Pedras de Acapulco

Meu pai era um homem magro, leve. Nadava com elegância, como se flutuasse milímetros acima da superfície, a cabeça submersa, os braços entrando e saindo ritmados da água sem fazer barulho, sem espirrar água para os lados.

Uma lembrança da infância: meu pai no alto do trampolim do clube, uma altura de cerca de 10, 12 metros. Ele olha uma última vez para baixo, abre os braços, se deixa cair do trampolim com os braços esticados acima da cabeça, um salto na diagonal, como se deixasse o peito resistir ao ar para se preservar no voo durante um tempo maior. O pai entra na água com a elegância de sempre, sem muito barulho, sem muita água espirrando, e emerge menos de dois segundos depois. Um salto bonito. Uma imagem que mais parece recriação fantástica de menino  – lembranças da primeira infância sempre se confundem com fantasia.

Muito tempo depois, o filho já adolescente repete o ritual em uma cachoeira na Serra do Cipó, do alto de uma pedra. Subo atrás do pai pela encosta rochosa até o patamar, uma espécie de plataforma lapidada por milênios. Um grande poço de águas turvas se forma debaixo da queda d’água. Chego à beira da pedra e sinto medo. Recuo.

– Você não vai pular? – pergunta o pai.

– Só se você pular primeiro.

Ele posiciona-se na ponta da plataforma, abre os braços e pouco depois aparece na água escura, pequeno lá embaixo. O pai acena para mim como a dizer “não tenha medo”.

Eu já saltara de vários lugares, de trampolins, de pedras. Domingos da minha infância e adolescência eram frequentemente domingos em piscinas, rios. O pai saltando e nadando com os filhos, uma presença segura apesar da inconsequência que hoje sinto nessas disputas entre pais e filhos. A mãe rezava, dava para ver pela sua expressão que ela rezava e maldizia o marido por instigar os filhos a essas loucuras. No fim do dia, voltávamos para casa, o pai calado ao volante do carro ouvindo a mãe bradar que nunca mais sairíamos a passeio em busca de rios e cachoeiras. Mas no outro fim de semana lá estava ela, cedo cedo preparando o almoço, o pão com salame, apressando todo mundo.

Hesito novamente no alto da pedra. Eu nunca saltara de uma altura assim. O pai, ainda na água, acena, como a mostrar que é seguro. Naquela hora, os pés quase tocando o vazio, as pedras, a água, o medo,  finalmente entendi o fascínio que o pai sentia por alguns filmes.

– Você já assistiu O Seresteiro de Acapulco? – o pai acaba de encher o copo de cerveja, bebe mais um gole e continua  – O filme é passado em Acapulco, no México. Quase no final, Elvis Presley sobe no penhasco, o mar embaixo, uma espécie de garganta d´água entre as rochas. Ele tinha que vencer o medo da altura. Chega na beirada e salta, os braços abertos. É uma cena maravilhosa. – ouvi essa narração repetidas vezes e mesmo já tendo assistido ao filme, deixava que ele a contasse novamente.

Deixo o corpo despencar no vazio. Os braços abertos buscando equilíbrio, o corpo ligeiramente na diagonal vence a resistência do ar até bater na água e submergir rapidamente. O medo dá lugar a uma sensação de juventude. Olho para os lados tentando decifrar olhares de admiração. O primeiro olhar que vejo é do rosto de meu pai bem perto de mim, sorrindo.

Anúncios

Duquesa

A casa está em silêncio nesta noite fria de julho. Todos dormem. Ajeito os travesseiros, o edredom espera esparramado no sofá. Perco-me durante alguns segundos no irritante processo de configurar idioma e legenda do DVD. Apago a luz, me acomodo e num breve instante, antes do filme começar, meus olhos procuram o chão da sala, o hábito de ver ali a almofada cor-de-rosa, Duquesa enrodilhada, o focinho escondido entre as patas, as longas orelhas peludas resvalando no chão.

Nem sempre ela foi serena assim. Na juventude raivosa, ela levantava-se rápido e corria da sala até o quintal, deixando no rastro latidos curtos e roucos. Parava, ouvidos atentos, olhos procurando suspeitos. Ao menor sinal, latia para essas ameaças encobertas que alegram a vida do cão doméstico. Atrás da proteção dos muros da casa, latem para o vento.

