Tarde nublada

As nuvens encobrem a serra. Daqui a pouco, restará um dia negro, anoitecer provocado nesse final de tarde. Minha vista do décimo andar é invejável, segundo comentários dos visitante. Confesso, na maioria dos dias desejo outras vistas: o mar, montanhas se perdendo de vista, nuvens feito algodão do lado de fora da janela do avião, o corpo nu da mulher desejada.

A montanha desapareceu por completo. Gosto do dia entre o claro e o escuro. A vista confusa, os carros se amontoando nas ruas lá embaixo, acendendo os faróis, tomando rumos sabe-se lá. Para a solidão, o décimo andar do  apartamento é refúgio seguro, inviolável. A chuva anunciada começa, trazendo raios, trovões, um certo pesar nos sentimentos. A luneta de vasculhar janelas e pessoas está encostada no canto, sem razão nessa tarde melancólica. Guarda imagens, lembranças misturadas com o tempo, pedaços que aparecem como quem remexe em papéis amontoados em gavetas ano após ano.

Maria Emília, sentada na cama, encolhe os joelhos até o queixo, abraça as pernas e se deixa. Alguém pode estar olhando-a nesta pose bonita e sensual.

O velho Euclides abre a gaveta da cômoda em busca da antiga blusa de lã que usava debaixo do terno preto bem passado nas tardes chuvosas à porta do Cine Brasil.

Carlos e Amanda acabam de fazer amor. Ele puxa a coberta para encobrir-lhe os seios, temendo-lhe o frio. Olham-se dentro do outro.

O pai, na varanda do sítio, olha o tempo. Os cachorros se deitam na vida contemplativa, ao lado de um dono que só lhes cobra a companhia.

A mãe pensa, “a novela das seis pode ficar para amanhã”. Se essa chuva deixar de angustiar, de trazer desejos de terra molhada, de flores respingando, do lugar onde ela daria tudo para estar agora, contra a vontade do médico, contra os remédios que aos poucos derrubam a esperança.

O pequeno Guto volta da escola pisando em poças d’águas. Vai devagar, deixa a chuva entrar por baixo da roupa até a camisa de malha grudar nas costas, o tênis ficar pesado, arrastado. Vai devagar, pensa na mãe correndo para buscar a toalha, no banho quente e demorado que vai ganhar ao chegar em casa.

Átila tem um sonho, beijar a namorada debaixo da chuva, os cabelos escorrendo, os seios molhados. Se uma das senhoras debaixo da marquise do outro lado da rua aceitasse ser sua namorada.

Cláudia mora quase ao pé da montanha. Acabou de tomar um chocolate quente. Talvez prepare outro. Tem o coração apertado e pode-se ouvir um ou outro suspiro. Quando se cansar da chuva e da tristeza, vai voltar para a solidão do livro. Mas a cada barulho na vidraça, levanta os olhos e sonha com um beijo do namorado que nunca chega.

Tem um pouco de chuva nessa tarde de cada um. É uma tarde de chuva cada vez mais pesada.

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