A menina e o cantor

Denise estava deitada na cama, o rosto voltado para cima, os longos cabelos castanhos espalhados no travesseiro, emoldurando suas faces claras ainda marcadas pelo choro que entrara pela noite. Em alguns momentos, as lágrimas se transformaram quase em convulsões, mas agora seu peito respirava calmo, ritmado, como sono tranquilo a lembrar das coisas boas da vida.

Horas antes, naquela terça-feira de agosto, Denise entrou correndo pela minha casa e quase gritou parada à minha frente, tentando pegar fôlego: “Elvis Presley morreu.” Fiquei sem reação, sem saber o que dizer, eu era ainda muito jovem para entender a morte. Ela repetiu a frase, “morreu” saiu de sua boca várias vezes como um eco. Depois desabou no sofá, escondeu o rosto entre os joelhos e longos soluços tomaram conta da sala.

Denise escutava seus discos no aparelho National 3 x 1 que ganhara do pai de aniversário de 15 anos. Ela descobrira Elvis há pouco. Quando o pai trazia um compacto ou um LP novo ela corria a me mostrar, repetindo canções com dedos cuidadosos na agulha para não arranhar o disco. Perdi a conta de quantas vezes ela me pôs a escutar You’ve Lost That Lovin’ Feelin.

Em uma das festinhas do bairro, ela levou seus discos. A cada sábado, uma casa dos meninos amigos sediava a festa. A turma levava discos, o som era colocado na sala com as caixas na varanda ou no quintal, as luzes quase todas apagadas. Os pais ofereciam k-suco ou refrigerante, nada mais. A festa começava com músicas quentes, passava para as lentas, voltava para quentes, lentas… .

Certa hora, Denise colocou Love Me Tender para tocar. Chamei-a para dançar, ela recusou, disse que tinha medo que alguém mexesse no som, arranhasse o disco. Fiquei perto dela, desconcertado, dois encostados na parede, olhando os casais. As meninas enlaçadas nos pescoços dos meninos, olhos fechados, passos incertos.

O Jornal Nacional passava uma matéria especial sobre a morte de Elvis Presley. Denise dormia no quarto. Não chorava há cerca de meia hora. Minha mãe preparara uma mistura de água com açúcar e insistira para que ela se deitasse um pouco.

Ainda hoje, quando ouço Elvis Presley, lembro-me daquela noite. Entrei no quarto para ver se ela estava bem. Denise dormia. Sentei-me ao seu lado, o movimento da cama a acordou. Ela abriu os olhos ainda vermelhos, me olhou com tristeza durante alguns segundos e voltou a fechá-los. Senti vontade de acariciar seus cabelos, passar a mão por suas faces. Apoiei o braço na outra extremidade da cama, por cima de Denise. Debrucei-me um pouco, meu peito quase tocando os seios dela. Debrucei-me um pouco mais, Denise abriu os olhos e dessa vez sorriu.

Naquela noite, conheci dois sentimentos inevitáveis da vida.

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