Duquesa mostrava garras também para os visitantes. Certa feita, se agarrou à barra da calça do entregador de gás. Observava atenta da varanda, sentada no alto da escada, o leiturista da Copasa – olhos sedentos, dentes em prontidão. Pedreiros, pintores, marceneiros, freqüentadores da infinda reforma de minha casa, tomavam sempre o cuidado de saber o paradeiro da cocker antes de entrar. “É pequena mas brava.” – diziam. Até mesmo a diarista de tantos anos olhava ressabiada ao entrar. Duquesa levantava a cabeça discretamente, rosnava por dois ou três segundos e, desapontada por ver gente conhecida, voltava a deitar o focinho entre as patas peludas.

Seu jeito de comer também era ruidoso. Colocava alguns grãos de ração na boca e os espalhava pelo chão. Depois pegava grão a grão e antes de mastigar latia para o alto.

Com o tempo, os latidos diminuíram, a maturidade serenou pouco a pouco essa revolta contra o vazio. A diarista entrava, Duquesa levantava discretamente a cabeça, nada de rosnados. Assistia tranqüila o entregador de gás deixar o botijão. Do alto da escada, não levantava mais os olhos para o leiturista da Copasa. Passou a marcar os lugares da casa com sua serenidade avançada.

Durante os almoços em família, ficava enrodilhada na almofada cor-de-rosa no canto. Andava perdida pela casa até se aconchegar na presença de um dos moradores. Se minha filha dormia à tarde, Duquesa deitava aos pés da cama. Se minha esposa passava a tarde trabalhando no jardim, Duquesa deitava na varanda, em vigília adormecida. Perto da cadeira de minha escrivaninha, ela ocupava um pequeno espaço. Só não entrava no quarto do meu filho: arredio a cães, ele a enxotava. A cachorra dava então algumas voltas, chegava o focinho no limite do ambiente proibido, se voltava e deitava na soleira da porta em um solene protesto.

A idade a vencia. Não latia mais. Os visitantes a quem tanto amedrontava agora se referiam a um pequeno bicho de pelúcia estendido em algum canto da casa, o focinho entre as patas, a respiração tranqüila, protegida finalmente de todas as ameaças que tanto perseguiu.

Nesta noite fria de inverno, meus olhos procuram em vão a almofada cor-de-rosa no centro da sala antes do filme começar. Penso que não é uma boa noite para filme. Vou ao computador me despedir de Duquesa contando sua breve história. História que começou quatorze anos atrás, quando minha filha chegou em casa com um filhote parecido com um pequeno bicho de pelúcia, remexendo em suas mãos, tentando se soltar para correr pela casa com seus latidos curtos e roucos.

Pequeno diário

Cristina caminhou na minha direção com passos arrastados. Pensei que não existia mais essa história de luto, de se guardar em vestes negras enquanto a recordação nos vai consumindo por dentro. Mas elas foram tão amigas, tão próximas, proximidade feita de longas conversas ao telefone, cartas nos momentos de distância, refúgio na casa da outra em noites de angústia. Maria e Cristina. Podia ser um nome composto, Maria Cristina, nem assim seriam tão ligadas como o foram desde o momento em que se conheceram na faculdade de letras.

Trocamos algumas confidências a respeito de Maria, sempre interrompidos por alguém que se aproximava, “meus sentimentos”, como se Cristina fosse ali o parente mais próximo. Consideravam-me apenas para um ligeiro aperto de mão, às vezes um leve aceno de cabeça. “É o escritor, um amigo de infância” – ouvi uma mulher dizer para o marido enquanto se afastavam.

Lamentei, como é comum nesses momentos, a ausência de anos repetidos sem trocar uma única palavra com Maria. Vi Maria pela última vez uns três anos atrás, no supermercado. Fiquei olhando para ela, indeciso em me aproximar. Às vezes me sinto estranho com pessoas tão amigas, de histórias comuns que o tempo vai deixando nas prateleiras. Mas ela se aproximou, um longo sorriso no rosto. Ficou a relembrar nossa adolescência, acabei entusiasmado por aquelas risadas e ficamos ali, entre latas de Pomarola, dizendo de brincadeiras ingênuas de rua, da juventude em cinemas e bares, quase falei de desejos não consumados. De repente, Maria se fez séria, baixou os olhos por alguns segundos e voltou a levantá-los repentinamente, como se fosse despejar uma frase de pronto no meu rosto. Suspirou desconcertada e nos despedimos.

