Tardes de domingo

– Cuidado com os degraus. – acomodei a filha entre os braços, de forma que eu pudesse enxergar os lances da escada. O filho mais velho descera rápido e pude ouvir, à distância, o toque da campainha na casa do tio. A esposa descia devagar à frente, duas bolsas penduradas em cada ombro com todos os apetrechos necessários a passeios com crianças pequenas. Fomos os últimos a chegar, o sol batia perpendicular em uma das janelas da sala.

– Trouxe os filmes? – respondi ao irmão com o olhar na direção da bolsa saliente pelas caixas de VHS.

– Você tem sessão de filmes antigos? – era a terceira locadora que eu percorria no centro da cidade, horário de almoço se esgotando. Nas outras duas, apenas filmes comerciais, lançamentos recentes, sucessos de bilheteria do cinema que inundavam o mercado de VHS, satisfazendo um público eufórico com a novidade de assistir a filmes na telinha, sem as amarras de horários, dublagens mal-feitas e cortes para comerciais que a TV impõe. O atendente indicou uma pequena prateleira escondida no canto da loja.

Nas prateleiras dos blockbusters, as capas com fotos e nomes dos filmes em relevo se destacavam, com espaços entre uma fita e outra para deixar todas bem à mostra. Na esquina de filmes antigos, uma espécie de escaninho acomodava pequenos fichários, com o nome do filme sobressaindo na ponta, acima do orifício que encobria a ficha inteira. Olhei para a distante luz do teto, ajeitei os óculos e comecei a garimpar ficha por ficha, levantando o pequeno pedaço de papel plastificado, buscando na memória nomes de filmes, diretores, atores aos quais meu pai se referia.

– Gary Cooper e Ingrid Bergman. Você precisa ver este filme. Assisti no Cine Brasil, espera um pouco. – o pai voltou pouco depois com álbum de fotografias, remexeu nas páginas e mostrou novamente a foto: ele na porta do Cine Brasil, terno, gravata e chapéu, ao fundo a enorme fila do cinema. – Era o meu programa de sábado, domingo, segunda… olha a fila, repara, todo mundo bem vestido, era um ritual. E os filmes, ah, os filmes…

O atendente da locadora pegou as fichinhas, separou as fitas, pensei alguns segundos se voltava à esquina da loja em busca de mais um ou dois filmes. O tempo, tempo e dinheiro eram incertezas nestes primeiros anos de casamento.

Depois do lanche, o irmão mais velho chamou a família para perto da TV e apresentou a novidade: um aparelho preto, embutido na estante abaixo. Os meninos se acomodaram pelo chão da sala, deixando o sofá para os avós, pais e tios. Uma coletânea de desenhos da Warner Bros, depois A história sem fim, todos os olhares presos na tela de TV. Ninguém se mexia, às vezes a sala era invadida pelo silêncio expressivo, momento de entrega e suspense, até que a gargalhada de uma das crianças, espontânea, sincera, de contágio imediato, percorria a sala. A tarde de domingo terminou junto com o filme, em poucos segundos as crianças corriam pela casa.

Busquei outra fita na sacola. Os adultos voltaram a se acomodar, as irmãs já com ar de cansaço, a mãe sentou do lado de fora, preferindo as crianças. O pai permaneceu no canto do sofá, seus olhos pequenos, desproporcionais diante dos grandes óculos, fitos nos créditos: Gary Cooper e Ingrid Bergman.

Com pouco menos de meia hora de filme só restavam eu e o pai na sala. Todos saíram aos poucos. O pai agora deitado no sofá, eu sentado no chão. Quando Roberto explodiu a ponte, o contador marcava mais de duas horas de filme. Crianças menores já dormiam, a esposa perguntara por duas vezes a hora de ir embora, a mãe cochilava na rede. Há algum tempo eu ouvia roncos do pai.

Roberto era o último a atravessar o desfiladeiro, o cavalo desviando dos morteiros dos soldados de Franco. Uma explosão, o cavalo cai, Roberto é carregado pelos amigos até uma saliência e colocado no chão, encostado a uma rocha, as pernas quebradas.

São várias lembranças daquela tarde noite de domingo. O pai deitado no sofá, entregue ao cansaço; a mãe cochilando na rede; os irmãos conversando baixo na mesa da sala para não atrapalhar minha entrega ao filme; a esposa em voltas pela casa, vigiando o sono da filha; crianças correndo, jogando videogame no quarto; Roberto, ferido, despedindo-se de Maria. Que meus olhos ainda estejam presos neste domingo é mágica associação da beleza da família, assim, espalhada pela casa. E um filme de fundo.

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