Alice e a Bruxa do Oeste

Alice deitou a cabeça em meu ombro e me apertou com força. A Bruxa do Oeste fazia malabarismos com sua vassoura, deixando no céu, em um rastro de fumaça, uma frase de alerta a Dorothy. A reação de Alice às aparições da Bruxa era se aproximar cada vez mais. Primeiro, um olhar amedrontado, depois, leves arrepios sentidos no toque dos braços, finalmente, a cabeça apoiada no ombro, as mãos enlaçadas em meu antebraço.

Pouco depois, o filme ganhou aquele ar soturno, as cores berrantes do Technicolor deram lugar a nuances desbotadas. Dorothy e seus amigos penetravam na floresta mal assombrada em direção ao castelo da Bruxa. Alice tremeu levemente e, pela primeira vez, passei o braço por cima de seu ombro, apertando-a, roçando meus lábios em seus cabelos… Um estrondo ecoou no cinema. Imediatamente as luzes e a projeção se apagaram, a sala ficou às escuras. Gritos temerosos, tumulto, o rosto de Alice em meu peito.

Pequenos pontos luminosos surgiram nas laterais. Os lanterninhas gritavam “calma, calma”, “não se assustem”, “sem correria”. Em vão, meninos já corriam pelos corredores. Um lanterninha subiu no palco e gritou: “é apenas uma queda de luz, fiquem sentados, fiquem sentados, daqui a pouco a luz volta…”

Os meninos sossegaram aos poucos, ouvi uma frase solta: “um ônibus bateu no poste aí em frente.” Afaguei os cabelos de Alice. “Vou ver o que aconteceu”. Ela me olhou desolada, talvez pensando na Bruxa do Oeste, se ligando a estes acasos que transformam uma simples queda de luz em presságios sombrios. “Não saia daqui”. Ela assentiu com a cabeça e, naquele breve instante de olhos recíprocos, a vontade de buscar o que meus sentidos pediam desde que Dorothy cantou “Over the rainbow”: os lábios de Alice.

“Não demoro”. Segui pelo corredor até o banheiro nos fundos do cinema. A janela dava para a Av. Amazonas. Do outro lado da avenida, uma pequena confusão se formava em frente ao ônibus em cima do passeio. A visão do alto deixava claro o acontecido: o ônibus batera no poste, a frente do veículo estava achatada, como a enlaçar o poste.

Era fim de tarde de domingo, aquela parte do bairro estava sem luz, a escuridão começava a tomar conta do cinema. Voltei para perto de Alice. Ela estava mais calma, conversava com as amigas. Todos já sabiam do acidente. Alguns minutos depois, o lanterninha subiu novamente no palco e avisou que não poderíamos esperar mais. Pediu que saíssemos do cinema com calma, em fila. Na porta, cada um receberia um ingresso válido para a próxima semana.

No domingo seguinte, voltei ao cinema sem Alice. Ela fora a uma festa com os pais. Dorothy também não estava comigo. Era outro filme, O Mágico de Oz saíra de cartaz.

Cerca de dez anos depois, tarde da noite, apaguei as luzes da sala e coloquei uma fita no videocassete. Quando Dorothy começou a cantar “Over the rainbow”, eu já estava nas lembranças daquela tarde. Os personagens entraram na floresta mal assombrada. Assisti finalmente ao resto do filme neste estado insensato a que sou levado por filmes do passado. Dorothy acordou em sua casa no Kansas, repetindo “não há lugar melhor do que o nosso lar”. Fiquei ainda um tempo na escuridão da sala, como naquela tarde no cinema da minha adolescência. Tentei, inutilmente, relembrar o gosto dos lábios de Alice.

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