Perdemos contato. Às vezes, a mãe me dava notícias: “Maria se separou do segundo marido, diz que tinha um amante, Seu Raimundo nem põe o pé na porta da rua, de vergonha.” Seu Raimundo era o pai, sentado ao lado do caixão com os olhos presos em nada.

– Ela deixou algo para você. – Cristina retirou da bolsa preta um pequeno embrulho.  – Quando a doença se agravou, ela pediu que entregasse a você. “Espero que ele ainda se lembre”, ela me disse.

Afastei-me até o jardim central dos velórios. Era um pequeno caderno de anotações, de capa preta. Media talvez 15 cm de altura por 10 de largura e tinha umas trinta páginas: finas, delicadas, um tom de antiguidade na cor ligeiramente amarela. Gravado em baixo relevo, na contra-capa, quase imperceptível, a palavra Moleskine. Lembrei-me daquele fim de tarde.

Os pais de Maria haviam acabado de se mudar para a minha rua. A mãe me levou a uma visita de boas-vindas. A casa ainda toda desarrumada, caixas de papelão espalhadas pela sala. As mães saíram para o quintal, conversando sobre plantas. Maria, quatorze anos, olhos vivazes que usei em tantas de minhas personagens, estava sentada à mesa. Sem saber direito o que fazer, eu olhava as caixas e caixas de papelão.

– Vem aqui. – ela chamou. Cheguei perto, ela acabava de fechar um pequeno caderno de anotações preto.

– O que é isso? – perguntei.

– Meu diário.

– Mas é muito pequeno para um diário.

– Eu sei. Acabei de escrever algo sobre você.

– Deixa eu ver.

– Seu bobo, nunca peça a alguém para ver o seu diário… Um dia, quem sabe.

Abri o Moleskine. As páginas estavam todas em branco, à exceção da primeira. Apenas uma frase com letras de menina, desenhadas, com pequenos floreios nas iniciais.

8 de março de 1977.

Hoje conheci um menino tímido e bonito. Pela primeira vez, fiquei com vontade de beijar…

Depois do filme

– Desculpe o atraso.

– Não tem problema. Já comprei os ingressos, o filme ainda não deve ter começado. Tem sempre comercial, um curta-metragem antes, é melhor entrar mais tarde.

A sessão de domingo do Cine Roxy era tranquila. O cinema tinha a fama de passar “filmes de arte”, difícil se formar grandes filas. Nem mesmo a pequena bilheteria, uma abertura na parede, com barras de ferro transversais, apresentava problemas. Além de tudo, adquiri desde os meus primeiros encontros o hábito de chegar cedo, cerca de trinta minutos antes das meninas. Eu marcava os encontros para a porta do cinema, ruim só o desconforto de ficar esperando em pé, na rua, às vezes conversando banalidades com o pipoqueiro.

– Vamos entrar? – Marisa não era bonita, talvez pelos simples fato de ser adolescente em formação. Não sabia ainda o que fazer com os cabelos, cortados em linha reta pouco abaixo dos ombros, enchendo de volume a cabeça a partir do lado direito, caindo ondulados, sem preparo algum. O rosto ovalado não combinava com cabelos assim, as bochechas cheias, levemente rosadas, boca pequena, nariz fino. Também não sabia ainda como se vestir para este ou aquele encontro, estava de tênis, calça jeans e camiseta, roupa mal ajustada … bem, era um encontro. Eu a conhecera duas semanas antes, nestas festas de finais de semana em casa de amigos.

Buscamos cadeiras no meio do cinema. No Roxy não era bom sentar atrás, pois dava para ouvir o barulho de carros da Avenida Augusto de Lima. Assim que o filme começou, Marisa deitou a cabeça em meu ombro, a mão em minha coxa. A sessão estava vazia naquele início de noite do domingo e logo de cara percebi que Marisa não estava interessada no filme. Para minha sorte, era a quinta vez em menos de um mês que eu assistia a Hair.

Na primeira sessão, no Palladium, não consegui me levantar ao final. À medida que os hippies invadiam o gramado à frente do Capitólio, em Washington, cantando Let the sunshine in, uma sensação indefinida tomou conta. Fiquei sentado olhando para a tela, sem prestar atenção nos créditos, esperando a sessão seguinte. Voltei na outra semana e na outra com o fascínio de quem está assistindo ao filme pela primeira vez.

Quando o filme acabou, Marisa se endireitou na cadeira, tentou ajeitar de alguma forma os cabelos. No caminho para o ponto de ônibus, no centro da cidade, tive a prudência de não perguntar se ela gostara do filme, pouco assistimos, afinal.

