muito adolescente.

No enterro de Zé Carlos, enquanto acompanhamos o caixão pelas alamedas do cemitério, uma voz tímida começou a cantar O Rancho da Goiabada. Os amigos foram aderindo até se transformar em um coro alto, triste, ecoando no vazio do Cemitério da Colina.

A música e o cortejo ficaram gravados na minha memória. Indissociáveis. A primeira lembrança triste da adolescência, como uma despedida daqueles dias felizes.

Hoje, nessa manhã fria de outono, acho a música mais bonita. Aumento um pouco o rádio, presto atenção, guardo trechos da letra na bela interpretação do Quarteto em Cy. Acabo de tomar o café, me preparo para sair, penso no trabalho que tenho pela frente. Aos poucos esqueço a música, me concentro em coisas mais presentes. Como tantas e tantas lembranças, O Rancho da Goiabada está guardada em uma pequena rua de bairro.

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