Quinta série

O vento frio de junho achava seu caminho entre os prédios do campus. Motivado pela estranha nostalgia que manhãs de outono provocam, resolvi caminhar pelos bonitos jardins da universidade. Passei pelo complexo da unidade de saúde. Onde agora é a escola de odontologia, havia um campo de terra, uma quadra de futebol de salão e piscina.

O centro esportivo era aberto à comunidade nos finais de semana e nas manhãs de sábado eu acompanhava o pai para assistir aos jogos do time do bairro. Meu pai era o treinador, mas sempre tive a impressão que ele apenas distribuía as camisas. Durante o jogo, ele andava de um lado para o outro na lateral do campo, gritando com os jogadores e com o juiz. Nada que se parecesse com instruções ou táticas de jogo. Pensando bem, parecido com os técnicos profissionais de hoje.

Na quinta série, entrei para o colégio da rede católica que naquela época funcionava dentro da universidade. As aulas começavam a uma da tarde. Antes e depois, os meninos jogavam futebol. Às 12h30 em ponto, nos reuníamos na quadra e dividíamos apressados os times, era apenas meia hora de pelada. Cerca de quarenta minutos depois, ofegantes e suados, entrávamos na sala. As meninas olhavam com repulsa, os professores repetiam sermões sobre bom comportamento, blábláblá sobre a necessidade de aprender a separar as coisas, hora da escola e hora do futebol. Apenas o professor de português nos olhava complacente.

Depois da aula, era a vez do campo de terra. Onze meninos para cada lado, sem disciplina ou posição definidas, todo mundo indo e voltando como futebol polivalente, correndo atrás da bola até escurecer.

Quando eu chegava em casa, encontrava o olhar desolado da mãe no meu uniforme sujo de poeira e terra. Esperava por um sermão, um puxão de orelha, algo assim. Ela apenas pedia que eu tirasse logo a roupa e corria para o tanque. No outro dia, na hora da escola, havia sempre uma bermuda e camiseta limpas passadas em cima da cama. Ela me mandava para a aula com um beijo quente no rosto e mil recomendações para não sujar o uniforme.

Termino meu passeio pela infância nessa manhã de outono no atual prédio da Faculdade de Direito. Aqui ficavam as salas de aula do velho colégio. Foi bem na porta daquela sala, no começo da minha adolescência, que o professor de português me viu sentado na pequena murada branca que separa as salas do pátio, pouco antes da aula começar, o uniforme limpo e bem passado. No terceiro dia em que me viu na mesma posição perguntou:

– Você parou de jogar futebol?

– Não estou com vontade.

Ele olhou furtivamente para o outro lado do pátio e entrou na sala. Eu fiquei ainda alguns minutos. Os olhos fixos na sala em frente, onde as meninas da sexta série conversavam animadamente. Mariana, encostada na parede, de vez em quando olhava para mim, os lábios ensaiando um sorriso.

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