– Você pode me deixar aqui no ponto mesmo. Meu bairro é longe…

– Não. Vou com você até em casa.

– Já são quase onze horas…

– Não tem problema, estou acostumado a andar de noite pela cidade.

Anos depois, descobri que o Bairro Santa Inês fica perto de Sabará, mas naquela noite não me pareceu tão longe assim. O ônibus vazio permitia ainda um ou outro arroubo, importunado apenas pelo olhar displicente do trocador. Andamos cerca de quatro quarteirões da avenida principal até a casa de Marisa. A rua mal iluminada e uma grande árvore na porta da casa colaboraram para uma despedida mais longa do que eu imaginava e podia.

– Será que ainda tem ônibus? – ela perguntou olhando o relógio.

– Não sei, deve passar um noturno naquela avenida. – ela ficou calada por alguns instantes, seus olhos procurando alguma coisa.

– Não quer entrar um pouco?

– É tarde, seus pais….

– Estão viajando. Foram ontem para a praia.

– E você?

– Tenho cursinho, o vestibular já é no início do mês. Amanhã vou para a casa da minha tia. Vem, entra um pouco.

O ponto de ônibus já estava cheio. Decerto, gente que pegava trabalho cedo, vários homens e mulheres com bolsas a tiracolo, as marmitas quadradas de alumínio bem ajeitadas no fundo, apoiadas dos lados para não virarem. Não era raro ouvir uma ou outra imprecação dentro do ônibus quando alguém sentia o feijão esquentar a perna, a mancha se estendendo pelo fundo da bolsa.

Preocupada com os vizinhas, Marisa me fizera sair da casa ainda de madrugada. E agora, no ponto de ônibus, fiquei com aquela emoção indefinida, deixando de pegar um ônibus, o outro, mais um, como créditos passando no final da sessão.

Philip, o gato

Quando criança, nunca dei tiro de chumbinho em gatos. O máximo que fiz, por curiosidade, foi segurar um felino de cabeça para baixo, a três palmos do chão, para ver se caía em pé. Sempre respeitei os bichanos. Adolescente, conheci o Rio de Janeiro. Nunca vou me esquecer do Pão de Açúcar, das argentinas na praia e do gato.

Minha tia morava em Ramos, uma hora de ônibus até as praias de Copacabana e Ipanema. De dia, praia, à noite, por prudência e idade, conversa na porta da rua. Meus primos tinham hábitos suburbanos. Frequentavam a quadra do colégio no sábado, ouviam jogo do Flamengo no domingo á tarde, jogavam baralho até tarde da noite.  E tinham um gato. Gato errante de muros e lamentos. Desaparecia toda noite.

Casa pequena, dois quartos, eu dormia no chão da sala. Era uma casa geminada, mofo nas paredes, tacos soltos, alguns podres. Naquela noite, fui dormir cedo, cansado da praia. Estendi o colchão no canto, encostado na parede. De madrugada, abri os olhos. A cerca de 20 centímetros do meu rosto, o gato. Sentado no chão da sala, a elegância dos felinos, boca fechada, bigodes equilibrando o rosto numa estética perfeita, pelos limpos e brilhantes, olhos parados nos meus. Fechei os olhos, abri. O gato continuava na mesma posição, como uma escultura de olhos vivos. Virei para a parede e demorei a adormecer, sabia que ele ainda estava lá, me observando. Durante todas as outras noites dormi virado para a parede, rosto colado no mofo.

Depois deste dia, não sei se por acaso ou cisma, os gatos sempre procuram o meu olhar. À noite, dirigindo, quando o farol bate num felino, naquele breve instante em que ele pára, calcula o risco do atropelamento e depois desaparece, meu olhar se encontra com o dele. Não, esta história não vai chegar a animais pretos na encruzilhada ou a Edgar Allan Poe. Nada de bruxos, nada de reencarnações. A partir de agora, é uma história de amantes como outra qualquer. Mas a minha namorada tinha um gato.

Conheci Mércia em um bar de jornalistas. Próximo à redação do jornal, o bar ficava aberto pela madrugada, esperando os notívagos. Os jornalista chegavam um a um, alguns eufóricos pelas belas reportagens, outros frustrados pelos cortes do editor, outros sonhando mais alto do que meras resenhas culturais, como Mércia. Ela trabalhava no caderno 2, passava a noite conversando sobre as matérias que fizera e as que não fizera. Quando conversava sobre contos policiais, seus olhos, bem, num desses olhares… terminamos a noite em seu apartamento.

Eu o enxerguei assim que ela abriu a porta: Philip, o gato. Enrodilhado no sofá da sala, levantou a cabeça, seus olhos fixos em mim. Passou a ser uma rotina. Duas ou três vezes por semana, do bar direto para o apartamento. Dormíamos até tarde, dez, onze da manhã, mas era durante a madrugada que temores me assaltavam. O gato, em algum canto da casa, eu sabia, espreitava. Meu olhar, vez por outra, cruzava com o dele na porta do quarto.

Naquela noite, quando entramos, eu não vi Philip. Estava cansado, fui direto para o quarto. Adormeci. Acordei perto das cinco da manhã, uma sensação de que estava sendo observado. Pressenti um vulgo se esgueirando na porta do quarto. Olhei em volta, a luz fraca do abajur projetou uma sombra na parede, felinamente rápida. Pulei da cama, Mércia se assustou. Suor começou a escorrer pelo meu rosto, ela perguntou se eu estava passando mal. “Preciso de um banho.”

Virei o rosto para o chuveiro, deixei a água quente bater em meu rosto por longo tempo, aliviando meus pensamentos. Quando entrei no quarto, Mércia estava sentada na beira da cama, minha camisa nas mãos, um olhar desolado. Você não vai acreditar. Ela abriu os braços e estendeu a camisa de malha. Três longos cortes paralelos, começando perto da gola, desciam até o fim da camisa, terminando pouco antes da barra. Perfeitos, descendo em diagonal, como três garras rasgando meu peito.

Mércia saiu gritando por Philip, fiquei com a camisa nas mãos, sentindo os cortes. Peguei uma camisa qualquer no guarda-roupa, vesti as roupas apressado sem dizer nada. Na porta, beijei Mércia um pouco menos demorado do que das outras vezes, os olhos tentando encontrar o gato atrás da amante. Desci as escadas, abri o portão da entrada, olhei para cima. Mércia estava na janela, como sempre. Mas eu só enxergava o olhar de Philip, em algum canto da casa.

Poemas adolescentes

A freira debruçou-se sobre os ombros de Bruno, olhou as letras no papel e ordenou que ele repetisse a lição: a s d f g, a s d f g. Na simplificação dos meninos do bairro, a Escola Profissionalizante Nossa Senhora da Piedade era chamada Cursinho das Freiras. Ficava na Rua das Freiras, fácil de falar como a Rua de Baixo e a Rua de Cima.

Na década de 70, o trágico desmoronamento da construção da Gameleira soterrou e matou diversos operários na hora do almoço. A construção foi abandonada, ficaram as ruínas e um gigantesco terreno vazio, plano – onde hoje funciona o Expominas. Os meninos fizeram ali um campo de futebol. Terra batida, pedras no lugar das traves, linhas imaginárias marcando as saídas do campo. Nas tardes de sábado, os meninos se reuniam aos poucos depois do almoço, uns convidando os outros: “vamos jogar bola no cemitério.” Tudo muito simples para mentes ainda desprovidas de dor e sofrimento.

Ainda criança, mas já sabendo da necessidade de trabalhar cedo, Bruno matriculou-se no curso de datilografia das freiras. Passava uma hora por dia dedilhando as teclas, dedo a dedo, letra a letra, até decorar a seqüência correta: a s d f g, ç l k j h. Por conta dessa persistência e do fascínio de ver as palavras se formando a tinta, virou exímio datilógrafo. Quando começou a trabalhar de Office-boy, contou nota a nota o primeiro salário, descontou o dinheiro da condução e gastou tudo na compra de uma máquina de escrever portátil, Olivetti Lettera 35, de metal, cinza, fita metade preta metade vermelha para os grifos.

Abandonou o cursinho das freiras e continuou o treinamento diário. Saía do trabalho, ia para o colégio noturno e depois das aulas gastava meia hora na mesa da sala de jantar, batendo a máquina, como a mãe costumava dizer. Às vezes, o barulho acordava a mãe, ela levantava-se, perguntava se Bruno tinha jantado e emendava, “o que você está fazendo?” “Escrevendo”, era a invariável resposta. Escrevendo trabalhos de escola, foi dos primeiros da classe a sempre entregar tudo datilografado, impecavelmente corrigido, escrevendo arremedos de contos, crônicas, qualquer coisa que se assemelhasse a um texto. Escrevendo poemas e mais poemas que o ajudaram muito nessa, para ele, difícil arte de conquistar.

Era a época das discotecas, das festinhas de bairro, cada fim de semana na casa de um amigo. Meninos e meninas chegavam com LPs, compactos, cassetes, o som 3 em 1 no volume máximo. Todo mundo dançando feito John Travolta no filme Os embalos de sábado à noite. Menos Bruno. Ficava encostado na parede da sala. Seus olhos sempre se apaixonavam, mas até ele se decidir a menina tinha sumido, sozinha ou com alguém mais despojado. Restava a máquina de escrever, à noite, a mãe assustada pela hora daquele negócio batendo.

Quando o tempo dava uma oportunidade ao flerte, bem lento no seu caso, ou seja, quando a menina se permitia a olhares furtivos durante dias – em alguns casos meses – Bruno descobriu um jeito. Entregava um pedaço de papel dobrado, dentro de um livro, no caderno de escola, ou pedia uma amiga para entregar. Ele esperava uns dias, tempo para a menina ler e reler o poema, e telefonava, convidando para um domingo à tarde no cinema. Sentavam do lado, os braços roçando, dedos acariciando o dorso da mão até se entrelaçarem. Beijavam-se e o filme ficava esquecido na tela.

Nessa noite, a mãe ouvia a máquina de escrever batendo mais forte.

Cortejo de amigos

Foi a madrugada mais fria do ano. Perto de 15 graus, edredons e cobertores saíram dos armários. A cama ficou mais aconchegante pela manhã. Cai uma chuva fina, o tempo incerto entre o outono e o inverno.

Gosto de lentidão pela manhã. Tomar banho quente pensando em coisas por fazer, outras já feitas. Nos meus tempos de agência de propaganda, gastava água e conta de luz em busca de idéias debaixo do chuveiro – cantores de terceira, poetas e redatores publicitários são uma ameaça ecológica. É bom preparar o café, me sentar à mesa com a xícara fumegante, sem pressa, tomando goles folheando uma revista, o jornal do dia. Às vezes, essa lentidão da manhã fria traz lembranças.

No rádio toca O Rancho da Goiabada, de Aldir Blanc e João Bosco. Pela segunda vez, presto atenção quase religiosa nesta música. A primeira foi no final da década de 70, no enterro de Zé Carlos, amigo de infância.

Ele morreu afogado em Guarapari, antes de completar 20 anos. As lembranças dele são esparsas: moreno, um pequeno bigode teimando em não crescer, cabelos bem curtos, gosto refinado por samba. Era daqueles que puxavam a canção em rodas de violão, de bem com a vida, a voz desafinada sobressaindo.

Nossa turma ia chegando aos poucos no começo da noite, saindo do trabalho, da escola.  O ponto era o bar da rua, mesas na calçada. As conversas, comuns: futebol, estudos, trabalho, mulheres, até a bebida começar os efeitos e alguém aparecer com o violão. Zé Carlos sempre dava jeito de puxar a música do João Bosco e Aldir Blanc. Ele começava cantando baixinho, acompanhando o ritmo do violão, olhos baixos, bebericando a cerveja nos intervalos, esperando a hora para soltar a voz: “e a sobremesa é goiabada cascão, com muito queijo depois café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor ou DAGMAR….” Pelo tom de voz, a alegria represada, quase um grito, fiquei com a impressão de alguma Dagmar na vida do amigo. Talvez uma mulher casada, sonho de muito adolescente.

No enterro de Zé Carlos, enquanto acompanhamos o caixão pelas alamedas do cemitério, uma voz tímida começou a cantar O Rancho da Goiabada. Os amigos foram aderindo até se transformar em um coro alto, triste, ecoando no vazio do Cemitério da Colina.

A música e o cortejo ficaram gravados na minha memória. Indissociáveis. A primeira lembrança triste da adolescência, como uma despedida daqueles dias felizes.

Hoje, nessa manhã fria de outono, acho a música mais bonita. Aumento um pouco o rádio, presto atenção, guardo trechos da letra na bela interpretação do Quarteto em Cy. Acabo de tomar o café, me preparo para sair, penso no trabalho que tenho pela frente. Aos poucos esqueço a música, me concentro em coisas mais presentes. Como tantas e tantas lembranças, O Rancho da Goiabada está guardada em uma pequena rua de bairro.